Por que há guerras?

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 28 outubro 2023

Apesar de soar meio infantil, a pergunta “Por que há guerras?” também pode ser feita pelos adultos que somos. Por que é que o Homo sapiens continua a escolher o tacape para resolver suas pendengas? Em princípio, a parafernália de que hoje dispomos para nos comunicar deveria ser suficiente para os humanos se entenderem e resolverem conflitos pelo diálogo. É desconcertante constatar que, na hora agá, ainda se opta pela força bruta.

Para nós que, do outro lado do oceano, vivemos distantes do palco dos acontecimentos, essa guerra entre Israel e o Hamas não faz sentido. Por que razão o braço armado do partido Hamas lançou um ataque terrorista e sangrento contra civis israelenses? Imaginavam varrer o país do mapa com foguetes imprecisos, tomada de reféns e golpes de facão?

Tampouco faz sentido os israelenses sufocarem e invadirem a Faixa de Gaza com forças de terra, mar e ar. Pretendem varrer todos os gazeus do mapa a rajadas de metralhadora? No burburinho das vielas, como vão reconhecer os terroristas? Vão abordar cada homem e exigir que prove não ser membro do Hamas?

Como se vê, visto daqui, esse morticínio não faz sentido, por nos parecer dar voltas em torno da questão sem resolvê-la. Fica a impressão de que, por mais que haja matança e destruição, os combates hão de se esgotar um dia e a situação regredirá ao “statu quo ante bellum”, ou seja, ao ponto exato em que estava antes da guerra. Terá sido um enfrentamento inútil.

Os observadores situados longe de Israel e da Palestina não estão necessariamente familiarizados com os fluxos e refluxos da política da região, que funciona na base do ódio mútuo, difuso, antigo e encruado. Isso faz que os espectadores esporádicos que somos não captemos a realidade do terreno, o que nos leva a dar nosso apoio a este ou àquele lado seguindo considerações subjetivas e alheias ao contexto.

Uma vista d’olhos nas análises publicadas estes últimos dias em importantes veículos da imprensa internacional confirma a coexistência de apreciações disparates, que variam muito, sempre baseadas em critérios distantes da realidade local.

O Financial Times considera que “a corrida do Ocidente para dar respaldo a Israel corrói o apoio que os países em desenvolvimento dão à Ucrânia”. Em suma, os esforços feitos durante quase dois anos para convencer países mais pobres a apoiar a Ucrânia estariam sendo jogados no lixo em poucas semanas. O Brasil é apontado como um dos que levantaram objeções ao apoio a Israel.

Outros veículos, como Le Monde, vão pela mesma trilha. O diário francês sublinha a sinuca em que se meteram os países do dito “Sul Global”, que não sabem mais a qual dos lados dar seu apoio. O hong-konguês South China Morning Post ressalta que o presidente Ramaphosa, da África do Sul, apareceu outro dia numa manifestação pública portando nos ombros uma faixa com as cores da Palestina. Outros órgãos da mídia evidenciam detalhes, contudo sem roçar o cerne da questão.

Uma análise do historiador israelense Yuval Harari, publicada no Washington Post e repicada em diversos veículos internacionais, me parece particularmente sagaz. Harari está convencido de que o Hamas, ao desencadear essa guerra, sabia muito bem o que estava fazendo e aonde pretendia chegar. A organização terrorista não tem interesse na paz, visto que só tem chance de sobreviver se a região se mantiver em estado permanente de beligerância.

O objetivo maior do Hamas é destruir Israel e estabelecer na região um califado regido pela xaria, o direito islâmico. Com o ataque de 6 de outubro, venceu batalhas importantes. Ofuscou a guerra na Ucrânia e desviou as atenções do planeta para a região palestina. Abriu nova clivagem entre as nações, que ora se dividem entre as que apoiam Israel e as que defendem a causa palestina.

Nesta altura dos acontecimentos, já temos algumas certezas. A normalização das relações entre Israel e a vizinhança árabe, encetada havia meses, entra em hibernação. A sensação de relativa segurança que reinou estes últimos anos em Israel se dissipou. A paz na região está mais distante do que nunca.

Por que há guerras? A resposta é complicada, mas uma coisa é certa: o pogrom lançado pelo Hamas marcou os espíritos e vai ecoar por décadas.

The hole

José Horta Manzano

Primeiro, abro um parêntese. Aquilo que hoje se conhece como droga era chamado de entorpecente algumas décadas atrás. Droga era produto preparado por droguistas e vendido em drogaria, dentro de total legalidade. Cem anos atrás, quando a oferta de remédios de laboratório não era ampla como hoje, era costume o médico “dar a receita”, isto é, escrever num papel os ingredientes e o modo de preparar o medicamento. (Aliás, é por isso que se chama até hoje receita, exatamente como receita de bolo.)

Entregava-se à farmácia o papelzinho, fazia-se a encomenda e um droguista se encarregava de aviar a receita. Salvo caso de emergência, ficava pronta no dia seguinte. Repare que na polícia, até hoje, o departamento que cuida de heroína, cocaína, crac e outros bichos é o Setor de Entorpecentes, nunca um hipotético Setor de Drogas. Vamos fechar o parêntese.

No mundo todo, a todo momento, tem gente se esquivando da própria responsabilidade. É o policial que, após despachar o bandido para o outro mundo, explica que o fora-da-lei atirou primeiro e que ele, policial, só revidou em legítima defesa. É o estuprador que explica que só fez o que fez porque a moça, que era um demônio de saias, atiçou seus baixos instintos e deixou-o impossibilitado de resistir. É o aluno que, apanhado em flagrante quando ‘colava’ a prova do coleguinha da frente, informa que só fez isso porque, tendo o colega se ausentado pra fazer pipi e deixado o papel à vista, foi impossível desviar o olhar. Tratou-se de “cola involuntária”.

Estes dias, as manchetes da França deram, com destaque, a notícia de um adolescente de 14 anos que foi assassinado com uma rajada de metralhadora Kalachnikov. A investigação demonstrou que o jovem estava cumprindo sua missão de vigiar um ponto de venda de droga, à entrada de um conjunto habitacional da periferia de Marselha. Numa briga de gangues, dois desconhecidos encapuzados chegaram de moto, o infeliz acabou levando o tiro, enquanto o resto do bando escapou. E os assassinos fugiram na mesma moto em que tinham vindo.

Dia seguinte, o comentário do prefeito de Marselha foi lapidar. Lamentou-se ele de que “nesta cidade, compra-se uma metralhadora Kalachnikov com a mesma facilidade com que se compra um pãozinho de padaria”. (O “pãozinho de padaria” é invenção minha; no original, é un petit pain au chocolat – um pãozinho de chocolate”, especialidade ultrapopular, apreciada por grandes e pequenos. Mas o efeito é o mesmo.)

Taí um desavergonhado exemplo de alguém que procura se desvencilhar da própria culpa. Em Marselha, como em qualquer lugar do mundo, os pontos de droga são pra lá de conhecidos das autoridades municipais. Se continuam funcionando, é porque têm permissão tácita para fazê-lo.

Quanto ao acerto de contas entre gangues rivais, a culpada não é a Kalachnikov, a arma do crime. O problema não vem da facilidade de aquisição da metralhadora preferida por 11 de cada 10 terroristas. Se fosse difícil comprá-la, qualquer outra arma teria servido: arco e flecha, coquetel Molotov, foice, tacape ou até um modesto bodoque. Se o adolescente morreu, a culpa certamente não é da arma.

The hole is further down (o buraco é mais embaixo).

Finesse diplomática

José Horta Manzano

Não é segredo para ninguém que sutileza diplomática não combina com a espessura de nossa presidente. Quando se trata de relações exteriores, o comportamento pesadão de dona Dilma costuma provocar desastre.

Dilma 13Para piorar o quadro, nossa presidência conta, desde os tempos do velho Lula, com os inestimáveis serviços de um certo senhor «top-top» Garcia, ‘assessor especial’ para assuntos estrangeiros. Falo daquele personagem que insiste em manter os pés mergulhados e cimentados em ideologias que faleceram décadas atrás.

O Lula era presa fácil para quem soubesse atiçar-lhe a vaidade. Mal aconselhado por seu entourage em matéria de relações exteriores, deu passos fora de esquadro e causou vexames memoráveis. Dona Dilma, desinteressada pelo assunto e mais preocupada em segurar-se firme pra não cair do trono, é presa mais fácil ainda.

Quando se nomeia novo representante diplomático junto a um país estrangeiro, o embaixador tem de receber a acreditação do Estado no qual vai exercer. Seu nome tem de ser aceite – homologado, se preferirem.

A prudência manda que ambos os governos se ponham de acordo antes de anunciar o novo nome. Mas nem sempre se procede assim. Muitas vezes, o Estado emissor dá a público o nome do escolhido, dando sua acreditação por favas contadas.

Barão do Rio Branco by José Geraldo Fajardo, artista carioca

Barão do Rio Branco
by José Geraldo Fajardo, artista carioca

Já por duas vezes, o governo de dona Dilma envergonha o Estado brasileiro nesse campo. A primeira foi quando a presidente humilhou publicamente o novo embaixador da Indonésia. Ocorreu na época em que um brasileiro, condenado por tráfico de droga, acabava de ser executado naquele país. Enganando o representante estrangeiro, nossa mandatária mandou convocá-lo a palácio como quem lhe fosse conceder a acreditação. Na hora agá, negou-se a aceitar suas credenciais e despachou o homem para casa sob a vista de pequena multidão de autoridades. Uma afronta.

Estes dias, dona Dilma reincidiu. Israel, mais prudente que a Indonésia, comunicou o nome do diplomata que tencionava nomear ao posto de embaixador em Brasília. É bem possível que dona Dilma nunca tenha ouvido falar nesse senhor. Seu entourage, contudo, o conhece de outros carnavais. Sabem que o personagem é ferrenho defensor da política de implantação de colônias em território palestino.

NeandertalA nomeação caiu mal em Brasília. Posso até compreender que o governo brasileiro se sinta incomodado em homologar representante estrangeiro cujas ideias sejam frontalmente divergentes da visão do Planalto.

Qual é o procedimento diplomaticamente correto em casos assim? Faz-se chegar ao conhecimento do Estado emissor, discretamente e por canais diplomáticos, que o novo embaixador é inaceitável. É um direito reconhecido internacionalmente. Ninguém fica sabendo, ninguém passa vergonha. Indica-se outro embaixador. Assunto encerrado.

E o que é que fez o Planalto? Num procedimento raro e fora dos padrões, dona Dilma fez saber – pessoal e publicamente – que o homem não seria bem-vindo. O mundo inteiro ficou a par da rejeição, o que pegou pra lá de mal. O governo israelense ficou embaraçado e o Planalto deu mais uma mostra de sua diplomacia neandertaliana.

Ah, pobre barão do Rio Branco…