Nove dias cruciais

José Horta Manzano

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Estes últimos 10 anos, os brasileiros viveram anestesiados pelas artes de um excelente marketing governamental, que fez crer a (quase) todos que a situação do País era infinitamente melhor do que parecia.

Parede rachada Crédito: Can Stock

Parede rachada
Crédito: Can Stock

O truque funcionou. Nosso povo, um dos mais tolerantes do mundo, fechou um olho para afagos feitos por nossos mandachuvas a dirigentes sanguinários e intolerantes, a ditadores ferozes e inescrupulosos, a vizinhos malcriados e agressivos.

Alguns ― principalmente os que contam com convênio particular ― chegaram a acreditar que os serviços públicos de saúde tinham atingido padrões de países civilizados. Pois não foi o próprio presidente quem declarou isso?

São Judas Tadeu Padroeiro das causas perdidas

São Judas Tadeu
Padroeiro das causas perdidas

Por ignorância ou por ingenuidade, nossos dirigentes de primeiro escalão acreditaram que o Bric ― mera sigla inventada por um analista, no aconchego de um escritório carpetado e climatizado ― tinha significado real e palpável na vida do planeta. Imaginaram que fosse um «bloco» de países companheiros, todos empenhados em desbancar os EUA de seu pedestal. Um por todos, todos por um! Como quem tivesse decifrado o enigma da esfinge, difundiram essa ideia ilusória, imediatamente comprada como verdade insofismável por muita gente fina no País.

Muitos se encantaram com a perspectiva de nos tornarmos meros fornecedores de matéria-prima para a China. Não se deram conta de que isso nos fazia regredir 50 anos e abandonar parte significativa de uma industrialização conquistada com paciência e tenacidade.

De uns meses para cá, o edifício dá sinais evidentes de fadiga. Foi construído sobre alicerces frouxos. Rachaduras se tornam mais visíveis a cada dia. Assim como o baile da Ilha Fiscal não foi a causa da queda da monarquia brasileira, não há que identificar no aumento de preço das passagens de ônibus a causa da revolta do povo brasileiro. Foi apenas o estopim.

Às autoridades, resta acalmar os ânimos e, rapidamente, mostrar empenho em conduzir os brasileiros a bom porto. Marketing é bom, mas tem limites. Um dia, a verdade acaba aparecendo e a coisa pode ficar preta para os lados de quem mentiu. Não se consegue enganar o País inteiro o tempo todo.

Enquanto preparam um plano de emergência para repor o Brasil nos trilhos, as autoridades maiores devem levantar os braços ao céu e pedir, com muita força, que o Brasil vença a Copa das Confederações. A vitória não transformará o País, mas aplacará os ânimos dos manifestantes e dará aos governantes algumas semanas de trégua.

Recomendo, portanto que todos os cortesãos se recolham ― por que não diretamente no Palácio do Planalto? ― para lá recitarem juntos uma novena a São Judas Tadeu, padroeiro das causas perdidas. Eventualmente, Santa Rita também costuma aceitar esse tipo de reclamo.

Como sabem todos, uma novena dura nove dias. Portanto, ainda dá tempo de terminar antes do fim da Copa. Mas tem de começar já.

Depois, não vale dizer que não avisei.

Bolsa de estudos

José Horta Manzano

A notícia parece boa. Vem de um fórum nacional organizado por uma certa Undime ― União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, braço do MEC.

Não tenho certeza de que o termo fórum tenha sido uma escolha feliz para designar o evento. Podiam ter usado encontro, simpósio, congresso, conferência, seminário, reunião. Fórum tem carga ideológica. Enfim, talvez tenha sido exatamente essa a intenção. Afinal, há que manter sintonia com o Zeitgeist, l’esprit du temps.

O fórum anuncia o plano do Ministério da Educação de conceder bolsas a estudantes da escola média que demonstrem interesse em seguir carreira científica. Uma questão de proteger a fruta ainda verde, antes que caia da árvore ou seja devorada pelos vermes. Aplaudi de pé.

De fato, o nó do atraso brasileiro está na falta de instrução, estamos todos cansados de saber. Portanto, toda e qualquer iniciativa que puder desempacar nossa juventude só pode ser bem-vinda.

Mas nada é perfeito. Quando a esmola é muita, o santo desconfia ― costumava dizer minha avó. Aliás, de uma reunião autodenominada fórum, pode-se esperar tudo.Praia

A surpresa demora, mas chega no finzinho da reportagem. Está lá explicado que o fórum se estende por 4 dias (de terça a sexta) num complexo hoteleiro très chic da Costa do Sauípe. Além de chique, o encontro é grandioso: congrega o impressionante total de 1’100 (mil e cem) participantes.

O repórter do Estadão assume que viajou a convite da Undime. Não diz o que estava incluído nesse «convite». Seria um simples aviso ou um pacote com viagem e estada pagas? Dado que repórteres não costumam esperar convite para cobrir eventos e deles dar notícia, é lícito deduzir que, neste caso, o chamamento tenha incluído o pacote completo, embrulhado e entregue em casa.

Na mesma linha de pensamento, é igualmente lícito deduzir que outros cidadãos tenham sido agraciados com o mesmo mimo. Quantos terão sido os felizardos convidados para uma temporada na Côte d’Azur baiana à custa do dinheiro suado dos contribuintes?

Os valores andam um bocado distorcidos no Brasil. Gastam-se cachoeiras de dinheiro em marketing para anunciar pacotes de boas intenções. Pouco importa que os anúncios venham ou não a ser seguidos de efeito. O alvo não é necessariamente esse.

Não é difícil entender o objetivo real: cativar a classe média, que, com valentia, continua resistindo aos charmes inconsequentes dos novos tempos.