Houve um tempo

Percival Puggina (*)

Verdade que era um Brasil ainda muito rural. Metade da população vivia no campo. A elite nacional tinha menos “celebridades”, menores quadros e cultura superior. Havia apenas quatro brasileiros para cada dez de hoje. As capitais estaduais compunham razoáveis espaços de convivência. A tevê recém surgia e o processo de formação da cultura e das opiniões passava principalmente pela Educação, pela transmissão oral e pela leitura. O mundo acadêmico era de acesso mais restrito e assim, com menos gente, a qualidade ganhava densidade. O país ainda não fora infestado pelas pragas do relativismo moral e das drogas, e os pais zelavam pela formação do caráter dos filhos. Os religiosos tinham plena consciência de sua função no mundo. Tudo isso é verdade. Era um tempo em que não se metia a mão nos recursos públicos para uso e fins privados com a facilidade proporcionada nestes nossos dias.

Leio, escandalizado, as notícias que chegam da Corte ao cair a primeira chuva de 2014. O destaque é dado ao uso e abuso na utilização dos jatinhos da FAB pelos ministros da nossa desatenta e estabanada “gerentona”. Nos últimos seis meses de 2013, um pequeno grupo de 40 pessoas, com cargo ou hierarquia equivalente à de ministros de Estado, realizaram mais de 1,4 mil voos nessas custosas aeronaves supostamente adquiridas para atender demandas da segurança nacional. Todos os voos, informam os requisitantes, são realizados a serviço de suas pastas. Arre gente com serviço externo, que não esquenta cadeira no ministério!

José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, por exemplo, realizou 80 dessas viagens em 180 dias e entra para o Guiness Book. Solicita avião a jato com a mesma sem cerimônia que a gente acena para a lotação ou chama o taxi. Imagino o desagrado com que oficiais da FAB assumem o papel de mordomos das regalias aeronáuticas brasilienses. Por outro lado, a revoada dos ministros de Dilma evidencia um admirável amor ao torrão natal. Seus ministros parecem ter muito a fazer em casa e pouco em Brasília e no resto do país. Voam tais quais pássaros, sem pagar passagem nem combustível, mas reconheça-se, são generosos. Fornecem carona como se fossem caminhoneiros da Força Aérea, transportando amigos e companheiros.

Bem sei o quanto são desconfortáveis nossos aeroportos e aeronaves. Mas as coisas andariam melhores também nisso, se os figurões da República enfrentassem como o populacho a dura realidade dos voos domésticos brasileiros.

Avião da alegria

Avião, que alegria!

Então, como eu dizia, houve um tempo em que as coisas não eram assim. Ministros e secretários de Estado viajavam em estradas de pó e barro, nas “carroças” definidas como tais por Collor de Mello. Hospedavam-se em casas de amigos. A verba era curta para todos e as diárias não cobriam as despesas. O governador Peracchi Barcellos, que usava um velho Aero Willys quando já circulavam nas ruas os veículos mais luxuosos da época, os cobiçados Ford Galaxie, demitiu um membro do governo que lhe pediu autorização para adquirir um deles.

Era diferente a mentalidade dos governantes daquele tempo, como demonstra a conhecida recusa do presidente João Figueiredo quando outro João, o Havelange, lhe propôs realizar uma Copa do Mundo no Brasil: “Você conhece uma favela do Rio? Você já viu a seca do Nordeste? Você acha que eu vou gastar dinheiro em estádio de futebol?”

O país mudou. E em vários sentidos não mudou para melhor. O povo até gosta dessas ostentações (quem muito gasta, supostamente muito pode dar). Mas a revoada de jatinhos da FAB levando ministros para lá e para cá bem que podia, ao menos, se expressar em qualidade de gestão, em rigorosa fiscalização dos demais gastos, em menos corrupção e menor uso de recursos públicos com finalidade estritamente pessoal, política e eleitoral. Ganhar eleição assim, não tem graça. Nem mérito.

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Desapaixonadamente

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 12 out° 2013

Nada é totalmente preto, nada é totalmente branco ― in medio stat virtus. A virtude está tão distante de um extremo quanto do outro.

De uns tempos para cá, nosso país tem vivido momentos excepcionais. Não dispomos ainda de recuo suficiente para analisar o impacto desse tropel. Nem bem deu tempo de curtir a ressaca de um episódio tenebroso, e já somos abalroados por nova batelada de assombros. Não passa um dia sem que as manchetes nos pasmem com uma saraivada de notícias inacreditáveis.

Tirando os beneficiários diretos de cada escândalo e aqueles que, por alienação ou ignorância, vão levando sua vidinha à margem da sociedade, pouca gente tem-se alegrado com os recentes sucedidos. Não há muito que festejar. A tentação é forte de achar que o período é de trevas e que o fim do mundo está ali na esquina.

Mas não é bom caminho. Pode dar desânimo ou até úlcera. Há que ter em mente que nada é inteiramente negativo nem totalmente positivo. Vamos dar uma espiadela nas comoções nacionais mais recentes e lançar sobre elas um olhar menos apaixonado.

Houve o caso do deputado que reside atualmente numa prisão. Pois é, aquele a cujos pares coube decidir, em voto secreto, se merecia conservar o mandato. Numa cena patética, o eleito da nação chegou algemado à Câmara. O país se decepcionou ― com razão ― com o resultado do voto. O mandato foi salvo, mas a grita popular abriu as portas para a abolição dessa estranha prática que oculta deputados atrás do anonimato. Foi o lado bom da história.

Houve o caso da prisão do diretor de um presídio baiano terceirizado. Segundo noticiou a imprensa, sua cadeia tinha-se tornado uma casa de mãe joana. Ali podiam entrar celulares e drogas, desde que a taxa cabida fosse paga à diretoria. Escândalo? Sem dúvida. Mas foi também um alerta. Mostrou que talvez não seja boa ideia confiar presídios à iniciativa privada. Foi o lado bom da história.

Houve casos de figurões de alto coturno ― deputado, senador, ministro ― flagrados em voos da alegria. Os pretextos eram pitorescos: um jogo de futebol, uma festa de casamento, um passeio familiar em Cuba. Desfaçatez? Sem dúvida. Mas é certeza que a divulgação vai refrear outras excelências que se sentissem tentadas a seguir o exemplo. Foi o lado bom da história.

Bandeira Brasil rasgada 2

Houve o caso da descoberta da espionagem americana. Todos sabem que, desde a esposa que remexe nos bolsos do marido até Estados e grandes empresas, todos espionam todos. Só não faz quem não tem como fazer. O escândalo foi apregoado a todos os ventos, mormente porque nossa voluntariosa presidente se sentiu pessoalmente visada. Rendeu até discurso na ONU, protocolarmente aplaudido pela plateia. Um horror? Uma traição? Sem dúvida. Mas o aviso terá servido para que nossos dirigentes ― que almejam elevar o País ao patamar dos primeiros da classe ― deixem de lado a ingenuidade e se apliquem em instaurar serviços eficientes de contraespionagem. Quem quer, faz. Quem não quer pede à ONU que controle a internet. Foi o lado bom da história.

Houve o caso das vaias na abertura da copinha, que abriram a porteira para vigorosas manifestações de protesto. Colhidos de surpresa, dirigentes e eleitos de todos os quadrantes se sobressaltaram. Afinal, fazia tanto tempo que o povo, apático, dormitava! Foi uma bagunça? Foi. Deu medo? Ô, se deu! Mas foi sinal tangível de que o povo está despertando de sua letargia. A circulação instantânea da informação anda estreando um Brasil novo. Que será, esperamos todos, melhor do que o antigo. Foi o lado bom da história.

Finalmente, houve o caso do mensalão. Ah, esse mensalão! Em cartaz há 8 anos, tem dado pano pra mangas. E parece que ainda está longe de terminar. Um escândalo e tanto! No entanto, assim como toda moeda tem duas faces, esse sucedido também tem dois flancos ― um medonho e um consolador. O lado sombrio já foi repisado ad nauseam. Não vale a pena aplicar mais uma demão.

Mas que ninguém se apoquente. Se vem polarizando as atenções da nação há anos, esse escândalo não ultrapassou nossas fronteiras. Na Europa, não mereceu da mídia nem nota de rodapé. As aparências estão salvas. Alegremo-nos!

No plano interno, assim que a poeira baixar e as paixões se arrefecerem, havemos de nos dar conta de que, no fundo, muita coisa boa terá ficado. Pouco importa que este ou aquele condenado seja preso em regime fechado, aberto ou semicerrado. O que importa é que foi aberta uma brecha na impunidade tradicional. E isso vai coibir futuras veleidades de transgressão que pudessem germinar no andar de cima. Alvíssaras!

A festa continua

José Horta Manzano

Já lhes falei aqui, faz pouco mais de um mês, de nosso exótico ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Pois o homem é incorrigível. Continua aprontando.

Outra travessura do burlesco personagem aconteceu no Carnaval passado, mas só agora veio a público. E olhe que, não fosse o pipocar de traquinagens semelhantes cometidas por outros políticos mais célebres que ele, suponho que suas artes continuassem dormindo no esquecimento.

Artigo da Folha de São Paulo deste 24 de julho nos informa que Aldo Rebelo se valeu de um avião das Forças Aéreas Brasileiras para viajar a Cuba. Até aí, nada de estranho. Parece absolutamente normal que um afiliado histórico do Partido Comunista vá passear na ilha onde ele é amigo do rei.

Para não ficar feio, a viagem foi registrada como «missão oficial» ― quem poderá contestar? Aconteceu durante o Carnaval. E daí? Na maior ilha caribenha, como sabemos, vivem todos felizes o ano inteiro. Não têm necessidade de comemorar carnavais para descomprimir. Por lá, trabalha-se duro o tempo todo, donde o elevado padrão de vida da população.

O ministro levou consigo a esposa. E daí? Se até os encarcerados têm direito a visita íntima, por que seria negada a um figurão da República a regalia de levar consigo a esposa em viagem oficial? A esposa não aparece na lista oficial de viajantes. Bem, aí já começamos a ter um problema. Por que não aparece? Um esquecimento, certamente.

Avião da alegria

Avião da alegria

Além da esposa, o ministro levou consigo o filho. Que tampouco aparece na lista de passageiros ― mas vejam que coincidência!

Vamos recapitular. Nosso aplicado ministro do Esporte decide fazer uma viagem de trabalho a Cuba em pleno Carnaval. Leva esposa e filho. O nome dos acompanhantes não aparece na lista oficial de passageiros da viagem. O senhor Rebelo nos explica que sua esposa e seu filho viajaram a convite dos Castros. E daí? Na ilha maravilhosa mandam os Castros e sua clique, no Brasil mandamos nós. Que se saiba, o custeio da aviação militar brasileira não vem da ilha da fantasia. Sai do dinheirinho suado que é extorquido de todos os brasileiros por meio de impostos diretos e indiretos.

Vejam como são as coisas. O homem que tanto se esforçou em matéria de proteção da língua portuguesa e do saci-pererê é bem menos rigoroso quando se trata de proteger o dinheiro de seus compatriotas contribuintes.

A quem estamos querendo enganar? Contorcionismos verbais já não surtem o mesmo efeito que antes. Ou esses medalhões tomam jeito, ou isso ainda vai acabar mal. Ninguém gosta de ser vítima de zombaria. Os políticos brasileiros estão demorando a se dar conta de que a consciência do povão já não é letárgica como costumava ser.

A continuarem as estrepolias da nomenklatura tupiniquim, essa novela ainda vai acabar mal.

Interligne 24

Aviãozinho da alegria

José Horta Manzano

Foi uma semana relativamente calma. Trouxe mais do mesmo, nada realmente novo. O maior frisson veio do fato de ter vindo à tona a façanha de alguns políticos recalcitrantes.

O uso do cachimbo, como todos sabem, faz a boca torta. Ainda sobram vários homens públicos para os quais a ficha está demorando a cair. Viciados por décadas durante as quais a população tratou com indiferença «malfeitos» diversos, continuam convencidos de que receberam mandato não para servir ao povo, mas para se servir do povo. Não se deram conta dos novos ventos que sopram forte.

Aviãozinho da alegria

Aviãozinho da alegria

Ficamos sabendo que alguns dentre eles, mais audazes que seus pares, requisitaram ― sim, o verbo apropriado é requisitar ― aeronaves da Força Aérea Brasileira, para seu uso pessoal e por motivo fútil. Lembremos que esses aparelhos pertencem à população brasileira. Foram comprados e são mantidos com o dinheiro de todos nós.

Num país civilizado, se uma personalidade eleita fizesse isso, enfrentaria processo de cassação de mandato. E perderia. Caso o aproveitador estivesse ocupando cargo nomeado, seria demitido ato contínuo.

Só para ilustrar, dou-lhes um exemplo francês ocorrido esta semana. Delphine Batho, Ministra da Ecologia, deu entrevista a uma estação de rádio. Lá pelas tantas, foi provocada pelo jornalista que lhe perguntou o que achava do orçamento nacional, que preconiza, para 2014, corte de 7% na verba de seu ministério. Soltou uma simples frase: «C‘est vrai que c‘est un mauvais budget», é verdade que não é um bom orçamento.

Não precisou mais. No dia seguinte, o presidente da República exonerou-a de seu cargo. Concedeu-lhe apenas o tempo de esvaziar as gavetas e dar beijinho nos colaboradores. Monsieur Hollande deixou claro que uma equipe tem de ser solidária. Vozes discordantes dão impressão de fraqueza, de desentrosamento. Portanto, não são bem-vindas.

Delphine Batho

Delphine Batho

Ah, só um detalhe: tanto o presidente quanto o primeiro-ministro da França são afiliados ao Partido Socialista. A Assembleia Nacional também conta com maioria socialista. Diferentemente do Brasil, esquerda, por aqui, não costuma rimar com leniência nem com ação entre amigos.

Quanto ao problema dos voos da alegria no Brasil, admito que o presidente de República, por razões de estratégia e até de segurança, possa ser autorizado a voar de graça, à custa do dinheiro do povo. Já tenho dificuldade em entender por que razão essa regalia seria estendida a outros medalhões.

Tradicionalmente, ministros e parlamentares federais têm direito a bilhete de ida e volta, uma vez por semana, entre Brasília e seu estado de origem. Fora disso, o fato de uma alta autoridade ter direito a requisitar a Força Aérea Nacional para seu uso pessoal foge ao meu entendimento.

A FAB poderia até, caso tenha aeronaves com capacidade ociosa, propor voos a qualquer cidadão disposto a pagar por eles. Na mesma linha do indivíduo que faz um bico em seus momentos de lazer a fim de reforçar o orçamento doméstico.

Nesse caso, bastaria preparar uma lista de preços e, naturalmente, uma lista de espera. Como no caso de voo fretado, o avião só decolaria caso uma lotação mínima tivesse sido atingida. Se não, nada feito. Mais ou menos como acontece quando se utilizam as milhas para viajar.

O dinheiro assim arrecadado serviria para reforçar o caixa da FAB e, um dia, quem sabe, renovar a frota de aviões de caça. Ou não.

.