Casus belli

José Horta Manzano

O fato de

Lula
ir a Buenos Aires para um compromisso,
não ter encontro com Milei,
em vez disso, visitar a ex-presidente Cristina Kirchner
(atualmente condenada e comprindo prisão domiciliar)

equivale a

Milei
vir a Brasília para um compromisso,

não ter encontro com Lula,
em vez disso, visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro,
(atualmente inelegível e réu em processo criminal).

O distinto leitor e a encantadora leitora, se assim o desejarem, podem fazer uma visita dessas sem causar dano a ninguém. Mau gosto é sempre atributo pessoal e indiscutível. No entanto, se o protagonista da historieta for o presidente da República, o fato sobe uns degraus na escala de importância. O que é permitido ao reles cidadão comum nem sempre é admissível se provier de um alto dignitário.

Em termos despojados, estou falando da visita que Lula fez, dias atrás, a Cristina Kirchner, condenada por corrupção e atualmente cumprindo pena de prisão em regime domiciliar. Desconheço os montantes envolvidos nos processos nos quais foi condenada, desconheço também se ela provém de família abastada, mas avalio que o preço da tapeçaria que ela exibe na parede da sala deva corresponder a um certo número de meses do salário que recebia como “presidenta”. Madame tem bom gosto, ninguém há de contestar.

Lula da Silva, Mauro Vieira, o nobelizado Adolfo Pérez Esquivel e um quarto senhor, dois deles segurando cartazes de “Cristina libre” e um anacrônico “Lula livre”, todos posando com fundo de tapeçaria de valor, formam um conjunto desengonçado e ridículo. Brandir cartazes com reivindicações combina com jovens, que manifestam em passeata de avenida, megafone na mão. Na mão de nosso presidente, esse cartaz, francamente, não tem lugar de ser.

Como de costume, Lula da Silva não se limita ao script. Ele faz questão de falar, ao microfone ou em entrevista. São as horas mais perigosas, momentos que seus auxiliares temem. Não deu outra. Depois da visita à ex-presidente argentina, Lula afirmou: “Acredito na inocência de Cristina Kirchner”.

Sem se dar conta, Luiz Inácio cometeu afronta à Justiça do país vizinho. Vejam só: acreditar na inocência de um indivíduo já julgado, considerado culpado e sentenciado equivale a dizer que a Justiça argentina faz trabalho malfeito.

Lula é reincidente nesse tipo de ofensa. Na época de Cesare Battisti, fugitivo da Justiça italiana, chegou a dizer a mesma coisa: que acreditava “na inocência” do italiano. Anos mais tarde, foi obrigado a se retratar publicamente, um vexame.

Em tempos mais civilizados, o dirigente máximo de um país, em visita a um país vizinho, jamais ousaria ofender as instituições do anfitrião. Se o fizesse, sua tagarelice poderia ser considerada um “casus belli” – ato que provoca ou justifica uma guerra.

Se os antigos códigos de honra ainda estivessem em vigor, Lula da Silva seria considerado tão perigoso quanto Bolsonaro. Que São Benedito nos ampare!

Conversa de surdo

José Horta Manzano

Hoje me lembrei daquela piada do tempo em que ainda se podia fazer humor sem que alguém chamasse a polícia. Falava de dois velhinhos meio surdos que se avistavam, um de cada lado da rua.

O primeiro grita:
“– Vai pescar?”

O segundo responde gritando:
“– Não! Vou pescar!”

O primeiro (sempre gritando):
“– Ah, pensei que ia pescar!”

A última edição de The Economist, revista que não costuma ter papas na língua, publicou uma análise da baixa da influência de Lula da Silva, tanto no plano exterior quanto no interno. Argumentou que Luiz Inácio tem perdido influência no exterior ao mesmo tempo que se tem tornado menos popular no Brasil. Sua postura em relação às questões internacionais continuam hostis ao Ocidente – emenda a revista –, o que acaba afastando o Brasil dos antigos parceiros.

Falando da participação do Brasil no Brics, The Economist considera que o grupo parecia ser bom trampolim para a influência global do Brasil, mas a postura de Lula, de grande hostilidade ao Ocidente (leia-se: antiamericanismo), tem neutralizado essa possibilidade.

A mídia brasileira deu notícia do artigo da revista inglesa. O Itamaraty, ministério em que, por definição, ainda se conhecem línguas estrangeiras, entre as quais o inglês, também leu o texto. Lula ficou sabendo da crítica. Indignado, mandou Mauro Vieira, nosso chanceler, responder por escrito. O chanceler acatou e assinou uma carta de protesto em nome da República do Brasil(!).

Mais que surpreso, fico incomodado que o chanceler de um país como o Brasil, irritado com um artigo de revista, se sinta obrigado a justificar por escrito. Acho que ele não devia ter feito isso. Eriçar-se por tão pouco é ato que, além de não engrandecer nosso país, só faz aumentar o prestígio da revista. Aposto que, se a revista não fosse inglesa, mas uruguaia, indonésia ou egípcia, o Itamaraty não teria dado sinal de vida. Isso mostra que, ao contrário do que prega, Lula continua vidrado no que o Ocidente pensa dele.

O pior é que a “resposta” do Itamaraty não contesta o que foi dito – nem teria como. A influência de Lula no exterior está em baixa, é fato indiscutível. Sua popularidade entre eleitores também está em baixa, é um fato indiscutível. O que diz, então, a carta? Louva as qualidades de Lula e relembra, no detalhe, feitos de sua carreira. O que mais poderia dizer? Foi a carta do Itamaraty que me lembrou a piada dos velhinhos surdos: um diz uma coisa, outro responde algo totalmente fora de contexto.

Em primeiro lugar, acho que Lula não devia ter se mostrado incomodado com artigo de revista. Não fica bem para um chefe de Estado. Em segundo lugar, acho que Lula faria melhor em tomar nota da opinião do editor de The Economist, que, não fazendo parte de seus áulicos, diz a verdade como ela é. Talvez lhe servisse para refletir sobre a biografia que pretende deixar.

Viemos todos de algum lugar

Mauro Vieira com Ignazio Cassis, ministro suíço das Relações Exteriores

José Horta Manzano

Mês passado, Mauro Vieira, nosso chanceler, estava na Europa em viagem de trabalho. Passando pela Suíça, foi recebido pelo ministro de Relações Exteriores, Ignazio Cassis. Não sei se o que ocorreu em seguida já estava combinado entre os dois ou se foi improvisado.

Foram os dois de passeio numa pequena cidade da Suíça de expressão alemã. O burgo de 15 mil habitantes se chama Solothurn (que alguns traduzem em português com o estranho nome de “Soleura”). Mas, afinal, o que estariam fazendo dois chanceleres numa cidadezinha sem nenhuma expressão no xadrez mundial?

É que nosso chanceler se chama Mauro Iecker Vieira. Não parece, mas atrás desse pouco comum Iecker, aportuguesamento do original alemão, se esconde um tradicional Jecker, sobrenome suíço da região de Solothurn.

É isso mesmo: pelo lado materno, doutor Mauro Vieira descende de imigrantes suíços, originários do vilarejo de Erschwil (menos de 1000 habitantes), situado na região de Solothurn. Por fome, falta de perspectiva numa Suíça então paupérrima, seus longínquos ascendentes emigraram 150 anos atrás em busca da terra prometida.

Aportaram no Brasil e seguiram o caminho dos demais imigrantes: acabaram se amoldando à nova pátria e (quase) esquecendo a terra de origem. Sobrou o nome de família como marca de um passado de luta.

Mercado persa

José Horta Manzano

Futebol 1Nos últimos anos, as relações exteriores estão longe de ser o foco das atenções do Planalto. Na era do Lula, ações desengonçadas foram tentadas. Jogo de futebol para apaziguar a guerra entre palestinos e israelenses foi o truque imaginado por nosso iluminado guia, vejam só! Depois dessa, levaram um chega pra lá e recolheram-se a seu canto.

Por natureza, diplomacia é discreta. Dispensa ações espetaculosas. Grandes acertos entre nações não se fazem diante das câmeras nem na presença de jornalistas. Quando vem o comunicado oficial, já está tudo combinado.

O Lula, crente que possuía um «toque de Midas» capaz de moldar a realidade à sua conveniência, levou oito anos tentando deixar sua marca na história da humanidade. Não é impossível que tenha, algum tempo, acalentado a ideia de receber um prêmio Nobel. Em qualquer categoria servia, nem que fosse honoris causa. Evidentemente, não recebeu nada, que nem todo o mundo é trouxa.

Recolhido nosso guia à condição de cidadão comum, sua sucessora mostrou total inapetência – pra não dizer desdém – pela política internacional. A seu favor, diga-se que a moça tem tido muito com que se preocupar dentro das fronteiras.

Itamaraty

Esse desprezo do Planalto por assuntos externos, longe de ser negativo, começa a dar frutos. Afinal, convenhamos: dona Dilma, seus áulicos e seu partido lidam com relações exteriores, aos trancos e barrancos, há apenas doze anos. Enquanto isso, o Itamaraty carrega dois séculos de experiência no ramo. O traquejo de um e do outro não é comparável.

Quase na surdina, como se deve, o ministro das Relações Exteriores do Brasil está, este fim de semana, em Teerã. Não foi propor partida de futebol nem associação ao Mercosul. A visita é mais séria. No rastro do aquecimento das relações entre os EUA e o Irã, a perspectiva alvissareira é o fim do embargo que estrangula a economia da potência médio-oriental há 35 anos.

Poucos se dão conta de que o Irã – que também pode, sem ofensa, ser chamado pelo tradicional e poético nome de Pérsia – é um grande país. Tirando fora o regime autoritário, que ressuscitou costumes que a gente imaginava banidos para sempre, é uma nação de peso. Regimes passam, nações ficam.

Iran 1São 80 milhões de habitantes (tanto quanto a Alemanha). O PIB anual, estimado em 12 mil dólares per capita, está longe de ser irrisório. Para efeito de comparação, o Brasil chega a 16 mil dólares por cabeça, pouca coisa a mais. Uma curiosidade: o nome da moeda persa é rial, palavra que tem a mesma origem que nosso real – a moeda do rei.

Na mídia brasileira, a visita do chanceler Mauro Vieira não mereceu mais que nota de pé de página. A notícia, contudo, não escapou a países que estão de olho no imenso potencial do mercado iraniano pós-embargo. Entre eles, naturalmente, a China.

Teerã

Teerã

O fato de a agência oficial chinesa ter publicado artigo sobre o assunto mostra que o governo de Pequim está atento a todos os que tiverem intenção de levar uma lasquinha do novo mercado.

Quanto à agência oficial iraniana, já pôs no youtube a coletiva de imprensa dada hoje pelo ministro brasileiro e pelo homólongo persa. Está aqui.