O extremista caolho

José Horta Manzano

Não sei por onde andavam os extremistas de direita quando os de esquerda explodiam estações de estrada de ferro, sequestravam artesãos e matavam indiscriminadamente nos anos 70 e 80. Isso foi na Europa, mas até no Brasil, num tempo em que a vida andava muito vigiada e reprimida por aqui, esquerdistas extremados empreenderam ações ousadas e mataram gente.

Calada naqueles anos, a extrema direita só deu o ar de sua graça a partir dos anos 2010, coincidindo com a subida ao poder de Trump, Bolsonaro, Orbán e outros colegas europeus. Veio tarde, mas veio com força. Como prova disso, vejam o estrago que tem provocado no Brasil e no mundo. Bem tudo isso mostra que, independentemente da ideologia, a violência pode estar presente, basta cutucá-la com vara curta.

Direitistas extremos têm traços comuns com seus contrapontos da extrema esquerda. O desinteresse pelas grandes causas do país é um deles. O tarifaço de Trump dá mostra interessante. Para efeito de argumentação, vamos passar por cima dos capítulos iniciais da novela. Vamos direto ao capítulo mais recente, o encontro entre Lula e Trump.

O sucesso das tratativas, pelo menos até o momento atual, trouxe um alívio a inúmeros brasileiros. Muitos de nós estávamos assustados e apreensivos com o que estava acontecendo, cada um por um motivo. Uns temiam que sua pequena empresa exportadora fosse à falência, outros receavam perder o emprego, outros ainda se sentiam profundamente incomodados com o ataque intolerável à soberania nacional. Todos se sentiram aliviados de saber que as negociações iam no bom sentido.

Todos, não! A reação de bolsonaristas e de outros integrantes da direita extrema foi esquisita. Calaram-se e submergiram. Pior: tentaram (e continuam tentando) menosprezar e minimizar o que aconteceu na Malásia, que não lhes parece importante.

Ora, esse comportamento demonstra que certas pessoas não têm capacidade de enxergar além da ponta do nariz. Este escriba, que não é petista nem nunca foi, percebe que as tratativas entre EUA e Brasil estão indo no bom sentido. E festeja, porque, do jeito que as coisas vão, o final deve ser bom para brasileiros e americanos.

Não vejo por que razão eu deixaria de aplaudir iniciativas tomadas por políticos com quem nem sempre concordo, mas cuja ação me parece boa para todos. Infelizmente, parece que os extremistas, engessados por uma visão caolha, não têm capacidade de vislumbrar a grandeza de uma visão alargada do mundo. É pena.

Estagiário consegue efetivação

José Horta Manzano

Num curto mas bem estruturado artigo publicado hoje, a britânica The Economist insinua, em 750 palavras, que o mandato de Jair Bolsonaro pode ser curto. O escrito se atém ao essencial, podendo ser entendido até por um turista extraterrestre recém-chegado de Marte. O título é sugestivo: Jair Bolsonaro, Brazil’s apprentice president ‒ Jair Bolsonaro, o presidente aprendiz do Brasil”.

À vista do caminhão de trapalhadas que vêm sendo patrocinadas pela família Bolsonaro e por seu entourage, a profecia parece realizável. De fato, a persistirem os desencontros, as ofensas gratuitas, os escorregões na pista do bom senso e as rajadas de ‘fogo amigo’, o governo que está aí não vai longe. As portas estão abertas pra um desenlace abrupto.

No entanto, embora legalmente possível ‒ com um impeachment, por exemplo ‒ um abreviamento do mandato de doutor Bolsonaro está longe de ser provável. Se estivesse diante de um tapetão verde, eu apostaria minhas fichas na permanência do presidente. A não ser que motivos de acidente ou saúde não lhe permitam ficar, evidentemente.

Crédito: The Economist

Por um lado, acredito que, aos trancos e barrancos, doutor Bolsonaro & família vão acabar aprendendo que a sacola de votos que receberam não lhes dá carta branca pra segurar o país na rédea curta. Podem muito, mas não podem tudo. E que se cuidem, porque se um dos superministros (Guedes ou Moro) pedir as contas, o buraco será bem maior.

Por outro lado, não interessa a muita gente que o presidente seja destituído. Apesar de trapalhão, já mostrou ser inofensivo. Suas trapalhadas não atrapalham (com o perdão do eco) os interesses dos que realmente mandam no país. Que meninos se vistam de azul ou de amarelo, não tem importância. Que a embaixada do Brasil em Israel esteja em Tel-Aviv ou Jerusalém, pouca diferença faz. Que o 31 de março seja festejado nas casernas, o andamento da nação não estará perturbado.

Por pior que seja, o presidente ainda está a anos-luz de cometer as barbaridades dos antecessores. Com um país mais vigilante que nunca, hoje em dia seria difícil depenar a Petrobrás ou o erário. Grandes empresários, grandes produtores rurais e grandes banqueiros sabem disso. O mundo político e a intelligentsia também.

Tem mais. Na hipótese de o presidente ser apeado, o substituto seria doutor Mourão, homem bem mais inteligente e mais difícil de manipular. Portanto, um elemento perigoso. Ninguém sabe que caminho tomaria o país com o general na boleia. Não tanto por ser militar, mas por ter demonstrado ter ideias próprias ‒ um risco que ninguém quer correr.

Que durmam todos em paz. A menos que seja ceifado por um acontecimento fora do controle, doutor Bolsonaro chegará ao fim do mandato. E, apesar de ter declarado ser contra a reeleição, periga se desdizer, se recandidatar, e ganhar no voto mais quatro anos no Planalto. Quem é que nunca mudou de ideia? Assim é a vida.