Abertura na política externa

José Horta Manzano

Sem dúvida, é sempre mais fácil lidar e conversar com gente que compartilha nossas ideias. No entanto, de um chefe de Estado, espera-se mais que a opção pela facilidade. No fundo, não precisa ter qualidades especiais para tratar com “amigos” – isso está ao alcance de qualquer um. Somente os grandes estadistas conseguem trocar ideias de maneira civilizada com adversários ou desafetos.

Lula da Silva não é o primeiro nem o último lider a torcer o nariz para chefes estrangeiros cujas ideias não coincidam com as suas. Bolsonaro, seu antecessor, bem que procurou aproximar-se de seus pares, mas em geral foi rejeitado. Já com Lula é diferente. Sua fama de “pai dos pobres” o precede e consegue abrir-lhe portas que, para um outro, permaneceriam fechadas.

Em seus primeiros dois mandatos, um Luiz Inácio deslumbrado rodou mundo e foi, com encanto e volúpia, ao encontro de reis, príncipes e todos os que o quisessem receber. E todos queriam. Já neste terceiro governo, sabe-se lá por que razão – a lassitude própria da idade que avança ou a mágoa de ter passado pela casa prisão –, o fato é que o velho demiurgo parece mais emburrado, mais rígido e menos disposto a tratar com os que não professem sua visão de mundo.

Em vez de facilitar-lhe a existência, esse agarramento a princípios por vezes obsoletos fecha-lhe portas. E, por via de consequência, bota o barco brasileiro em águas mortas, de calmaria, de não avanço, transformando nosso país em ostra que se recolhesse à própria solidão.

Há males que vêm pra bem, costuma-se dizer. O vendaval Trump, que chacoalhou o mundo e, em especial modo, nosso país, terá tido ao menos o mérito de mostrar a nossos estrategos que pular de cabeça na fantasia do tal “Sul Global” é inútil e perigoso. Nada de bom pode sair de um balaio de gatos que inclui China, Índia, Rússia e nenhum país ocidental. O terceiro-mundismo podia cair bem nos anos 1970 de Gamal Nasser, Indira Gandhi e Jozip Bros Tito. Hoje, como dizer, está meio démodé.

Em política externa, não há amigos, há interesses. Acho completamente estúpido ver cúpulas do Mercosul em que um chefe de Estado não comparece porque “não se dá” com outro. Ora, não estamos falando de festa de batizado de sobrinho, gente. O nível é (ou deveria ser) mais elevado.

Me alegra ver que Lula, e os que lhe sopram sugestões ao ouvido, estão finalmente despertando para a realidade. Dirigentes passam, Estados permanecem. Há que passar por cima do fato de tal governante ser de direita e tal outro de esquerda. Tanto faz. Todos temos interesses comuns.

Nunca é tarde demais para fazer o certo. Que continuem nessa via.

Decepções

José Horta Manzano

Não sei se os pequerruchos de hoje ainda acreditam em Papai Noel. De criança, acreditávamos todos, ingênua e piamente. Escrevíamos cartinha, preparávamos lista de desejos. Uma vez cheguei a envelopar minha carta e enfiá-la numa caixa de correio. Não sei que fim levou.

Cada um tem sua própria vida, com encantos e choros que às vezes começam cedo. Se nada de mau acontecer antes, a primeira grande desilusão vem no dia em que a criança descobre que o bom velhinho não existe, que era apenas invenção dos mais velhos. Mas isso acaba passando.

Mais pra diante, a gente acredita (ou gostaria de acreditar) que os heróis da juventude fossem reais. Hoje, não sei o que encanta essa moçada de telefone na mão, mas os do meu tempo faziam força para acreditar na bondade do Zorro e na existência da kryptonita que dava força ao Super-Homem. A desilusão veio logo. Mas isso acaba passando.

Um pouco mais tarde, vi multidões se entusiasmando pelos comícios do Jânio Quadros, todos condoídos com a humildade daquele que fazia pausa no discurso para morder um sanduíche de mortadela. Eu não votava naquele tempo, mas vi muitos botarem fé no demiurgo. Foi um furo n’água que acabou custando caro ao país. Longa decepção. Mas isso acaba passando.

Décadas mais tarde, veio um momento especial em que a corrupção, mais robusta que de costume, saltou aos olhos da sociedade. Foi aquela sequência de mensalões e petrolões proporcionados por um partido que, de trabalhador, só tinha o nome. No poder, eles mostraram que eram bons mesmo para ganhar dinheiro no mole. A decepção foi chocante. Mas isso acaba passando.

Naquele momento surgiu, das brumas de Curitiba, um bravo juiz de província que, tal um Zorro ressuscitado, montou a cavalgadura e prometeu varrer a bandalheira. Entusiasmado, meio Brasil acreditou. Ao fim e ao cabo, foram descobrir que o personagem era tão desonesto quanto os que prometia combater. De ex-futuro presidenciável, baixou a crista e está hoje estacionado em Brasília, longe dos holofotes que já não se voltam para ele. Foi chata, a decepção. Mas isso acaba passando.

Mais uma década escorreu. Veio um Bolsonaro, que quase levou o Brasil para o beleléu. Escapamos de nos apequenar a ponto de virarmos um El Salvador, minúsculo país ditatorial idolatrado pela extrema-direita nacional. Vejam só que despautério! Muitos dos que tinham votado em Seu Jair se arrependeram. A decepção foi brutal. Mas isso acaba passando.

Pra tirar da boca o gosto amargo de quatro anos de ignorância, insultos e agressões, nosso “monstro da pandemia” foi levado ao banco dos réus, julgado, condenado e encarcerado. A proeza se deve à ferrenha disposição do juiz a quem coube, veja a sorte que tivemos, cuidar do processo. No começo, ninguém acreditava que Bolsonaro fosse um dia levado aos tribunais. Foi. Depois, poucos imaginavam que fosse condenado. Foi. Em seguida, ninguém podia crer que fosse um dia preso. Foi. Só por essa façanha, uma estátua deveria ser erguida em homenagem a doutor Alexandre de Moraes, a quem o Brasil deve a não banalização de um golpe de Estado.

Só que… ninguém é perfeito. Talvez inebriado pela visão da futura estátua de bronze, doutor Moraes exagerou na dose. As notícias ainda não estão claras, mas há indicações de que misturou os pincéis, isto é, valeu-se de seu prestígio, de seu poder e de sua força para obter favores que, sem isso, não teria obtido. Se as acusações, por ora veladas, forem verdadeiras, ficará mais uma vez provado que a imisção do privado no público (e vice-versa) permeia as altas esferas da nação. Era assim no tempo de Tomé de Souza e continua assim nos tempos atuais.

Acho que nem é possível falar em decepção. Será que isso acaba passando?

Conselho de Paz

Conselho da Paz
20 membros fundadores

José Horta Manzano

Davos, 21 janeiro 2026
A fila de espera para entrar no recinto em que Donald Trump era esperado para discursar estava “de dobrar a esquina”. (Que se entenda essa expressão em sentido poético, pois, com o frio que faz em Davos, ninguém ia esperar na esquina.) Armaram uma fila interna, como as que se vêem em check in de aeroporto. O discursante, a estrela do espetáculo, chegou atrasado em razão de problemas técnicos no Air Force One.

Em silêncio de catedral, o presidente dos EUA foi ouvido. Falou sem parar durante mais de uma hora. Se espremermos a fala pra extrair o suco, vamos descobrir que não disse nada além do que todo o mundo já tinha ouvido antes. Passou quase todo o tempo autoelogiando-se e desdenhando o trabalho do governo Biden, seu predecessor. É um de seus esportes preferidos, uma fixação.

Nesse particular, Trump me lembrou o Lula, que passou o primeiro mandato reclamando do antecessor (FHC) e se lamentando que tinha recebido uma “herança maldita”. Quando a reclamação é repetida ao ponto de virar mantra, o ouvinte deve desconfiar.

Da Venezuela, Trump disse pouca coisa. É pena, porque esse assunto nos interessa de perto. Insultou quanto pôde seus parceiros europeus, sem ir além do que já tinha dito anteriormente. Nenhuma novidade.

Novidade mesmo é sua ideia de criar um “Conselho de Paz” para funcionar em paralelo com a ONU. Terá o mesmo nobre objetivo, que é manter a paz no mundo, mas com diferenças fundamentais. Pelo que se vê, quem vai mandar no tal Conselho é um Donald Trump secundado por sua equipe, os companheiros de sempre. A dominação dessa “equipe fundadora” já ficou visível no convite aos futuros participantes: eles decidiram sozinhos quais países seriam convidados e quais seriam excluídos.

China e Rússia fazem parte dos eleitos. Também a Ucrânia, que já declarou ser impensável sentar-se em torno de uma mesa junto com a Rússia. Todos os países europeus foram chamados, mas quase nenhum confirmou até agora. Convidado, o Canadá respondeu que nem em sonho pagaria o bilhão de dólares exigido de cada participante. Um bilhão de joia, como num clube de luxo!

Os que já correram pra confirmar presença são os bons amigos de Trump, como Argentina, Israel e Hungria. Já a França e a Noruega recusaram logo de saída. Segundo Trump, “todo o mundo quer fazer parte”. Não parece. Dos cerca de 60 convidados, nem metade confirmou até agora. Entre os que disseram sim, estão: Azerbaidjão, Kosovo, Cazaquistão, Bahrein, Marrocos, Armênia. Uma seleção pra ninguém botar defeito.

Se posso dar um conselho à equipe de Lula, será o de pensar duas vezes antes de responder. Antes de mais nada, acho pretensioso, da parte de quem dá a festa, mandar “convite” e ainda cobrar um bilhão de dólares de entrada. Um montante assim deixa de ser simbólico e passa a significar enriquecimento ilícito à custa de quem pode menos. E, no fundo, esse dinheiro vai para quem? Para o tesouro americano? Para o bolso de Trump? Não ficou claro.

Donald está utilizando o truque da adulação. Está atiçando a vaidade de cada um. Muita gente se sentiria orgulhoso de sentar-se ao lado de Trump em volta de uma mesa – o saudoso Bolsonaro já caiu nessa, anos atrás, quando aceitou convite para jantar (e pernoitar) em Mar-a-Lago. Para ter esse privilégio, muito líder pagará o preço que for (sobretudo porque o dinheiro sairá do tesouro nacional, não do bolso do convidado).

Lula é vaidoso e sensível a marcas de apreço dadas por dirigentes mundiais. É por isso que advirto: Lula, prezado presidente, segure-se, conte até dez, tome um chuveiro d’água fria, respire fundo, dê um passeio na grama, converse com as emas, tire férias em Garanhuns. Mas recuse esse convite. O Brasil vai deixar de gastar um bilhão de dólares e vosmicê vai evitar passar vergonha.

O que Trump quer é estar rodeado de anjos que lhe digam amém. Ou alguém imagina que esse “conselho” tem vocação para o diálogo e a negociação?

Segure-se, Lula. Fuja dessa, meu irmão.

Board of Peace – logo

Davos, 21 janeiro 2026
Trump aproveitou estar em Davos para reunir solenemente os “membros fundadores” de seu clube. Assinaram a ata de fundação os seguintes países:

• Argentina — Presidente Javier Milei
• Armênia — Primeiro-Ministro Nikol Pachinyan
• Azerbaidjão — Presidente Ilham Aliyev
• Bahrain — Xeique Isa bin Salman Al Khalifa
• Bulgária — Primeiro-Ministro Rosen Jelyazkov
• Catar — Primeiro-Ministro Xeique Mohammed bin Abdul Rahman Al Thani
• Cazaquistão — Presidente Kassym Jomart Tokayev
• Emirados Árabes Unidos — Ministro Khaldoon Al Mubarak
• Hungria — Primeiro-Ministro Viktor Orbán
• Indonésia — Presidente Prabowo Subianto
• Jordânia — Primeiro-Ministro Ayman Safadi
• Kosovo — Presidente Vjosa Osmani
• Mongólia — Primeiro-Ministro Gombojavyn Zandanchatar
• Marrocos — Ministro de Relações Exteriores Nasser Bourita
• Paquistão — Primeiro-Ministro Xehbaz Xarif
• Paraguai — Presidente Santiago Peña
• Saudi Arabia — Ministro de Relações Exteriores Faisal bin Farhan Al Saúd
• Turquia — Ministro de Relações Exteriores Hakan Fidan
• Uzbequistão — Presidente Chavkat Miromonovitch Mirziyoyev

Como se pode ver, só gente fina. Nenhum europeu, com exceção da Hungria e da Bulgária. Nenhum latino-americano, com exceção de Argentina e Paraguai (nem mesmo El Salvador topou). Nem China, nem Rússia, nem Canadá. Um detalhe curioso: Israel anunciou sua adesão mas, na hora agá, não assinou. Talvez não tivessem levado um bilhão de dólares no bolso, o que era condição incontornável. Nesse caso, assinar mais tarde.

Segura-te, Lula!

Um último detalhe, pequeno, mas que diz muito. Observe o mapa-múndi do logo. Reparou em algo inusitado? Pois é claro! Pra ser mapa-múndi está xinfrim. Só aparecem a América do Norte e um pedacinho da América do Sul e da Groenlândia. Será esse o mundo de Trump? Com um logo desses, como é que ele pretende resolver problemas do planeta inteiro? Ainda precisa comer muito feijão.

Acordo Mercosul-UE: uma boa coisa?

José Horta Manzano

O Acordo de Associação Mercosul-União Europeia começou a ser negociado 27 anos atrás, em junho de 1999, ao tempo em que o Brasil era presidido por FHC. Foi assinado fim de semana passado, num convescote em Assunção do Paraguai que reuniu dirigentes do Mercosul além de Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) e António Costa (presidente do Conselho da Europa).

Durante essas quase três décadas, o futuro tratado permaneceu recôndito, perdido nos escaninhos da pesada burocracia europeia reforçada pela cacofonia sul-americana. Agora, mesmo assinado com discursos ufanistas e bandeiras festivas, a peregrinação da papelada ainda não chegou ao fim. Falta ser referendado pelo Parlamento de cada país membro da UE e do Mercosul. São mais de 30 assinaturas, cada uma requerendo discussão, voto, e todo o tralalá. Só depois de assinado pelo último parlamento nacional, entrará o tratado em vigor. Enfim.

“Carne de gado” é expressão caída em desuso. Há de ser consequência da hipocrisia que se alastra nestes tempos em que o sem teto virou “cidadão em situação de rua” e a favela se tornou “comunidade”. Uma vez banida a desagradável expressão que evoca bois cortados ao meio sendo carregados no ombro de portadores vestidos de branco, como se se buscasse acentuar a imagem sanguinolenta do espetáculo, hoje convém dizer “proteína animal”.

Pois é justamente essa “proteína”, assim como produtos agrícolas exportados pelos sócios do Mercosul que botaram medo no consumidor europeu. Se a conclusão do tratado recém-assinado tardou, foi em consequência desse nó. As autoridades europeias sabem que as regras que estipulam o que é permitido (e o que não é) não são as mesmas dos dois lados do Atlântico.

Na França, ao se referirem à carne importada de Brasil e Argentina, os agricultores costumam dizer, com desdém “bœuf aux hormones” (boi com hormônios). A mesma desconfiança se aplica a produtos agrícolas, dado que, na América do Sul, a quantidade de diferentes pesticidas permitidos é maior que na Europa. Até certo ponto, é surpreendente que, apesar desses bloqueios, a UE tenha finalmente consentido em assinar o tratado.

Em artigo desta segunda-feira, Mafalda Anjos, escritora portuguesa, considera que “as ameaças de Trump ajudaram que [a Europa] caísse nos braços da América Latina”. Pode até ser, embora me pareça uma explicação meio romanceada.

Já na Suécia, país sem grandes pretensões agropastoris, autoridades se manifestaram pela publicação “Dagens Industri” e aplaudiram contentes o acordo. Para eles, trata-se de “uma vitória para os países do mundo livre”. E acrescentam que “Numa época em que os países se voltam para dentro e a cooperação internacional é questionada, a UE e a região do Mercosul escolhem outro caminho. Um caminho caracterizado pelo comércio em vez do protecionismo, pela cooperação em vez da divisão e pelo crescimento em vez da estagnação”.

Me parece uma esperança enorme! Mas acho que os suecos têm razão. Mesmo se o acordo (ainda) não é perfeito, sempre pode ser modificado. De todo modo, mais vale um acordo imperfeito que acordo nenhum. Isso assume especial importância num mundo instável em que o nosso está se transformando.

Nesta ordem mundial que está fazendo água, os pré-náufragos que somos precisamos encontrar algum pedaço de madeira resistente ao qual nos agarrar.

Morrer pela Groenlândia

Nuuk, capital da Groenlândia

José Horta Manzano

Ao pé das montanhas geladas da Groenlândia estão para ser delineados parâmetros para o convívio das nações neste 21° século. A depender do que aconteça nas próximas semanas e meses, o futuro da humanidade dará um tímido passo adiante ou regredirá dois séculos e sacramentará a vigência da lei do mais forte.

Passado o pesadelo da Segunda Guerra Mundial, a quase totalidade dos países se reuniram na recém-criada ONU para pôr ordem no tabuleiro e fixar regras que evitassem conflitos e guerras. Essas regras nem sempre foram respeitadas, mas permaneceram, por décadas, como balizas de como as coisas deveriam ser.

De lá pra cá, a integridade e a soberania nacional nem sempre foram respeitadas.

Em 1950, a China, por ordem de Mao, invadiu o Tibet que, após longo período de distúrbios, acabou anexado pelo invasor e se tornou parte integrante da República Popular.

Em 1979, foi a União Soviética a invadir o Afeganistão; Moscou só mandou retirar suas tropas depois de 9 anos de ocupação.

Os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram a tradição de invadir ou intervir, por curtos períodos, em numerosos países; tirando a guerra do Vietnã, que durou doze anos, as outras intervenções foram mais breves, da Coreia à Líbia.

Ao ameaçar tomar posse da Groenlândia, Donald Trump eleva a novo patamar o desrespeito à soberania de países estrangeiros. A Otan, tratado de defesa mútua ligando EUA, Canadá e quase todos os países europeus, estipula que o ataque armado a um dos países signatários será considerado um ataque a todos os outros, que, por seu lado, se comprometem a defender o atacado.

O tratado não prevê a invasão de um país membro por tropas de outro país membro. Caso os EUA de Trump cumpram sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força, não faz sentido pensar num confronto EUA x todos os demais países membros. Primeiro, por uma questão ética e segundo, porque a força militar americana é superior à de todos os signatários da Otan reunidos. Os europeus não estão dispostos a mandar sua juventude ao campo de batalha morrer pela Groenlândia.

A Dinamarca é a proprietária daquela imensidão gelada. Por mais que seja civilizada e rica, a Dinamarca é um país pequenino, do tamanho do estado do Rio de Janeiro, com 6 milhões de habitantes. Imagino que, se a proprietária da Groenlândia fosse o Reino Unido ou a França, países mais fortes que possuem a arma nuclear, Trump pensaria duas vezes antes de ameaçar tomar o território à força.

Estes dias, há muito movimento em torno do assunto. Um detalhe absurdo é de se notar: oito países da Otan estão mandando tropas para defender a Groenlândia de um ataque americano: Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Estônia. A Europa se defendendo de ataque militar americano! É surreal. São tropas reduzidas, de valor simbólico, mas demonstram a disposição dos europeus de não permitirem que Washington leve um pedaço de seu território.

Trump, que tem em mãos a força bruta, é imprevisível. Se ele decidir que quer porque quer levar a Groenlândia, ninguém poderá detê-lo. Se isso ocorrer, a conquista de território alheio pela força estará, daqui pra diante, autorizada.

Só nos resta apreciar a movimentação e torcer para que o pior não aconteça.

Bem-vindo ao verão brasileiro em tempos de aquecimento global

Brazilian summer

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Já ao acordar, você sente um fio de suor escorrendo lentamente do seu couro cabeludo, percorrendo toda a extensão dos fios de cabelo da sua nuca, pingando e se espraiando pelo pescoço. De lá, ele se junta a outros fios de suor que escorrem da fronte e das têmporas e vai aos poucos formando um rio caudaloso que invade o peito, o espaço entre os seios, escorre pela barriga, desce pelas axilas, costas, braços e pernas. Em poucos minutos, seu corpo vira um pântano pegajoso que faz suas roupas grudarem na pele e começarem a exalar mau cheiro.

Você entra no chuveiro, na vã esperança de encontrar um mínimo de alívio. Mas descobre logo de cara que de nada adianta optar por uma chuveirada gelada porque parece que seu corpo a entende como provocação: tão logo você fecha a torneira, ele revida e a transpiração amazônica retorna a todo vapor. Outra descoberta que você faz segundos após sair do banho é que parece que seu corpo não vai ficar enxuto nunca mais: o simples esforço de esfregar a toalha na pele ou de se inclinar para enxugar os pés já detona a volta de uma atividade desenfreada das glândulas sudoríparas. Só lhe resta deitar-se nua em um quarto escuro, com o ventilador ligado, e permanecer imóvel por pelo menos quinze minutos. Esqueça o perfume e o creme hidratante: parece que qualquer produto adicionado à pele cria uma barreira térmica que tapa os poros e multiplica a sensação de calor.

Assim que você se levanta novamente para colocar a roupa, a sensação é a de que faz mais de um ano que você não toma banho: seu corpo já está melecado de novo. Inútil voltar para o chuveiro, uma vez que o ciclo vai se repetir inexoravelmente. Mesmo inconformada, você se veste com as roupas mais leves possíveis e tenta se concentrar nas tarefas do dia. Se o trabalho é fazer a faxina e depois preparar o almoço, você transpira como se estivesse fazendo crossfit numa academia lotada e sem ar condicionado. Se o trabalho é de ordem intelectual, seu cérebro simplesmente se recusa a obedecer a comandos: as células nervosas já entraram em curto e a conexão entre Tico e Teco cai a cada 10 minutos mais ou menos.

A irritação só faz crescer ao longo do dia. Sua fome evapora. Todos os seus órgãos internos parecem ganhar uma dose extra de sensibilidade: seu pulmão joga a toalha de puro cansaço por ficar puxando o ar quente; seu estômago dói caso você ingira algo um pouco mais substancioso e a náusea sobe ao seu esôfago tão logo você sente o cheiro de comida quente; seu fígado entra em colapso com qualquer alimento gorduroso e seu intestino se solta minutos após você ter ousado comer algo mais condimentado.

As emoções se descontrolam. O barulho e a luz incomodam, fazendo você querer se isolar. Qualquer estímulo imprevisto, seja um telefonema de telemarketing ou uma discordância casual de pontos de vista, tende a servir de gatilho para uma crise nervosa. As sensações de cansaço, tontura, dor de cabeça, dor nas costas e peso nas pernas fazem você se sentir com 90 anos de idade e sua aparência desgrenhada a leva a acreditar que é indigna de afeto.

Por volta das 4 horas da tarde, você olha pela janela e percebe que se anuncia uma tempestade daquelas e que, provavelmente, se isso acontecer, você vai ficar sem luz devido à queda de árvores sobre a rede elétrica. Falta de luz leva à falta de água pelo colapso das bombas, o que significa que não haverá outro banho à vista até o final do dia ou até o dia seguinte. As nuvens cor de chumbo e o vento violento avisam que é preciso fechar as janelas, mas como? Não dá nem para imaginar como será possível respirar num ambiente totalmente fechado quando a sensação é de já estar com a cabeça enfiada dentro de um forno aquecido. Você reza para que a temperatura despenque tão logo o temporal acabe, mas suas preces são solenemente ignoradas: do solo aquecido sobe um vapor de água quente e a sensação de mormaço fica ainda pior.

Mais à entrada da noite, a temperatura se estabiliza por volta dos 28/30 graus e segue caindo lentamente, chegando aos 21/23 graus por volta da meia-noite. A pergunta, então, passa a ser: quem consegue dormir confortavelmente com todo esse calor? Mesmo descartando as cobertas, o mais provável é que você acorde ainda de madrugada mergulhada em uma poça gigante de suor, que toma conta até dos travesseiros.

Exagero? Pode ser que sim, mas aprendi que muitas vezes é preciso exagerar para ser entendida. Só quem passou pela experiência do verão em terras brasileiras na última década pode dizer se esse relato cru retrata ou não a realidade. Certamente, não se trata de um relato totalmente isento: além de se referir a sensações eminentemente femininas, admito que ele é reflexo de um provável trauma meu de infância. Nasci num mês de fevereiro e fico esbaforida só de pensar no calor que qualquer recém-nascido era obrigado a enfrentar naquela época. Para quem não sabe, o costume era colocar no bebê primeiro uma camisetinha pagão para absorver a umidade da pele, por cima vinha um macacãozinho de um tecido mais encorpado que cobria os pés (ou, pior ainda, eram colocados sapatinhos de lã) e, na sequência, o bebê era enrolado num cueiro, com os braços presos para baixo. Inacreditavelmente, aquele infeliz temaki gigante era acomodado no berço, coberto por uma mantinha de lã. Como se não bastasse, não raras vezes as janelas do quarto do bebê eram mantidas fechadas, just in case…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Política pelo espalhafato

Oceano Ártico

José Horta Manzano

Como político, Donald Trump é inclassificável. Não se encaixa em nenhum modelo habitual. Autoritário é, mas não atinge os cumes a que chega um Putin; Trump sabe quando é chegado o momento de dar meia-volta. Personalista também é, mas ainda está para aparecer um líder que não o seja. A ignorância é outra de suas características, mas não é um não saber incurável que um bom assessoramento não possa mitigar.

O que distingue a personalidade de Trump são as palavras e os atos espalhafatosos, imoderados, apesar disso assumidos plenamente. Ordena ações militares pontuais que surpreendem e assustam, sem necessariamente resolver problemas.

O bombardeio do Irã, em junho de 2025, foi espetacular, mas passou longe de eliminar as instalações nucleares do país. Assustou, mas, de resto, foi pra inglês ver.

Ainda outro dia, anunciou ter bombardeado posições da guerrilha islamita em território sírio. Todo o mundo sabe que guerrilha não se combate com bombas lançadas por aviões.

A armada que Trump enviou para as costas venezuelanas era digna de uma batalha naval – que nunca houve, justamente por não estar no programa. A frota de guerra permaneceu semanas inteiras até que uma noite um comando foi mandado a Caracas, entrou atirando e capturou o presidente do país. Goste-se dele ou não, era o presidente, ainda que sua eleição fosse contestada. Para escárnio do mundo, o sequestrado foi levado para os Estados Unidos e lá exibido como animal de feira, mãos algemadas, pés entravados, macacão cor de abóbora. Por pouco, os curiosos não lhe lançaram bananas e pipocas. Dez dias depois, Trump declarou entender-se bem com a peona chavista que substituiu o ditador venezuelano. E tudo bem, que a vida segue. Moral da história? Tire a conclusão que lhe agradar.

Como se vê, o espalhafato é componente essencial da política trumpista. Há que conceder-lhe o mérito de atrair em permanência as atenções para sua pessoa.

Desde que assumiu o mandato, um ano atrás, Trump apregoa a quem quiser ouvir que a Groenlândia “tem de ser” americana, doa a quem doer. Se não for pelas boas, será pelas más, – promete ele. Volta e meia, torna a repetir o mantra da Groenlândia.

Não é de hoje que os Estados Unidos estão interessados em adquirir a Groenlândia. Faz século e meio que estão tentando. Mas é fácil entender por que razão o interesse cresceu dramaticamente nos tempos atuais. O aquecimento global (que Trump garante ser balela) está aí, só não vê quem não quer. Com os gelos eternos do topo do globo derretendo a olhos vistos, imensas possibilidades se abrem.

Novas vias navegáveis, antes bloqueadas por uma calota de gelo, começam a se abrir. O derretimento do gelo groenlandês tem duas consequências imediatas. A primeira é a subida do nível dos oceanos, e a inundação progressiva de baixios costeiros no mundo todo. A segunda é o afloramento de terras e rochas da Groenlândia, antes cobertas de neve e gelo, abrindo a possibilidade de exploração de suas imensas riquezas minerais.

Acostumados que estamos a ver o mapa-múndi tradicional, com as Américas à esquerda e a Ásia à direita, nos parece que a América do Norte e a Rússia estão muito distantes. E que a Groenlândia não tem a ver nem com esta nem com aquela. Basta mudar o ponto de vista e desenhar o planisfério com o Polo Norte no centro (ver ilustração). Agora, sim, dá pra entender que a Groenlândia é uma imensa ilha situada bem no meio do caminho entre a América do Norte e a Rússia. A distância do Canadá para o norte da Rússia (= a largura do Oceano Ártico) é de menos de 2.000km. Um pulinho.

Fica, agora, mais claro o porquê do interesse obsessivo de Trump pela ilha dinamarquesa. Tenho palpite que, com ou sem espalhafato, o presidente americano vai acabar conseguindo o que deseja.

Três semanas atrás, por acaso alguém imaginaria que, em uma noite, Maduro seria capturado e exfiltrado da Venezuela para nunca mais voltar?

Tratado de Tordesilhas 2.0

O mundo segundo Trump
by 1alex06Alex/

José Horta Manzano

Aprendemos na escola que, no mês de junho de 1494, embaixadores dos reinos de Portugal e de Castela (Castilha) se encontraram na localidade castelhana de Tordesilhas para firmar um tratado que dividia as terras por descobrir entre Portugal e Espanha. Aquele documento de 532 anos atrás foi posteriormente avalizado pelo papado, beneplácito indispensável num tempo em que o poder espiritual pairava acima do temporal.

Com a queda dos grandes impérios, no início do século XX, e com o processo de descolonização, nos anos 1960, a lei do mais forte, que tinha vigorado desde que o mundo é mundo, perdeu vigor. O planeta até acreditou estar assistindo a um movimento irreversível em direção a uma era de relações pacificadas entre Estados, baseadas no direito internacional e numa coexistência civilizada.

A prova dessa repulsa a guerras de conquista foi dada em 2014, quando a Rússia, tendo anexado a Crimeia pelas armas, foi afastada do círculo de países “normais” e escanteada para uma posição de “nação pária”, privada até de G8 (que se tornou G7).

A história seguiu assim, incerta, até que, sob o olhar apreensivo e impotente do resto do mundo, os eleitores americanos escolheram Donald Trump para presidir o país pela segunda vez. A partir daí, o mundo entraria em progressivo desequilíbrio. Todos os dogmas que imaginávamos definitivos e gravados na pedra ruíram. Tradicionais políticas internacionais de diálogo e dissuasão deram lugar à lei do mais forte, um recuo acentuado na história da humanidade.

Hoje assistimos, esgotados e desarmados, a um Trump voluntarioso, que ataca a vizinha Venezuela com porta-aviões, encouraçados, centenas de aviões e helicópteros, mísseis, militares e forças especiais, tudo isso para abduzir o líder do país e levá-lo para longe. Notas de “forte condenação” foram a expressão mais incisiva dos países ao redor do planeta, espantados e intimidados perante o espetáculo de força dado pelo Estado mais poderoso do mundo.

A agressividade de Trump, aliada a sua mansidão para com Putin e à distância que ele mantém de Pequim sugere que os tempos chegaram para a ressurreição do velho Tratado de Tordesilhas, agora em versão 2.0 e dispensada de bênção papal.

De fato, a cada dia que passa, nos apercebemos que, na cabeça de Trump, a ideia é ver nosso planeta subdividido em 3 zonas de influência. A primeira, que os EUA reservam para si, inclui as Américas e a Groenlândia. A segunda, destinada a viver sob influência de Moscou, cobre a Rússia, a Europa, os países da finada URSS e o norte da África. A terceira e última deve ser a área de influência de Pequim; compreende as demais regiões do mundo (ver mapa).

Acredito que Putin se sinta honrado e contente de ver que futuras agressões à Europa e aos antigos países satélites estejam, desde já, implicitamente reconhecidas por Trump. Já quanto a Pequim, não tenho certeza de que sua visão globalista coincida com o esquema que Trump parece propor. Não é do feitio chinês renunciar a comerciar com todos os países.

O mundo está entrando de pé firme numa nova era. Pode incomodar (e certamente incomoda) muita gente, mas não deixa de ser fascinante.

Uma lágrima por Maduro

by Patrick Chappate (1964-), desenhista suíço

José Horta Manzano

O povo e a lágrima
Uma lágrima por Maduro… quem é que vai derramar? O caricato caudilho reinou sobre a Venezuela por anos e acabou abduzido por forças militares provenientes justamente do odiado “império”. Que ironia… Com certeza, não será seu próprio povo que vai deixar rolar uma lágrima de saudade. A imensa maioria da população venezuelana se encontra agora num estado desconfortável, em que cabem a esperança de dias melhores, uma pitada de euforia reprimida e uma visível apreensão.

A reportagem da BBC fez curtas entrevistas com transeuntes, numa Caracas em que ainda fumegavam as ferragens retorcidas de veículos militares bombardeados. Uma caraquenha, sob condição de anonimato, confessou que os venezuelanos querem apenas “viver sem medo”. Acrescentou que “o importante não é o petróleo, mas a liberdade da Venezuela e um futuro melhor para seus habitantes”. Disse ainda que “ninguém teria escolhido esse modo de fazer uma transição política, mas alguma coisa precisava acontecer”.

No amanhã do bombardeio da cidade e da captura de Maduro, Caracas esteve calma, mergulhada num ambiente pesado, em que ninguém ousava comentar os acontecimentos. Não é da noite para o dia que se destravam bocas caladas há anos sob o jugo da repressão onipresente. Regimes autoritários como o de Maduro se sustentam silenciando opositores e vozes discordantes. Na dúvida, silenciam-se todas as vozes.

Um vizinho simpático pode representar perigo: seria talez um informante a soldo do regime? O mesmo vale para a senhora transpirada, logo à sua frente na fila do caixa do supermercado: estaria assuntando as conversas dos demais? No Brasil, desde 1985, nos desacostumamos a viver dessa maneira, baixando os olhos e falando pelos cantos. Os patetas que hoje clamam por uma ditadura militar não fazem a menor ideia do que seja viver num regime desse naipe. São uns pobres bugres ignorantes, alegres mas sem noção.

Meia-volta volver
Sob todos os aspectos, o ataque à Venezuela foi acintoso, um atentado contra o direito internacional. Praticado pelos Estados Unidos, país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, o fato assume proporções assustadoras. É um abalo forte nas normas de convivência internacional e anúncio sinistro de guinada ao passado, ao tempo em que o mundo se dividia entre metrópoles e suas colônias.

Contra a lei da selva, nada se pode fazer. Os EUA são mais poderosos que todos os demais países americanos reunidos. Portanto, o que está feito, feito está. A “jus sperneandi”, neste caso, não vige.

A prisão do líder
Não acho muito certo hospedarem Maduro numa prisão comum nos EUA, a exemplo do Metropolitan Detention Center (no Brooklyn, NY) prisão em que se encontra atualmente. Não digo isso por uma questão de manter privilégios, mas há que convir que personalidades públicas têm um grau de exposição mais elevado que um cidadão comum. O risco de ser maltratado, ferido ou até assassinado por outro(s) detento(s) é grande. Pelo mesmo motivo, não gostaria que Lula ou Bolsonaro fossem metidos na Papudona, no Centro de Detenção de Pinheiros ou em Bangu. Uma quentinha envenenada pode ser servida a qualquer momento.

Dado que não é possível construir uma prisão especialmente para Maduro, acredito que a melhor solução seria pô-lo em prisão domiciliar vigiada. Ele e a esposa teriam, daqui até o fim de suas vidas, tempo suficiente para refletir sobre os erros cometidos e os bilhões de dólares perdidos. Que, aliás, podem bem se encontrar abrigados, em nome de laranjas, em bancos americanos.

Conselho a Mr. Trump
Este recadinho vai direto para Mr. Donald Trump que, como todos sabem é leitor assíduo deste blogue.

Dear Mr. Trump,

Congratulações pela espetacular intervenção na Venezuela e pela cinematográfica abdução do pranteado Nicolás Maduro – que ainda há de render filmes hollywoodianos no futuro.

Agora, que as supimpas Forças Especiais americanas estão ainda mais bem treinadas, sugiro-lhe preparar uma ação para raptar aquele que – esse, sim! – tem sido a causa de milhares de mortes diárias e dores de cabeça para o resto do mundo. Falo de Vladimir Putin.

Ordene a suas Forças Especiais que infiltrem Moscou e colham aquele criminoso que lá se esconde, um personagem muitíssimo mais nocivo e perigoso que o tosco Maduro.

O senhor receberá aplausos do mundo inteiro e, de quebra, garantirá seu tão desejado Prêmio Nobel da Paz!

Agradecimentos antecipados.