É verdade, mesmo!

José Horta Manzano

A Interpol acaba de incluir em seu seleto rol de procurados o Signor Henrique Pizzolato, antigo diretor do Banco do Brasil, condenado a quase 13 anos de reclusão no processo do mensalão.

O homem foi diretor do Banco do Brasil, minha gente! O banco mais antigo do País, aquele que abriu as portas em 1809, por vontade de Dom João VI. Justamente aquele que estampa, na versão inglesa de seu site, o lema «A history of trust» ― uma História de confiança. Quanta ironia…

Wanted! ― Henrique Pizzolato ― Wanted!

Wanted! ― Henrique Pizzolato ― Wanted!

Por enquanto, pelo menos, o cavalheiro fugido escapa da Papuda. Tranquilo, vai poder usufruir da parte que lhe coube do butim surrupiado do suado povo brasileiro. Tranquilo? Tenho lá minhas dúvidas.

Não deve ter sido fácil escolher entre passar algum tempo eclipsado numa cela brasileira padrão cinco estrelas, ao abrigo de olhares indiscretos, e passar o resto da vida se esgueirando rente aos muros italianos e desconfiando da própria sombra. O Signor Pizzolato fez sua escolha. Ganhou, com isso, o raro privilégio de ter nome, idade e foto difundidos pela polícia internacional. Wanted! É glória reservada a um punhado de gente fina.

Lembrei-me de um detalhe pitoresco. Há de ser mera coincidência, mas vale a pena mencionar. Uma das tradicionais atividades da mafia siciliana é o achaque de pequenos comerciantes. Os pequeninos são coagidos a pagar aos criminosos uma «taxa de proteção». Caso se recusem, as represálias podem chegar à destruição do comércio ou até pior que isso. Em terras sicilianas, o montante extorquido leva o curioso nome de «pizzo».

A desonestidade já é terrível defeito. Mas a defecção ― uma traição perpetrada contra seus próprios comparsas ― é ainda mais tremenda. Shame on Signor Pizzolato. Vergogna!

O vice

José Horta Manzano

Quando Dom João VI voltou para casa, após o desaparecimento de Napoleão, deixou no Rio de Janeiro seu filho Pedro. Naqueles tempos recuados, quem subia num barco para atravessar o Atlântico não sabia sequer se chegaria a bom porto. Portanto, as regras mais elementares de prudência recomendavam já deixar engatilhada a sucessão.

Abaixo o vice!

Abaixo o vice!

As viagens que Dom Pedro II ― neto de João VI ― empreendeu pelos Estados Unidos, Europa e Oriente Médio, na segunda metade do séc XIX, eram demoradas e, até certo ponto, arriscadas. Convinha deixar sempre um substituto sentado na beiradinha do trono. No caso de nosso barbudo e simpático imperador, a prontidão era assegurada por sua filha Isabel.

Até uns 20 ou 30 anos atrás, ainda convinha ter alguém preparado para a eventualidade do impedimento temporário ou definitivo de presidentes, governadores, prefeitos. Comunicações eram complicadas, estradas eram ainda piores do que são hoje(!), ninguém levava um telefone no bolso. E organizar uma nova eleição era verdadeira maratona.

A Constituição de 1988, embora já pudesse ter mudado o cenário, optou pela comodidade e preferiu não fazê-lo. A figura do vice foi conservada sem retoques.

Cá entre nós: convenhamos que, nos dias atuais, o substituto eventual tornou-se uma excrescência. Se essa prática fazia sentido quando foi instituída pela Constituição dos EUA quase 250 anos atrás ― de onde foi copiada por outras repúblicas americanas ― hoje perdeu a razão de ser.

Chega a ser ridículo o ritual de transmissão temporária de poder que o presidente encena ao pé da escada do avião. A partir daquele momento, teoricamente, o presidente deixa de exercer suas funções. Portanto, quem parte para uma visita oficial é um impostor, dado que o verdadeiro presidente ficou em Brasília. Eta situação enrolada! Não se pode ser e não ser ao mesmo tempo.

Abaixo o vice!

Abaixo o vice!

Muitos países sobrevivem sem a figura do vice. E vão muito bem, obrigado. A França, por exemplo. Por lá não há vice-presidente, nem vice-prefeito, nem suplente de quem quer que seja. O presidente do país, quando em viagem ao exterior, continua assumindo seu cargo. Não há necessidade de transmitir poderes a um substituto. Caso venha a falecer ― o que de fato aconteceu quando Georges Pompidou morreu em abril de 1974 ― o presidente do Congresso assume os poderes presidenciais durante algumas semanas, enquanto se realizam novas eleições.

Imaginem se a figura do vice desaparecesse da paisagem política do Brasil. Seriam 5500 vice-prefeitos a menos, quase 30 vice-governadores, um vice-presidente. Sem contar os suplentes de senador, outra aberração. A economia gerada por essa amputação ― salários, palácios, mordomias, motoristas, assessores ― poderia ser investida, com grande vantagem, na Instrução Pública.

Taí um item interessante a ser incluído na reforma política. Sairíamos todos ganhando.

Interligne 11Nota etimológica: Vice deriva da mesma raiz que deu vez. A locução em vez de é da mesma família