Como discutir com uma criança bêbada

Ricardo Araújo Pereira (*)

O que gera maior perplexidade, no discurso de Donald Trump, é que tem elementos de infantilidade e de embriaguez. Parece que estamos ouvindo uma criança bêbada – uma ideia muito perturbadora.

Tudo é tremendo: “Os maiores comícios de sempre”, “eles cometeram a maior fraude de todos os tempos”, “nunca ninguém viu nada assim”.

Há também o recurso de argumentos de autoridade pueris: “Todo o mundo sabe que eles são mentirosos”, “muita gente tem me dito que eu sou mesmo bom”.

E por fim temos os argumentos do mundo da fantasia: “Eles matam bebês recém-nascidos”, “os imigrantes estão comendo cães em Springfield, Ohio”.

Em ambos os casos, os jornalistas intervieram dizendo que não há um único Estado americano em que seja legal matar bebês recém-nascidos” e que as autoridades de Springfield afirmam não haver qualquer relato fidedigno de rapto e ingestão de animais de estimação por imigrantes naquela cidade. O problema é que desmentir uma criança bêbada é uma tarefa complexa.

Contrapor fatos a fantasias não funciona. Fatos e fantasias são unidades monetárias de países diferentes – ou, talvez melhor, de planetas diferentes. Quando uma criança nos pergunta por que é que o Papai Noel ainda não chegou, nós não avançamos com fatos sobre a inexistência do Papai Noel. Compomos uma história em que o Papai Noel, aos comandos do seu trenó voador, tem de fazer paradas em várias casas de outras crianças antes de chegar à nossa.

O ideal, por isso, não é apresentar depoimentos oficiais que negam a ideia de que os imigrantes se dedicam a comer os animais de estimação dos residentes em Springfield. O que há a fazer é mostrar um documento segundo o qual os imigrantes têm, de fato, cozinhado animais de estimação, mas apenas no caso em que esse animal é um dragão. E juntar algumas receitas de arroz de dragão, moqueca de dragão etc.

A criança fica estupefata por duas razões: por verificar que a nossa capacidade de fabulação é superior à dela; por ser obrigada a reconhecer que aquilo de que se queixava é, afinal, uma coisa boa.

Matar dragões é geralmente entendido como positivo. É a atividade mais heróica de sempre. Nunca ninguém viu nada assim.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Significado mole em palavra dura

Ricardo Araújo Pereira (*)

Uma característica engraçada das palavras é o fato de terem significados mais ou menos precisos. É conveniente, para que a gente consiga comunicar. Por exemplo, se eu disser que uma rocha é mole, talvez as pessoas fiquem confusas. Em princípio, a palavra “mole” não se aplica a rochas – que, de acordo com a nossa experiência, são duras.

O mundo digital, no entanto, tem uma semântica própria, em que as palavras significam o contrário do que querem dizer na vida real. A palavra “conteúdo”, por exemplo, significa quase sempre “ausência de conteúdo”. É curioso. A frase “vou criar um conteúdo filmando o meu gato dormindo” quer dizer, na verdade, “vou produzir um pouco de vácuo”.

A palavra “amigo”, no Facebook, significa muitas vezes o contrário do que vem nos dicionários. No Facebook, é possível ser amigo de pessoas que nem conhecemos. Diga-se que essa é, por vezes, a maneira mais eficaz de nutrir amizade por alguém. Mas não é esse o significado do termo.

Por outro lado, a palavra “seguidor” não significa, nas redes sociais, discípulo ou partidário. É mais frequente significar “pessoa que nos observa porque tem interesse na nossa queda”. São seguidores que vêm atrás de nós porque pretendem nos passar uma rasteira.

A palavra cujo significado mudou mais radicalmente foi “compartilhar”. Compartilhar, fora do mundo digital, é um ato de generosidade. Quando, por exemplo, compartilhamos um pão com alguém, isso quer dizer que lhe damos um pouco do nosso pão. Nas redes sociais, o ato não é exatamente generoso, uma vez que compartilhar significa, na verdade, exibir.

Alguém que compartilha a fotografia de um pão não oferece nada aos outros. Quem compartilha uma foto do seu carro novo não dá carona a quem vê. Quando alguém compartilha imagens das suas férias, normalmente até ganha dinheiro com isso, porque uma agência de viagens, uma companhia aérea ou um hotel estão pagando. Sinto em dizer que esse dinheiro também não é compartilhado.

O alambique das redes sociais transforma a mesquinhez da exibição na nobreza da partilha. É ótimo.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

A língua portuguesa, mesma no Brasil e em Portugal, é bifurcada

Ricardo Araújo Pereira (*)

Como é que isto não é um milagre? Um bicho nascido há milênios, em algum lugar da Itália, atravessou um oceano, mudou de continente e de hemisfério, e vive ainda hoje no Brasil.

O bicho chama-se língua portuguesa. Tem evoluído, como todos os bichos, e tal como eles vai se transformando na nova versão do mesmo bicho.

O bicho habita várias regiões do globo —não apenas o Brasil. Mas que o bicho permaneça vivo tão longe e tanto tempo depois de ter nascido não deixa de ser notável.

Serei só eu que me comovo com o fato de, há uns milênios, nas margens do rio Tibre, falantes da língua que se transformou nesta usassem, por exemplo, a palavra “grátis”, como hoje continuam a usar outros falantes, nas margens do rio Amazonas?

Mais ninguém se emociona com isto de várias palavras terem desaparecido, ou terem ficado quase irreconhecíveis, mas a palavra “grátis”, logo ela, ter sobrevivido impecável?

Há quem assinale que a língua portuguesa no Brasil já tem muitas diferenças em relação à que se fala em Portugal. Eu me espanto que mantenha tantas semelhanças.

Às vezes, algumas pessoas perguntam se ainda é a mesma língua, ou se já é outra. Parece que a resposta é óbvia: o português é uma língua bífida. Como a da cobra. Também tem um longo tronco comum e uma pequena parte divergente. E também é perigosa.

Você sabe que, quanto mais exibe os seus músculos, mais demonstra que é um rato? Desculpe, talvez você se orgulhe da sua musculatura, mas o parentesco dos seus músculos com os camundongos é indesmentível. Músculo vem do latim mus, que significa rato. E tem o sufixo “-culo”, que indica diminutivo, como nas palavras minúsculo, quadrícula e cubículo.

Milênios antes de você frequentar afincadamente a academia alguém achou que os músculos lembravam um ratinho, movendo-se dentro do corpo. Daí a palavra músculo. Boa sorte quando voltar a contemplar os seus bíceps e tentar não imaginar o rato empoleirado no braço. Eu avisei que isto era perigoso.

Caetano Veloso declarou celebremente que gostava de sentir a sua língua roçar a língua de Luís de Camões. Eu gosto de sentir a minha roçar a de Machado de Assis. E é óbvio que a língua de Machado também roçou a de Camões. É uma felicidade que desejo que continue. Espero que peguemos herpes todos juntos.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Merchandising online

Ricardo Araújo Pereira (*)


Jair Bolsonaro agora vende merchandising online para um público refinado


O ex-presidente e colecionador de joias Jair Bolsonaro criou uma loja na internet para vender merchandising. Merchandising é uma palavra estrangeira para designar bugigangas inúteis. Tecnicamente, é futuro lixo.

É fatal que o merchandising acabe no lixo, mas por vezes consegue ficar em nossas casas durante algum tempo.

A loja de Bolsonaro avisa logo à entrada que produz merchandising “com qualidade ímpar, para um público refinado e que preza por excelência”, e por isso é sem surpresa que verificamos que vende três tipos de produtos: calendários, canecas e aquilo a que eles chamam de “troféu de mesa”.

É muito raro os consumidores refinados que prezam por excelência desejarem outro gênero de mercadoria. Só pensam em calendários, canecas e troféus de mesa.

O troféu de mesa é uma tábua sobre a qual está uma silhueta de Bolsonaro e a frase “Nosso sonho segue mais vivo do que nunca”. De acordo com a Bolsonaro Store, a peça tem acabamento diferenciado.

Mas não é, felizmente, o único produto diferenciado. Também diferenciado é o layout dos calendários, que são feitos em “material personalizado de qualidade premium”.

É possível que quem tem um telefone celular já não dê muito uso a calendários, mas talvez mude de ideias quando souber que estes têm qualidade premium.

Pessoalmente, nunca tive um calendário de qualidade premium, e devo dizer que me arrependo. Creio que a minha vida teria sido muito diferente se eu tivesse investido um pouco mais na qualidade dos meus calendários.

Segundo a página da Bolsonaro Store, o calendário que eles comercializam “é um produto que acompanhará seu usuário durante todo o ano”.

Ao contrário dos calendários vulgares, e de menor qualidade (ou até de alguma qualidade, mas sem qualidade premium), o calendário da Bolsonaro Store acompanha-nos todo o ano. Sabe aquele tipo de calendário que, lá para novembro, desiste de indicar os dias? O da Bolsonaro Store não faz isso, graças a Deus, e segue até dia 31 de dezembro, obstinado e diligente.

As canecas são feitas, como não podia deixar de ser, a partir de “matérias-primas com excelência em qualidade”.

Quando penso numa vida de sonho, imagino-me sentado a uma mesa, sobre a qual está um troféu de acabamento diferenciado, e eu estou a registrar a passagem do tempo num calendário de qualidade premium, enquanto bebo de uma caneca excelente.

E agora esse sonho está ao alcance de todos os brasileiros, por apenas R$ 250 mais frete.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.

Resenha – 2

José Horta Manzano

Por que parou? Parou por quê?
O frisson do momento fica por conta dos escritos que a PF encontrou ao esquadrinhar os guardados de Anderson Torres, ministro de Bolsonaro, ora refugiado nos EUA.

Pelo jeitão do documento, não se trata de “rascunho”, como tenho lido. As letras impressas e o juridiquês caprichado revelam que o texto não é um devaneio rabiscado em papel de padaria ao fim de uma noite de uísque abundante. Longe disso, é a prova de que havia trama para revirar o resultado das urnas, e que o projeto estava em estado adiantado. O “rascunho” é, na verdade, uma minuta pronta para ser impressa em papel timbrado e assinada pelo capitão.

Discute-se sobre a autoria. Discute-se sobre a constitucionalidade do frustrado decreto. Discute-se sobre o peso que a descoberta vai exercer na culpabilidade de Bolsonaro. Todas essas questões são válidas e justas. No entanto, a meu ver, uma pergunta paira no ar, intrigante e sem resposta:

Por que é que a minuta foi descartada sem nunca virar decreto?

Responder a essa pergunta equivale a esclarecer o mistério.

Caçoar do Lula
O jornalista e escritor português Ricardo Araújo Pereira é conhecido por seu afiado senso de humor. É dele a fala seguinte (que já vem com sotaque):

“Agora, é tempo de caçoar do Lula. Sem medo de que este governo vá falhar. Até porque vai falhar. Já agora, aproveito para dar essa novidade. O governo brasileiro vai falhar por dois motivos: primeiro, por ser um governo; segundo, por ser brasileiro. É uma combinação que costuma ser fatal.”

Ironia do destino
O destino costuma espalhar cascas de banana na estrada para apanhar incautos. Ai de quem não prestar atenção.

Dia 5 de janeiro, uma empertigada primeira-dama convocou a Rede Globo para narrar o “estado de ruína” em que os Bolsonaros haviam deixado o Palácio do Planalto. Uma ponta de tapete esfiapada, uma quina de móvel esgarçada, um estofado rasgado – coisas desse jaez.

Não se sabe exatamente qual era a intenção da boa senhora, se era acusar os locatários antigos de serem selvagens ou se era para embasar futura requisição de verba para reforma.

Mal sabia a primeira-dama que, apenas três dias depois, nada mais restaria do mobiliário do palácio. O que lhe tinha parecido “ruína” tinha sido apenas aperitivo da desolação que viria depois.

KFC
No começo do mês, o canal de tevê TF1, o de maior audiência na França, não deixou passar em branco a imagem insólita. Enquanto Lula recebia as honras de presidente e assumia suas funções em Brasília, um solitário ex-presidente, despejado do poder e homiziado nos EUA, comia uma fritura no KFC. Com as mãos, como é de lei.

Fuga inútil
Contropiano, jornal comunista italiano online, repica o que afirmaram veículos da mídia brasileira e revela que Bolsonaro pensa em homiziar-se na Itália para evitar possível prisão no Brasil.

Dois meses atrás, lembrei a meus distintos leitores a triste e decepcionante história de Henrique Pizzolato, diretor de marketing do Banco do Brasil nos tempos do Petrolão e da Lava a Jato. Titular de dupla nacionalidade – brasileira e italiana – o cidadão, enrolado com a justiça brasileira, julgou que refugiar-se na Itália seria excelente ideia. Depois de muitas peripécias, terminou extraditado pela Itália e recolhido diretamente à Papuda, onde cumpriu a pena imposta.

Nos dias de hoje, está cada vez mais difícil escapar ao próprio destino. Incluído na lista vermelha da Interpol, nenhum réu tem mais sossego. Não estou aqui para dar pistas a Bolsonaro, mas ele que se lembre que, uma vez inculpado, não adianta fugir porque será perseguido até seus últimos dias. Onde quer que esteja, inclusive na Itália.

Digital
Em certos aspectos, o universo petista continua a se comportar como se estivéssemos nos anos 1980, na era pré-internet. A esse propósito, o jornalista Pedro Dória publicou um artigo pertinente do qual um trecho vai aqui abaixo.

“Este governo, o governo Lula, é um governo terrivelmente analógico. E, num momento de democracia em risco, o governo não pode se dar ao luxo de ser analógico.”

O brasileiro e o soluço

Ricardo Araújo Pereira (*)

Por que o brasileiro suporta a pandemia, mas se verga perante o soluço?

Veja como é caprichosa a medicina. Há pouco mais de um ano, o presidente do Brasil fazia aquela declaração célebre: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria, ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”.

E, nesta semana, o atleta indestrutível que é indiferente a uma pandemia planetária foi hospitalizado com uma crise de soluços. A Covid, que mata milhões de pessoas no mundo inteiro, pode vir à vontade, que não causa transtorno, mas isto, hic, por amor de, hic, não se aguenta, hic, por favor, hic, alguém chame uma, hic, ambulância depressa, hic.

A teorização da invulnerabilidade nacional ao coronavírus atingiu novos cumes com a também famosa observação: “Brasileiro não pega nada, o cara pula no esgoto e não fica doente”. Mas, tal como o Super-Homem sucumbe à kriptonita, também o brasileiro, que resiste a vírus e a germes, não aguenta um soluço. Difíceis de entender os desígnios da natureza. Por que razão há de o brasileiro suportar a doce pandemia e o gentil esgoto, mas se vergar perante o cruel soluço?

Em defesa do brasileiro, talvez seja importante referir que o soluço tem intrigado o ser humano desde sempre. E que, ainda assim, permanece misterioso. O soluço não tem solução. Ou tem, mas não é muito eficaz.

A certa altura d’O Banquete, de Platão, chega a vez de Aristófanes falar. Sucede que não consegue fazê-lo porque é acometido por um persistente ataque de soluços. Erixímaco, o médico, sugere então: “Experimente, Aristófanes, ir para o hospital e tirar uma fotografia descomposto, intubado e sem roupa, para tentar excitar nos seus conterrâneos uma compaixão pelos seus soluços que você não teve pelas doenças graves deles”.

Minto. O que Erixímaco recomenda é que Aristófanes sustenha a respiração, gargareje com um pouco de água ou faça cócegas no nariz até espirrar. E resulta. A estratégia da fotografia no hospital é que já não convence ninguém.

(*) O português Ricardo Araújo Pereira é jornalista e escritor.