Culpa da Dilma

José Horta Manzano

A edição online da revista alemã Der Spiegel publicou estes dias um artigo que analisa causas e possíveis consequências da afronta que dona Dilma sofreu quando de sua aparição no Itaquerão, na abertura da “Copa das copas”.

A análise é complexa. Inclui o resultado das últimas sondagens eleitorais, menciona a visita do vice-presidente americano, fala do empate da Seleção com o México.

Extraí o parágrafo que transcrevo abaixo, um bom exemplo da percepção que estamos transmitindo à mídia estrangeira.

Assim que Dilma Rousseff apareceu no telão, um coro obsceno se levantou no estádio Foto DPA - Deutsche Presse-Agentur

Assim que Dilma Rousseff apareceu no telão, um coro obsceno se levantou no estádio
Fonte: Der Spiegel     –     Foto DPA – Deutsche Presse-Agentur

Interligne vertical 12«Rousseff steht seit Monaten in der Kritik. Ihr werden die immensen Kosten der WM angelastet, die nicht erfüllten Versprechen von mehr Sicherheit und besserer Infrastruktur, die lahmende Wirtschaft. Eigentlich alles, was in Brasilien schiefläuft. Es werden schon Witze darüber gemacht: Ein Eigentor? Dilma ist schuld. Reifen platt? Dilma ist schuld. Milch ist aus? Dilma… Wohl nur die Fifa hat derzeit ein schlechteres Image.»

Interligne vertical 12«Faz meses que Rousseff amarga críticas. Dela serão cobrados os imensos custos engendrados pela Copa, as promessas não cumpridas de maior segurança e melhora da infraestrutura, a economia em marcha lenta. Em resumo: tudo o que acontece de errado no Brasil. Estão na moda piadas do tipo: Gol contra? Culpa da Dilma. Pneu furado? Culpa da Dilma. Acabou o leite? Culpa da… Francamente, no momento, só a Fifa tem imagem pior.»

Brasil x México

José Horta Manzano

Lula caricatura 1Abusando de seu senso inato para a delicadeza e para a diplomacia, nosso guia fez recentemente sutil pronunciamento repercutido pelo diário mexicano El Economista.

Declarou que, enquanto o Brasil é uma realidade econômica, o México não passa de uma promessa.

El Economista não hesitou em destilar a frase e fazer dela o título do artigo: «Brasil se envaidece de seu passado; México, de seu futuro».

Bateu, levou.

Frase do dia — 142

«É surrealista. Na opinião dos arautos da CLT, temos a melhor legislação do universo. Como entender, então, o que se passa na Justiça do Trabalho?

Deixamos de ser atraentes a investimentos. Convertemo-nos em zona incerta e perigosa. Ou mudamos rapidamente de rumo ou estamos condenados a ser como Cuba e Venezuela: governo forte, economia em pedaços.»

Almir Pazzianotto Pinto, advogado e antigo presidente do Tribunal Superior do Trabalho in Estadão, 29 maio 2014.

Frase do dia — 99

«O Brasil só ganha de poucos países africanos e latino-americanos como o Haiti quando se trata de gerar mais produtos com a mesma quantidade de capital e trabalho. Nossa produtividade equivale a um quinto da norte-americana.»

Fernando Canzian, colunista da Folha de São Paulo, 3 fev° 2014.

Frase do dia — 89

«A desconfiança em relação ao Brasil é excessiva. Os críticos estão exagerando.
(…)
Mas hoje (…) estamos fazendo road-shows.»

Guido Mantega, ministro da Fazenda de nossa República, em entrevista concedida dia 25 jan° 2014 aos enviados do Estadão a Davos.

Frase do dia — 81

«(…) A atual conjuntura sugere que o Brasil está se tornando uma Argentina, a Argentina está virando uma Venezuela, e a Venezuela já é quase um Zimbábue.»

Editorial do Estadão de 17 jan° 2014.

Frase do dia — 79

«(…) No comício oficial e obrigatório de réveillon, Dilma Rousseff denunciou ― eles continuam denunciando ― a existência de uma “guerra psicológica” para afugentar investimentos e desestabilizar a economia nacional. É muita modéstia do PT achar que alguém pode desestabilizar a economia melhor do que eles.»

Guilherme Fiuza em sua coluna na Revista Época. Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

O bolso e a bolsa

José Horta Manzano

Chegou o fim do ano e, com ele, o tempo dos balanços. Uns medem o que venderam, o que compraram, o que construíram, o que gastaram. Outros avaliam quanto engordaram, quanto emagreceram, quanto envelheceram. Cada qual com seu problema.

Em artigo de 30 dez°, Josette Goulart, do Estadão, nos informa que o índice Bovespa ― da Bolsa de Valores de São Paulo ― caiu 15.5% em 2013.

Esclarece a jornalista que o esfacelamento de uma companhia petroleira pertencente a um certo senhor Batista responde por nada menos que 40% do baque. O resto vem principalmente do encolhimento da Petrobrás e da Vale. A retração do mercado chinês se encarregou de completar a derrocada.

Não é preciso ser doutor em Economia para entender que, por detrás desse fracasso, estão as impressões digitais do governo brasileiro.

Os negócios do senhor Batista foram encorajados pelo Planalto e generosamente regados com dinheiro nosso. Em atitude típica daquele que nunca tinha comido mel, os luminares que imaginam governar o País se lambuzaram. E acabamos todos melados.Estatísticas 2

A Petrobrás ― cujo capital, frise-se, é majoritariamente constituído de dinheiro nosso ― tem sido instrumentalizada à moda bolivariana.

Para coroar a trapalhada, a ideologia míope que domina nossas altas esferas optou por menosprezar clientes tradicionais e atrelar nosso destino econômico à China.

O negócio do senhor Batista era vidro e se quebrou. A Petrobrás, sugada, enxugada e usada para fins politiqueiros, anda mal das pernas. A China desacelerou. Deu no que deu: a bolsa brasileira, que reflete a confiança que o mundo deposita no futuro de nossa economia, desceu a ladeira.

A Bolsa de Tóquio logrou excepcional valorização de 55%. A de Nova York subiu mais de 25%. Com informações da Reuters, aqui abaixo está a lista da valorização anual das principais bolsas europeias até 30 dez° 2013:

    Dublin         + 33,5
    Helsinque      + 28,7
    Atenas         + 27,9
    Frankfurt      + 25,5
    Copenhague     + 24,0
    Oslo           + 23,0
    Madri          + 20,9
    Zurique        + 20,1
    Bruxelas       + 17,8
    Paris          + 17,3
    Amsterdã       + 16,7
    Lisboa         + 16,6
    Milão          + 16,6
    Londres        + 14,0
    Viena          +  6,1

Para o ano que vem ― quem sabe? ― nosso governo toma jeito. Não boto muita fé, mas estamos em época de festa, de euforia. Afinal, Deus é brasileiro, não?

Frase do dia – 23

«(…) Dilma declarou que no primeiro semestre deste ano “… criamos 826 mil empregos com carteira assinada”. Exceto pelos empregos criados na área estatal pelo governo, quem cria empregos aqui, na Terra, é a economia (…)»

Roberto Macedo, in Estadão 15 ago 2013

E a gente quase acreditou…

José Horta Manzano

Quando o antigo presidente da República impôs à massa sua sucessora, apresentando-a como perita em economia, voluntariosa, firme, visionária, tocadora de obras, uma luzinha de esperança se acendeRessacau. Luz fraquinha, é verdade, mas parecia apontar para o fim do túnel. Passaram-se dois anos.

Em seu artigo deste sábado 16 de fevereiro, o jornalista Rolf Kuntz deitou no papel palavras duras. Mas, infelizmente, verdadeiras. A quem interessar possa, aconselho uma vista d’olhos no texto claro e lúcido. Está aqui.

Mas não nos desanimemos, brava gente, que vem aí a Copa 2014! Será melhor que um Carnaval! Duro mesmo vai ser enfrentar a ressaca da Quarta-feira de Cinzas que se seguirá. Periga ser pesada.

O pior cego…

José Horta Manzano

Trecho de um dos editoriais do Estadão desta segunda-feira 4 de fereveiro.

“Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, saudou como altamente importante a recuperação lenta, mas aparentemente firme, da produção americana. Afinal, a recuperação da maior economia do mundo é benéfica para todos. Não se sabe se o ministro, antes desse comentário, consultou o líder Luiz Inácio da Silva. O ex-presidente havia-se mostrado muito feliz por chegar ao fim do mandato com o Brasil ainda em crescimento e os Estados Unidos em recessão. Seria um despropósito, exceto em caso de guerra, festejar as dificuldades de qualquer outro país. Mais que um despropósito, seria uma enorme tolice alegrar-se por uma crise no mais importante mercado do mundo.
Mas essa tolice ocorreu.”

O texto completo está aqui.

Quem te viu, quem te vê

José Horta Manzano

«Je vous parle d‘un temps que les moins de vingt ans ne peuvent pas connaître». Essa é a primeira estrofe da belíssima canção ‘La Bohème’, obra de Charles Aznavour, um dos maiores letristas da língua francesa. Eu lhes falo de um tempo que os que têm menos de vinte anos não conheceram.

Também eu quero falar-lhes hoje de uma outra era, um tempo que a gente tem dificuldade em acreditar que tenha existido.

O Brasil é o gigante demográfico, industrial e econômico da América do Sul. Apesar de seus males ― que são muitos, sejamos honestos ― é o número um, sem concorrência nesta parte do mundo. No entanto, nem sempre foi assim.Para ti

Até meados do século XX, a nação preeminente do subcontinente não era nosso País, era a Argentina. Eram melhores que nós em quase tudo: poderio econômico, instrução pública, parque industrial, renda per capita, nível cultural, abertura para o mundo. Cem anos atrás, quando uma parte da população europeia, empurrada pela pobreza ou pelo espírito de aventura, tomou a decisão de emigrar, para cada um que escolhia o Brasil, dois se decidiam pela Argentina.

Em 1913, Buenos Aires já inaugurava sua primeira linha de metrô, feito que o Brasil só conseguiu igualar 60 anos mais tarde. Linhas marítimas que ligavam a Europa à capital portenha chegavam a anunciar acintosamente: «sem escala no Rio de Janeiro». As febres tropicais que se podiam contrair na capital de nossa República afastavam muita gente.

Nos anos 50, o Brasil ainda não podia se dar ao luxo de editar uma revista semanal dedicada exclusivamente ao público feminino. A Argentina já tinha a sua fazia muito tempo. Foi tentando soletrar os escritos do Para Ti, que uma velha tia-avó comprava sempre que lhe sobravam uns cobrinhos(*), que tive meu primeiro contacto com a língua de nossos vizinhos.

Nossos hermanos tinham tudo para continuar um caminho de sucesso. Era o que todos imaginavam. No entanto, não foi assim.

Que terá acontecido? Fica a impressão de que, em algum momento, alguma coisa se partiu, se interrompeu. O processo deu uma guinada. Quando e por quê? Economistas, sociólogos e cientistas políticos têm proposto explicações para essa deterioração. Não sendo especialista, não me cai bem especular. Não me resta senão constatar.

Fiquei surpreendido e, por que não dizê-lo, entristecido com uma reportagem transmitida pelo jornal da tevê suíça do dia 22 de janeiro. Conta a terrível história de uma mulher jovem, imigrante argentina vivendo atualmente em Genebra, na clandestinidade. A pobre gostaria de voltar para seu país, mas não tem dinheiro para comprar o bilhete.

A fim de obter a quantia necessária, a infeliz criatura propôs vender um de seus rins ou, eventualmente, uma parte de seu fígado. Uma história desatinada, inacreditável, de deixar boquiaberto.

Embora nunca tendo tido de enfrentar essa situação, creio saber que nossas representações diplomáticas têm obrigação de conceder uma passagem de volta a brasileiros que se encontrem em apuros no estrangeiro, como parece ser o caso dessa desventurada senhora.

Evidentemente, o bilhete de passagem posto à disposição do cidadão em dificuldade pelas autoridades consulares brasileiras nunca será dado de mão beijada. O repatriado não se safará com um simples «muito obrigado». Parece que nem mesmo um “Deus lhe pague” basta. O indivíduo terá de reembolsar o erário. Se não o fizer, dificilmente obterá novo passaporte.

Antes de mais nada, seria útil investigar a fundo a história dessa doadora singular. A ser verdadeira, é preocupante. Desconheço a regulamentação argentina no que tange à assistência que prestam a seus nacionais em caso de dificuldades no exterior. Tudo parece indicar que as leis de lá são diferentes das nossas. Como é que pode?Rico e pobre

Que o país vizinho esteja em situação econômica mais que complicada, disso sabemos todos. Mas que abandonem seus cidadãos ao deus-dará, obrigados a roçar atos desesperados como a ablação consentida de um órgão(!), aí já estamos passando dos limites. Entramos no cenário do salve-se quem puder.

De qualquer maneira, a lei suíça não permite a comercialização de órgãos. Doação, sim; venda, nunca. Portanto, não é por esse meio que a infortunada moça obterá sua passagem. Na Suíça, seus órgãos estarão salvaguardados.

Já disse alguém que uma nação só é grande quando consegue proteger seus cidadãos mais frágeis. Se, no Brasil, ainda temos um bom caminho a percorrer, parece que nossos hermanos estão metidos numa verdadeira camisa de onze varas.

Quem quiser assistir ao bloco de 2½ minutos do jornal suíço (em francês), clique aqui.

(*) O nome da pequena quantia de dinheiro que se leva no bolso varia com o tempo. O que hoje dizemos “uns trocados” já se chamou “manolitas” e, antes disso, “uns cobrinhos”. Fazia referência às moedas de menor valor, então feitas de cobre.

Contorcionismo contábil

José Horta Manzano

O assunto é meio árido. Melhor deixar que especialistas analisem, que não é minha seara. Assim mesmo, vale uma reflexão.

Jornais anunciam que, para «fechar as contas» de 2012, a União está lançando mão de contabilidade pra lá de criativa. Como um prestidigitador tira coelhos do chapéu, os guardiães das contas da nação têm se prestado a malabarismos nem sempre ortodoxos.

Os gregos, embora ortodoxos em religião, também tiveram o azar de contar com governantes que se valeram de expedientes bem distantes da ortodoxia para encobrir rombos nas contas nacionais. Alguns chamam a isso maquiagem. Os mandachuvas locais pediram ajuda a um grande banco internacional de investimentos e dele obtiveram cumplicidade. A malandragem durou anos. Quando a população descobriu, já era tarde demais.

Como todos sabem, mentira tem perna curta. O que tinha de acontecer aconteceu: o castelo de areia um dia desmoronou. O banco se safou lampeiro, quem pagou o pato foi o povo grego. A farra devastou a economia, além de afetar gravemente parceiros economicamente mais vulneráveis.Currencies

Já se passaram dois ou três anos e, neste momento, ninguém pode ainda afirmar ― com certeza ― que o euro, moeda única utilizada por 17 países, resistirá ao baque. Numa visão catastrófica, há quem enxergue até a extinção da União Europeia, tal como a conhecemos hoje.

Dá calafrios pensar que os magos da economia brasileira possam estar brincando com fogo. Malabarismo pode ficar bem no circo, mas contabilidade é ciência exata.

A contabilidade nada mais é que o espelho da realidade econômica nacional. Quebrar o espelho não vai consertar os problemas econômicos. Melhor atacá-los pela raiz.