Discurso e atitude

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Conta a fábula que um escorpião precisava atravessar um rio muito largo e, com medo de morrer afogado, pediu a um sapo que o levasse nas costas até a outra margem. O sapo, por sua vez temeroso de ser picado durante a travessia, rejeitou o pedido: “De jeito nenhum. Você é uma criatura traiçoeira e vai acabar me picando e me matando”. O escorpião argumentou então: “Não se preocupe, não existe essa possibilidade. Se eu o picasse, meu veneno o paralisaria, você afundaria e nós dois morreríamos afogados”.

Impressionado, o sapo decidiu confiar na lógica do que dizia o escorpião. Quando estavam a meio caminho, o escorpião de surpresa enterrou seu ferrão no dorso de seu infeliz condutor. Lutando com todas as forças para safar-se da morte, o sapo ainda teve tempo de perguntar: “Por quê, em nome de Deus, você foi fazer isso?”. Ao que o escorpião respondeu: “Porque é da minha natureza e não há nada que eu possa fazer para alterar isso”.

Não sei como outras mentes entendem o fenômeno, mas, para mim, se há um fato inelutável é o de que a natureza humana incorpora atitudes igualmente contraditórias e perversas. Sempre me chamou a atenção como nossa espécie é tão crédula e tão propensa a se deixar influenciar pelo discurso verbal de seus semelhantes. Comparada às formas de comunicação animal, que prescindem do uso de palavras, a nossa é de longe a mais ineficaz, a mais eivada de enganos e a que provoca mais sofrimento. Quando uma abelha localiza uma fonte de pólen, ela inicia imediatamente uma dança aérea em formato de oito que alerta todas as companheiras num raio de quilômetros. Quando uma formiga cai num buraco, todas as demais que caminhavam em fila indiana atrás dela se desviam automaticamente da trilha.

Minha convivência de longa data com cachorros me ensinou aquela que é, provavelmente, a lição mais preciosa de minha vida: a seleção cuidadosa de palavras não é sinônimo de boas intenções por parte de meu interlocutor. Antes de me entregar ao discurso sedutor, preciso checar se a energia emanada de seu corpo é compatível com a de sua fala. Sangue nos olhos e lábios crispados não me parecem compatíveis com a promessa de conciliação. Mãos tensas não sinalizam desejo de proximidade. Peito estufado não se harmoniza com alegação de humildade.

Para um cão, a intenção da mensagem transparece com toda clareza no tom com que as palavras são proferidas. Tom de voz e significado são uma coisa só, estão inexoravelmente interligados. Claro está que humanos sempre podem manipular seu tom de voz para gerar uma reação favorável no cão. Não há, entretanto, condição para que a mensagem seja mal interpretada se ao tom de voz se associam outros elementos, como postura corporal, respiração e cheiro da pele.

Embora não tenhamos consciência disso, nossas emoções provocam a liberação de hormônios na corrente sanguínea e estes, por sua vez, alteram nosso tom de voz e nosso cheiro. É isso o que faz seu cão pressentir que você está prestes a sair, que ele vai levar uma bronca ou que você está, de fato, propondo um descontraído passeio no parque, quaisquer que sejam as palavras que você utilize. Se pudéssemos aprender com eles a farejar a boa e a má fé de nossos interlocutores, tenho certeza que boa parte de nossos conflitos se extinguiria. A não ser, é claro, aqueles que se originam da intenção de nos causar dano, independentemente de nossa reação.

O marketing é a ciência da sedução através do discurso. Se as palavras forem articuladas de acordo com as expectativas do público a que se destinam, o desejo de consumo será despertado e significará um incremento nas vendas. O marketing político não é, de forma alguma, exceção. Destina-se a ressaltar as boas qualidades do aspirante a um cargo público, disfarçar seus defeitos e, dessa forma, minimizar os receios de problemas futuros do eleitorado. Na falta de argumentos verossímeis sobre a qualidade do produto, pode também ser usado para maximizar as fragilidades dos concorrentes, de modo a infundir descrença prévia nos argumentos que estes venham a utilizar em retaliação.

As redes sociais, a forma contemporânea de marketing político mais utilizada, notabilizam-se por ecoar apenas as mensagens que seus usuários querem receber. Eventuais contrapontos e dissidências podem ser eliminados de pronto, bastando clicar no botão deletar ou bloquear. Na ausência de fontes acessórias de informação (como o olhar, o tom de voz, etc.), as mensagens ganham status de verdade cristalina, por mais contraditórias ou chocantes que sejam. Mais grave ainda, em nome da liberdade de expressão, as mídias sociais descobriram uma maneira de driblar a censura que o contato olho no olho implica e de desconstruir a necessidade de emprego do vocabulário politicamente correto.

É possível que muitos acreditem que a disposição de cada um dizer o que pensa e exatamente da forma como pensa represente um benefício a longo prazo para a sociedade, qual seja o da diminuição da hipocrisia. Acreditar, no entanto, que o ódio gerado pela maior transparência do discurso vencedor pode ser contido ou engolido pelos perdedores a posteriori com atitudes concretas é uma ilusão que ainda nos vai custar muito caro.

Há mais de um século, Freud já alertava que as pulsões humanas primitivas estão em permanente choque com a cultura. Einstein, mesmo alegando não saber como seria a terceira, profetizou que a quarta guerra mundial se travaria com pedras e paus. Assistindo ao espetáculo horripilante da involução da civilização brasileira, eu faço coro à advertência de uma terapeuta: aquilo que entrou com violência sai com violência ainda maior. Não dá para relaxar e esperar. A natureza sempre ganha a luta contra o discurso no fim. Salve-se quem puder.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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