José Horta Manzano
Os que conheceram um mundo sem Fidel Castro já se aposentaram. Nove entre dez cubanos não conheceram a ilha sem o líder máximo. Os poucos que chegaram a passar a infância antes da revolução já não se lembram mais de como era. Afinal, são quase sessenta anos ‒ é muita coisa.
A ilha de Cuba antes da tomada do poder pelos revolucionários castristas ‒ que se diga sem firulas ‒ era, com o perdão da palavra, um bordel. Os cassinos, a luxúria, a tropicalidade e a permissividade faziam de Havana um destino recreativo barato e accessível. A ultracorrupta ditadura de Fulgencio Batista atiçava as brasas e exaltava a libido. A proximidade geográfica dos EUA cuidava de fornecer os turistas. Alguns vinham em família, mas a maioria dos visitantes eram homens em busca de aventura fugaz regada a rum e embalada por rumbas e mambos.
Todo exagero acaba mal. O desequilíbrio alimentado pela ditadura decadente de Batista foi perfeito estopim para a aventura libertária de um grupo de jovens. Valeram-se da «guerrilha», termo criado pela língua espanhola justamente para designar a «guerrinha», esse estado permanente de tensão bem diferente da guerra tradicional, feita de aviões e de tanques. Na guerrilha, todas as pequenas ações acontecem de surpresa. Vive-se em alerta constante sem saber de onde virá o ataque.
Responsável por um regime apodrecido, sanguinário e sem sustentação popular, Fulgencio Batista caiu. Assim que o bando de Fidel Castro se aproximou de Havana, o ditador fugiu para o exterior, peregrinou por um tempo e acabou encontrando exílio na Espanha, onde ficou até o fim de seus dias.
No começo, até que não foi mal. Em busca de apoio internacional, Fidel percorreu mundo. Até no Brasil esteve em 1959, quando se encontrou com o presidente Juscelino Kubitschek. Dois anos mais tarde, chegou a receber visita de nosso folclórico presidente Jânio Quadros.
Quanto à ideologia, o bando revolucionário cubano hesitava. Embora, mais tarde, tenham jurado ter sido comunistas desde a infância, a coisa é mais complicada. Despachado o velho ditador, chegou a hora de procurar sustento e reconhecimento internacional. Os Estados Unidos, dados os laços históricos e a proximidade geográfica, foram procurados em primeiro lugar.
O governo americano cometeu então um erro estratégico. Não deu grande importância aos jovens barbudos. Naqueles tempos de Guerra Fria foi atitude fatal. Não restou aos revolucionários senão buscar o apoio da União Soviética, que aceitou agradecida. Daí pra frente, deu no que deu. Cuba tornou-se bastião do comunismo fincado a 150km das costas americanas. Cara feia, embargo e ostracismo não resolveram o problema: o mal estava feito. O regime antigo foi substituído por nova ditadura, tão sanguinária quanto a anterior.
Dizem que o bem é mais poderoso que o mal. Pode ser. Mas tem uma coisa. Ainda que você tenha andado na linha a vida inteira ‒ respeitoso, bondoso, correto, direito ‒, basta dar um mau passo, unzinho só, e será grande o risco de pôr tudo a perder. Leva-se muito tempo para construir uma reputação, mas, para destruí-la, basta muito pouco.
Fidel Castro terá tido seus méritos, principalmente no início da gestão. Aliviou a miséria dos concidadãos, melhorou o acesso à alfabetização e à saúde. Por seu lado, as liberdades individuais sofreram um baque. Julgamentos sumários e execuções secretas, cidadãos vigiados e fichados, desconfiança disseminada, prisão de dissidentes, proibição de viagens internacionais, pobreza generalizada, escassez de alimentos, partido único, ausência de debate, bloqueio de acesso à informação ‒ os cubanos conheceram tudo o que um Estado policial, onipresente e onipotente pode oferecer.
Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Hoje foi-se o comandante. Antes dele, tantíssimas outras personagens controversas já conheceram glória e decadência. Hitler, Mussolini, Stalin, Berlusconi e até nosso genial guia, o Lula, seguiram a mesma trilha. Subiram, foram incensados, e, inexoravelmente, acabaram caindo. Uns desabaram fragorosamente, outros foram resvalando aos poucos, mas ninguém escapou.
Assim é a vida. A História, cruel, costuma esquecer os momentos de glória. O que acaba ficando para sempre é a decadência, que é mais «sexy» e vende mais. Tremei, ó grandes do mundo!



Você quis dizer “Se murió el comandante”, certo? Morrer, em Espanhol, é pronominal. Quanto ao conteúdo, achei equilibrado. Fidel era um sujeito sobre as quais as pessoas não tinham meias opiniões: ou o adoravam, ou o detestavam. Para mim, sempre foi mais um romântico que se arrebentou ao tomar contato com a dura realidade de vida e do mundo. Ab.
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Olá Paulo, bem-vindo ao blogue.
Agradeço por sua observação quanto ao uso de morir x morirse mas não tenho certeza de estar de acordo com você.
Morir e morirse são intercambiáveis em espanhol. Se quisermos, a todo custo, encontrar uma nuance entre as duas formas, ela não será objetiva, mas subjetiva. Me explico.
«El comandante murió» dá a notícia sem envolvimento emocional. Convém para mostrar distância do ocorrido. A fórmula é principalmente utilizada pela mídia.
«El comandante se murió» carrega leve sentimento de pesar pelo falecimento do ancião. Quem assim se exprimir passará a impressão de que está triste com o que aconteceu. Tirando órgãos oficiais do Partidão, não cairia bem a mídia dar a notícia usando a forma reflexiva do verbo.
Talvez você não saiba, mas há forma ainda mais expressiva: «Se nos ha muerto el comandante». Aí não tem como esconder. É aquele tipo de frase pronunciada com lágrimas nos olhos mostrando pesar profundo.
Em resumo:
El comandante murió = forma estándar, objetiva, impessoal
El comandante se murió = forma coloquial, que exprime certo pesar
Se nos ha muerto el comandante = forma pra lá de expressiva, quase chorosa
Confira as manchetes:
«Murió Fidel Castro: el fuerte mensaje de Gloria Estefan en Instagram»
La Nación, Argentina, 26 nov° 2016
«Murió Fidel Castro, el padre de la Revolución Cubana»
Semana, Colômbia, 25 nov° 2016
«Castro murió y los crueles memes inundaron las redes sociales»
El Nuevo Herald, Miami, 26 nov° 2016
«A los 90 años murió Fidel Castro»
La Arena, Argentina, 27 nov° 2016
«Murió Fidel Castro, pero no sus ideas, afirma independentista boricua»
Prensa Latina, Cuba, 26 nov° 2016
«Murió Fidel Castro, líder de la Revolución cubana por más de medio siglo»
La Patria, Colômbia, 26 nov° 2016
«Y, en eso… murió Fidel»
El Comercio, Equador, 26 nov° 2016
«Murió Fidel Castro»
El País, Espanha, 27 nov° 2016
Isso dito, agradeço pelas palavras gentis. Tem razão você: o bondoso velhinho não deixava ninguém indiferente. Segundo um amigo espírita, o velho comandante, ao chegar do outro lado, há de encontrar uma multidão à sua espera. Parece que vai ter de se explicar. Periga ser um momento complicado.
Forte abraço.
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Muito obrigado, Sr. Manzano, pela aula de espanhol, língua da qual gosto, que estudei, mas, obviamente sempre resta algo a aprender… E parabéns pelo texto também! Abraço!
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