COP30: os zigues e os zagues

José Horta Manzano

Vamos fazer de conta que a COP30 é um zigue-zague. Vamos combinar as regras do jogo? Digamos que o zigue é o positivo, o que vai pra frente, são passos que seguem as regras do jogo. Já o zague é o negativo, o que vai pra trás, são decisões que contrariam as regras e fazem o jogo fracassar.

Quinta e sexta, nos preliminares da COP de Belém, presenciamos muito oba oba. Dirigentes do mundo todo, reis e rainhas, Macron tietado na avenida, o Príncipe de Gales, mão no coração, declarando-se encantado com o Brasil. Mas o tapete vermelho durou só dois dias. As excelências se foram e entregaram a arena aos que aqui vieram para o trabalho de salvar a vida no planeta da autoextinção que se aproxima.

Zigue
Foi num arroubo, provavelmente irrefletido, que o presidente Lula propôs que a COP30, atribuída ao Brasil, se realizasse em Belém. Segundo ele, o propósito desse tipo de reunião combinava com um ambiente amazônico.

Zague
No entanto, ao propor Belém, Lula deu mostra de que, como muitos conterrâneos, não se dá plenamente conta da utilidade de um congresso desse tipo. Ele parece imaginar que ali se discute unicamente a preservação da floresta equatorial e mais nada. No entanto, o tema é bem mais amplo. O abandono da utilização de combustível de origem fóssil é tão premente quanto o fim do desmate.

Problema colateral não previsto por Lula ao designar Belém: a cidade não está capacitada a abrigar tantos hóspedes estrangeiros ao mesmo tempo. Falta infraestrutura decente, falta alojamento, faltam restaurantes, falta quem pelo menos balbucie inglês. Simpatia é bom, mas não basta.

Zigue
O Brasil tem mostrado aplicação no sentido de que o saldo desse congresso seja positivo e resulte em avanço real da causa. É sempre importante que o anfitrião abrace o tema que estará sendo debatido.

Zague
Continua um mistério o fato de os barões do agronegócio brasileiro não estarem implicados na luta contra as mudanças climáticas. Eles estão entre os maiores interessados. Tanto na agricultura quanto na pecuária, o regime de chuvas é essencial. Sem precipitações regulares, que caiam na temporada certa e em quantidade razoável, não é possível obter boa colheita nem criar gado saudável. Sabendo-se que o gradual desaparecimento da floresta amazônica já está modificando o clima brasileiro, com longas secas e enchentes catastróficas, cruzar os braços para o clima e divertir-se num rodeio é suicídio programado.

Zigue
Bom de bico que sempre foi, o presidente Lula tem feito belíssimos discursos, que incluem até ousados beliscões em Donald Trump.

Zague
A escutar nosso presidente, ninguém diria que ele não vê a hora de fazer os primeiros furos de prospecção de petróleo na margem equatorial. Ele me faz lembrar o bêbado e a equilibrista, sendo que, no caso, o bêbado e o equilibrista são o mesmo personagem. É difícil exercício de equilibrismo entre a proteção do clima e a candidatura do Brasil à OPEP.

Um Zigue para resumir
Está passando da hora de os brasileiros aprenderem, desde a escola elementar, que a proteção do meio ambiente começa em casa, nos pequenos gestos do quotidiano. Plantar uma mudinha no Dia da Árvore é bonito, mas não basta. A água que escorre sem necessidade da torneira, o pão de ontem que, em vez de ser jogado fora, pode ser guardado num saco plástico e esquentado no forno ou na chapa. Há mil e um conselhos que se devem dar a todos para se conscientizarem de que a natureza não está só na distante Amazônia, mas também aqui. Somos todos parte da mesma natureza.

A natureza somos nós!

De volta para o futuro – 1

José Horta Manzano

O sonho de todo comerciante é baixar seus custos sem prejudicar a qualidade do produto ou do serviço fornecido. Os armadores – aqueles que cuidam de transporte marítimo – têm de prever a evolução de seus custos com grande antecedência. Considerando o planejamento, a construção e a entrega, fabricar um cargueiro de grande porte leva muitos anos.

Não é segredo para ninguém que as reservas globais de petróleo são limitadas, e que vão se extinguir um dia, talvez até antes do que se pensa. Guerras e tensões mundiais, por seu lado, podem levar o preço dos combustíveis fósseis às alturas, como é o caso atualmente.

O item mais pesado na planilha de gastos de um navio cargueiro é justamente o óleo combustível. O objetivo de todo armador é baixar quanto possível sua utilização.

“Solid Sail” – retenha essa expressão. Vai se tornar comum dentro em breve. Trata-se de nova geração de vela que, em vez de queimar petróleo caro e poluente, aproveita a energia mais abundante nos mares do planeta: o vento.

A vela tipo “solid sail” não é feita de tecido, como nos atuais veleiros de turismo. É construída com materiais compósitos, uma aliagem que apresenta diversas qualidades interessantes: baixo custo, leveza, solidez e resistência.

A nova geração de velas é fácil de recolher. Não funciona mais como nos filmes de pirata, em que um marujo tinha de subir por uma escada de corda e enrolar o pano no muque, baloiçando aos ventos de mares nunca dantes navegados. Tudo é automatizado. Basta apertar um botão, e a vela se recolhe sozinha, dobrando como persiana. É crucial em caso de forte vento contrário ou de tempestade em alto mar. Nessas horas, o barco volta a ligar o motor tradicional.

Os primeiros navios a experimentar esse novo modo de propulsão estão em fase de construção nos Chantiers de l’Atlantique, canteiros navais franceses. Nesta fase experimental, estão sendo produzidos barcos menores. Dependendo do desempenho deles e de futuras encomendas, porta-contêineres e cargueiros de grande porte serão construídos.

A ideia é excelente e, excetuando as petroleiras, deixa todo o mundo contente. Diminui os custos de transporte, não polui o mar e não contribui para o aumento do efeito estufa. O novo conceito não elimina o combustível, mas reduz fortemente seu uso.

Pensando bem, a ideia de fazer longas viagens em barco à vela não é nova. Mais de meio milênio atrás, as caravelas de Vasco da Gama já havia chegado à Índia à força do vento. Ora pois.

Foguetes maranhenses

José Horta Manzano

Cada um usa os trunfos que tem. Se não usar, estará dormindo no ponto. E olhe que tem gente tirando soneca profunda. Desde que os russos ‒ então conhecidos como soviéticos ‒ tomaram a dianteira na corrida espacial ao lançar o Sputnik em 1957, uma luzinha vermelha acendeu no painel dos países mais avançados. Se eles podem, nós também, uai!

Na época, a competição só tinha mais um participante: os EUA. De lá pra cá, meia dúzia de países se aventuraram na empreitada. O clube, assim mesmo, continua seletíssimo. A França veio logo em seguida. Já no início dos anos 60, montou um centro de lançamento de foguetes no desértico sul da Argélia, então colônia francesa. A China, a Índia e até a misteriosa Coreia do Sul têm feito o que podem para acompanhar os pioneiros.

Um fator constante salta aos olhos. Todos escolheram sítio de lançamento próximo da linha do Equador. Próximo é maneira de dizer, que cada um fez o que pôde. A URSS, situada longe dos trópicos, instalou-se em Baikonur, no Cazaquistão, a uma latitude de 45°, um dos pontos mais ao sul de seu território. Os americanos deram preferência à Florida, estado mais meridional do país. Estabeleceram-se no Cabo Cañaveral(*), a 28,5° de latitude. A França, que se tinha instalado no sul da Argélia, a 31° de latitude, ficou de mãos abanando ao perder a colônia. Depois de estudar diferentes possibilidades, transferiu o centro espacial para Curu (Kourou), na Guiana Francesa, praticamente na linha do Equador.

E por que é que todos procuram se aproximar do Equador? É fácil entender. A Terra gira de oeste para leste. Para aproveitar o impulso dado pela própria rotação do globo, todo foguete é lançado em direção ao leste. A velocidade de rotação da Terra ‒ conhecida na física como velocidade tangencial ‒ é tanto mais elevada quanto mais próximo se está do Equador.

Base de Alcântara, Maranhão

Portanto um foguete lançado da região equatorial requer menos combustível para o arranque. Calcula-se que, em comparação com Cabo Cañaveral, utiliza-se 15% de combustível a menos para obter o mesmo desempenho. É considerável. Eis uma das razões pelas quais a Agência Espacial Europeia tem tanto sucesso com a base francesa da Guiana. Até foguetes russos são lançados de lá.

No tempo dos generais, o Brasil se deu conta de que contamos com esse trunfo: o Equador corta nosso território. Desde 1983, foi instalado um centro de lançamento em Alcântara, no Estado do Maranhão, a 2° de latitude. Uma tragédia ocorreu em 2003, quando uma explosão acidental matou mais de 20 técnicos e cientistas, e acabou freando o projeto.

Passaram-se 14 anos. Foram justamente anos em que as preocupações do andar de cima estavam focalizadas em outros assuntos. Lançamento de foguete não costuma gerar propina, que fazer? O projeto foi sendo empurrado com a barriga. E olhe que a localização do sítio é ideal. Fica praticamente no Equador, em região de clima estável, não sujeita a furacões nem a terremotos. Além disso, a linha costeira é orientada de norte a sul, com o mar a leste. Dado que os foguetes são lançados em direção ao oceano, o risco de caírem acidentalmente sobre zona habitada é praticamente nulo.

Cañaveral: campo de caniços
crédito: wikipedia

Com esse trunfo, é difícil entender por que razão a base ficou até hoje sem utilização comercial. Li esta semana que os EUA estão interessados em utilizar as instalações. Alvíssaras! A negociação terá de ser conduzida com perspicácia. Há que se evitar, a todo custo, a implantação de uma espécie de Guantánamo, que escape à soberania nacional. Obtidas as garantias, o resto é lucro. Que venham logo lançar satélites a partir do Maranhão. Só temos a ganhar.

(*) Cañaveral é palavra de origem castelhana. Designa um campo coberto de caña vera, planta nativa cujo nome científico é Phragmites australis. Na nossa língua, dizemos caniço. Cañaveral é um caniçal, se é que nos podemos exprimir assim.

Balanço de fim de ano

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Em anos normais, fujo das retrospectivas ‒ que pululam por toda parte ‒ como o diabo foge da cruz. Além daquele gosto azedo de “déjà-vu”, as imagens coladas umas às outras em flashes alucinados, acompanhadas por uma locução empostada e altissonante, só fazem reforçar minha sensação de enjoo, tontura e ressaca, como se eu tivesse passado o ano envolta em desenfreada esbórnia.

Neste ano terrível que periga não se despedir sem novas pitadas de indigestos acontecimentos, manter a televisão, o rádio, o computador, o celular, a internet e as redes sociais inoperantes é decisivamente questão de saúde mental. Ninguém, acredito eu, vai ter estômago nem fígado para digerir a sucessão de eventos trágicos que envenenaram nossos dias por estas bandas, nem aqueles que enlamearam mais uma vez a história da civilização universal.

check-list-1Como já disse muitas vezes, invejo os animais por sua capacidade de viver apenas no presente. O passado, idealmente, deveria estar a serviço de nosso aprendizado, desvelando a estupidez das escolhas erradas que fizemos e iluminando nossa capacidade de nos desviarmos dos buracos e becos sem saída. Infelizmente, não é assim. A montanha-russa de imagens e sons recortados acaba inexoravelmente por reativar mágoas e ressentimentos que julgávamos adormecidos, ajudando a cavar ainda mais fundo o fosso que separa os que acreditam ter se posicionado do lado certo da história e os que se deixaram iludir por apostas temerárias.

Não quero jogar mais gasolina nesse incêndio, mas não posso me furtar a apontar uma assustadora analogia entre as decisões que tivemos de tomar no plano econômico, político e social ao longo do ano e o trágico acidente aéreo que vitimou a equipe de Chapecó. Acompanhem comigo as coincidências e vejam se não tenho razão.

Os dirigentes do time vice-campeão da Copa Brasil precisavam contratar uma companhia aérea para nos levar até o destino com que sonhávamos há muitas gerações. Tinham uma importante final de campeonato de ética e capacidade de gestão pela frente e sentiam que já estavam preparados para garantir o cumprimento das regras pelos jogadores e técnicos. Ainda que de modo titubeante, recrutaram analistas e consultores especializados para pesquisar os antecedentes e os critérios de qualidade adotados pelas empresas interessadas na licitação. Estes entregaram seus relatórios, aconselhando que o contrato fosse fechado com a empresa que demonstrasse possuir os recursos técnicos mais avançados e a equipe mais idônea e mais comprometida com o bem-estar dos passageiros. Entretanto, depois de muito ponderarem, os dirigentes, ainda assustados com as perspectivas sombrias de prolongamento da crise financeira do clube, acabaram optando pela companhia que propôs o custo mais baixo.

Estadio 1Embora pequena, essa empresa já havia lhes prestado serviços minimamente satisfatórios em ocasiões anteriores. Se o nível de conforto e segurança que ela propunha não podia ser descrito exatamente como o ideal, ao menos eles encontravam consolo no fato de que o piloto escolhido para comandar o voo já conhecia a região e estava familiarizado com as carências e desejos dos passageiros.

O avião praticamente lotado com nossas esperanças de um futuro melhor estava na cabeceira da pista, pronto para decolar, mas faltava aguardar a autorização do controle aeronáutico. O despachante da companhia vencedora havia entregado o plano de voo no último minuto e algumas irregularidades na documentação haviam sido constatadas. Os órgãos responsáveis pela autorização da decolagem (TCU, TSE e STF) alertaram que não havia combustível de reserva para chegar com segurança ao destino caso houvesse alguma emergência. O despachante deu de ombros ao alerta e respondeu com certa empáfia: “Faremos o trajeto em tempo menor, não se preocupem”.

Intimidados diante do histórico de aprovação automática dos planos de voo em todas as administrações anteriores, os órgãos controladores limitaram-se a assinar, com ressalvas, a autorização. O avião decolou. Tudo correu como previsto nos primeiros minutos, mas, logo depois de a aeronave ter estabilizado e entrado em velocidade de cruzeiro, pequenos sinais de alerta de mau funcionamento começaram a surgir por todos os lados. O espaço exíguo entre as poltronas, o forte ruído interno, o precário serviço de bordo e a desatenção da equipe de comissários para com as necessidades especiais de alguns passageiros somaram-se à turbulência típica do trajeto e detonaram um clima generalizado de insatisfação.

Havia uma escala prevista para reabastecimento (convocação de eleição direta), mas o piloto – que também era um dos sócios-proprietários da companhia – optou por não fazê-la. Sabia que a margem de lucro da empresa seria seriamente comprometida se tivesse de pagar por mais combustível e confiava cegamente em sua própria capacidade de encurtar o tempo de viagem. Acreditava também que bastaria conceder algumas benesses aqui e ali, distribuir sorrisos e se mostrar simpático para que os passageiros mais exaltados se aquietassem.

aviao-17A poucas milhas do destino, no entanto, percebeu que os tanques da aeronave estavam praticamente esgotados. Relutantemente, acionou a torre de controle e pediu prioridade para pouso, sem informar com exatidão qual era a emergência a bordo (aprovação da PEC do Teto e Reforma da Previdência). Foi informado de que já havia outra aeronave nessa condição (dívida dos Estados). Foi orientado a dar voltas até que a outra pousasse.

Um tanto temeroso, mas ainda confiante de chegar com segurança ao destino, uma vez que já havia enfrentado situações de risco semelhantes, o piloto permaneceu em silêncio por mais alguns minutos. Aos poucos, a aeronave foi perdendo altitude e se aproximando perigosamente do cume das montanhas da região. Angustiado, o piloto deu-se por parcialmente vencido. Sem usar o código internacional obrigatório que poderia colocá-lo imediatamente em terra firme, gastou, tresloucado, os poucos segundos de que dispunha para admitir que enfrentava pane elétrica total causada pela falta de combustível (crise ética e decorrente falta de credibilidade da tripulação) e solicitar que lhe fossem informados os vetores para o pouso. Infelizmente, era tarde demais. O choque com a montanha Lava a Jato foi inescapável.

O que pretendo demonstrar com essa analogia? Será que a retrospectiva de 2016 pode ser resumida como crônica de uma morte anunciada? Não, ainda não. Anime-se, foram encontrados sobreviventes! Cerca de 10% dos passageiros escaparam da morte e já se preparam para voltar a campo.

Feliz 2017 para todos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.