Asilo na embaixada

Embaixada da Rússia em Brasília
Painel no saguão monumental

José Horta Manzano

Cutucado por jornalistas, Jair Bolsonaro acenou com a possibilidade de refugiar-se numa embaixada. Foi um balão de ensaio que ele soltou, não se sabe bem com que intenção.

A ‘ameaça’, se assim se pode qualificar a fala do figurão agora penalmente indiciado, me fez cogitar. Fazer o quê numa embaixada? E que embaixada escolher?

Parece que faz um tempão, mas foi este ano, em março, que Bolsonaro entrou de mala e cuia na embaixada da Hungria em Brasília, crente de que sua “amizade” com Viktor Orbán fosse lhe garantir tratamento VIP. De mala e cuia é expressão, que na verdade ele não levou roupa de cama nem alimento. Lá se instalou, sem pedir licença, com o sentimento de quem acha que tudo lhe é devido.

A tragicomédia durou dois dias, o tempo de o embaixador pedir instruções a Budapest. Que fazer com o incômodo visitante? Antes que a coisa caísse na voz do povo, Bolsonaro foi gentilmente convidado a retirar-se do local. Asilo? Não é possível.

Para que a notícia entrasse no domínio público pela grande porta, entregaram ao The New York Times, considerado o jornal mais importante do mundo, o relato do acontecido, acompanhado das imagens do circuito interno. Pra ninguém botar defeito. Todos puderam ficar sabendo que o candidato ao asilo tinha entrado por livre e espontânea vontade, sem coação.

À porta da embaixada da Hungria é que Bolsonaro não bate mais. Não quer levar outro desacato. Que embaixada(s) nosso ex-presidente indiciado poderia escolher agora? Vejamos.

Estados Unidos
Precisaria primeiro atravessar as portas do prédio. Não entra lá quem quer. Se lhe permitissem entrar, é de apostar num cenário à la húngara, ou seja, com um asilo sumariamente negado. Com ou sem Trump na Casa Branca, ninguém – nem Donald Trump – quer importar um trambolho incontrolável como Bolsonaro. O melhor a fazer é cortar o mal pela raíz, não permitindo a entrada dele sequer na embaixada. (Dependesse de mim, é o que seria feito.)

Países do mundo ocidental
Nas outras democracias ocidentais, calculo que o raciocínio seja o mesmo. Portanto, Alemanha, Canadá, Japão, França, Romênia, Austrália & semelhantes entram neste capítulo.

Argentina
Depois de eliminar o Ocidente democrático, sobram as ditaduras, a América Latina, a África e o sudeste da Ásia. Não imagino Bolsonaro batendo à porta da Argentina. Milei reina por enquanto mas… e amanhã?

África, Ásia
África? Ásia? Não consta que o ex-presidente se sentisse bem na África. No sudeste da Ásia (Tailândia, Filipinas, Nova Guiné)? Você acha?

China, Rússia, Índia
Eliminados todos os anteriores, quem é que sobrou? As ditaduras mais fechadas, que combinam com a alma e o espírito de Jair Messias. O nome principal é a Rússia. Seus satélites também entram na lista: Casaquistão, Bielo-Rússia, e os outros. Tirando a Rússia, o último refúgio possível seria a China ou a Índia.

Bolsonaro e seus filhos já trataram Pequim de todos os nomes e já lhe atribuíram todos os defeitos possíveis, a começar por “comunistas”. Com que cara vão agora pedir favor aos chineses? Quanto à Índia, é exótica demais.

Espremido o limão, quem é que sobrou? A Rússia, não vejo outro país. Se quiser escapar de Alexandre de Moraes, é para lá que deve ir. Mas não convém ir entrando assim na embaixada sem mais nem menos, como ele fez com a Hungria. Precisa antes combinar com os russos.

Maluco?

José Horta Manzano

Se eu não estiver enganado, é a primeira vez que temos no Brasil a autodetonação voluntária de um homem-bomba. Lembro da explosão do Riocentro, no longínquo 1981, só que aquele foi o estouro acidental e temporão do artefato que era pra ser usado num atentado, mas explodiu antes, por acidente, no colo de um militar. No caso de ontem, em Brasília, o homem realmente “se explodiu”, como se costuma dizer.

Instado a dar sua opinião, Bolsonaro foi logo se eximindo (em língua de casa: “tirando o corpo fora”) ao declarar não fazer a mínima idéia de quem fosse o explodido. Acrescentou que devia se tratar de um maluco. Acho que, até aqui, estamos todos de acordo: certos atos só podem ser atribuídos a malucos.

Maluco desvalido sai pela janela do trem em movimento e surfa no telhado. Maluco classe média aposta o valor do aluguel na véspera do vencimento. Maluco grã-fino fica feliz de ter dado o sinal para comprar um terreno na Lua aconselhado por um influenciador.

Agora, com um maluco que pega a estrada em Santa Catarina e dirige 1.700 km até Brasília a fim de cometer um atentado contra o STF “para consertar a Justiça e garantir nossa liberdade”, já entramos em outra ordem de grandeza. Com tráfego favorável, o homem há de ter viajado 22 horas carregando bananas de dinamite, coisa pra quem está realmente animado e convencido do que tem intenção de fazer.

Não sei se esse infeliz era pobrezinho ou ricaço. Não sei se estava mais pra surfar em telhado de trem ou pra comprar terreno na Lua. Uma coisa é certa: se o acesso de loucura que o levou a Brasília tivesse ocorrido antes da era bolsonárica, jamais teria tido a ideia de “explodir essa Justiça de merda”, conforme seu testemunho escrito. Teria surfado num trem ou, no paroxismo da crise, teria se jogado debaixo da locomotiva.

O ímpeto – ingênuo mas perigoso – de atacar fisicamente estátuas e personagens dos Poderes da República tem origem certa e atestada: Jair Messias Bolsonaro, seus atos, suas palavras, seus silêncios, suas insinuações, suas incitações. Ele, aliás, é quem está encrencado com a Justiça, que já se deu conta da influência que exerceu no encorajamento de atos tresloucados, que começaram com brigas de rua, assassinatos políticos e foram crescendo até o bouquê final: o 8 de janeiro.

O que se quer dizer aqui é que a “maluquice” de nosso homem-bomba, que se pôs a bombardear estátuas e edifícios, foi orientada pela intensa pregação de Bolsonaro, homem que é dinamite pura, embora nossa benevolente Justiça ainda o deixe solto por aí.

O pastor de almas malucas que nos serviu de presidente durante quatro anos, aquele que convenceu o homem-bomba a desdenhar trens e se dirigir contra Brasília, é, portanto, o verdadeiro autor intelectual dessa tragédia.

Polindo a biografia

José Horta Manzano

Se, antes da eleição, Jair Messias tivesse sido sincero e confessado aos brasileiros que seu futuro governo se resumiria a passar o tempo manobrando pra escapar da cadeia, em defesa do clã e esquecido do povo, certo não teria sido eleito. Não era de conhecimento público que a família Bolsonaro estivesse tão envolvida com milícias e outros círculos perigosos. O Brasil já elegeu muito estropício, mas capo mafioso é a primeira vez. Foi descuido terrível, que nos está custando caro.

Já houve presidentes bons; já houve presidentes medíocres; já houve presidentes ruins. Mas não me lembro de ter visto presidente sem projeto para o Brasil, que governasse exclusivamente para si e para o clã.

Se espremer bem esse primeiro ano de mandato, o que é que sai? Um caldo esquisito, com ministro do Meio Ambiente trabalhando pra destruir o meio ambiente; ministro da Educassão semianalfabeto; benesses distribuídas, à luz do dia, a parlamentares fisiológicos; incentivo oficial ao armamento da população; negacionismo escancarado da maior pandemia global do último século.

Os Três Patetas (os originais)

A lista de «esquisitices» é longa e conhecida. Não vale a pena gastar tinta com isso. A mais recente delas é a ocultação das estatísticas da pandemia no Brasil. Ignaro por falta de estudo e mal aconselhado por falta de visão, doutor Bolsonaro acha que, uma vez camuflada, a realidade some. Em sua estratégia rudimentar, acredita poder assim driblar a contagem macabra e dar a todos a impressão de que os mortos são poucos. «Não é tudo isso que dizem aí, pô!»

Será desmentido rapidinho por instituições sérias que já organizam contagem paralela – que vai acabar se tornando oficial. A biografia do moço vai guardar para sempre a marca do dirigente apavorado, que não teve peito pra enfrentar a grande peste de 2020.

Nos anos 1970, ao dissimular a realidade da epidemia de meningite que grassava em São Paulo, a ditadura deixou para a história a lembrança do bizarro triunvirato militar que tinha assumido o comando do país em 1969. De tão atrapalhado, o conjunto ficou conhecido com o apelido que lhes pespegou Ulysses Guimarães: «Junta dos Três Patetas». Doutor Bolsonaro tem lugar reservado nessa galeria de horrores: será o quarto pateta.

O Brasil e o bicho-papão

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro subiu ao púlpito da ONU e falou. Sua dicção não melhorou nadinha, mas, desta vez, ele teve sorte: apareceu um orador pior que ele. Pele escura e barrete no cocuruto, o senhor que presidia aos trabalhos tinha uma fala ainda mais absconsa. Impressionante, não sei se vocês ouviram. O homem falou antes de Jair Messias. Discursava em inglês, mas juro que só dava pra pescar uma palavra aqui, outra ali. Que fala enrolada, sô! Uma dublagem teria sido bem-vinda.

Estudos mostram que 9 em cada 10 leitores lê somente o título de cada artigo ou, no máximo, o primeiro parágrafo. O mesmo vale pra discursos solenes. Importantes são os primeiros dois ou três minutos; depois disso, o olhar vagueia e o ouvido amolece.

A primeira parte do discurso de nosso presidente levou a marca de Ernesto Araújo, seu ministro de Relações Exteriores. Não sei se ele fez de propósito, mas fato é que os primeiros minutos do discurso de Bolsonaro foram uma calamidade. O presidente autoproclamou-se paladino da luta contra a implantação do «socialismo» no país. Como é que é? Ele pronunciou a palavra ‘socialismo’ como se pecado fosse. Só faltou um pelo-sinal.

Alguém precisa dar umas aulas de política àquele pessoal do Planalto. Eles precisam urgentemente aprender o significado de conceitos básicos como socialismo, comunismo, nazismo, fascismo, liberalismo e quejandos. Embora essa família política não seja minha favorita, um governo socialista não é nenhum bicho-papão. Socialista não é comunista, aquele que come criancinhas. Os presidentes Mitterrand e Hollande, chefes do Estado francês, eram membros do Partido Socialista. A Espanha é atualmente governada por socialistas. O socialista Mário Soares foi presidente de Portugal. Por décadas, os países escandinavos foram governados por sócio-democratas. E nenhum desses países virou uma Venezuela.

Fiquei imaginando o espanto de um auditório que reunia a fina flor da política do planeta. Se o autor do discurso do presidente pretendia impressionar, pode ficar tranquilo: atingiu o objetivo. Só que impressionou no mau sentido. Doutor Bolsonaro subiu ao púlpito vestido e de lá desceu nu. Depois de contar que salvou o Brasil do socialismo, discursou por mais uns quinze minutos. Falou mal de Cuba, da Venezuela, do Irã. Mas o que disse não tinha mais importância. Os primeiros três minutos escancararam a realidade e carimbaram nosso presidente e sua troupe com um adjetivo incômodo: ignorantes. Pra fazer esse papelão, melhor teria sido ficar em casa.