Melhor não saber

Mãe! O vovô roubou meu carro!

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 30 novembro 2024

Um ano atrás, um antigo e conceituado laboratório brasileiro de análises clínicas informou à distinta clientela que seu arsenal passava a contar com um novíssimo teste para diagnóstico do mal de Alzheimer. O informe veio escrito em mediquês, mas assim mesmo o não iniciado consegue entender que, para o teste, basta uma trivial amostra de sangue; como se vê, um simples exame de laboratório hoje pode mais que bola de cristal.

A grande novidade é que o futuro doente já pode ficar sabendo, com anos de antecedência, que vai terminar a vida com Alzheimer. Do ponto de vista médico, é uma conquista e tanto! Do ponto de vista do paciente, a vantagem de um pré-diagnóstico tão precoce ainda está para ser validada.

Faz alguns meses que este blogueiro, já entrado em anos, vem notando que, com irritante frequência, palavras lhe faltam no meio de uma conversa. Não se trata, por enquanto, da situação dramática do indivíduo que se encontra vagando na rua à noite de pijama e que não se lembra mais do próprio nome. Mas o fato é que, no meio de uma fala, quero usar um verbo, um nome ou um adjetivo, e o verbo não vem, nem o nome, nem o adjetivo. Não é trágico, mas é desagradável.

Comentei com o médico generalista que me cuida há anos. Contei a ele o problema e disse também que tinha ouvido falar de uma instituição especializada em detectar, por meio de apurados testes de memória, os primeiros achaques de algum tipo de demência que estiver para apontar no horizonte. Pensei que talvez pudesse ser útil saber antes, para tomar alguma providência.

O doutor me aconselhou a não procurar a tal instituição. Seu argumento foi claro: “O senhor vai voltar pra casa com um carimbo aplicado na testa. Além do mais, pra essa doença não há vacina nem cura. Fique tranquilo e viva normalmente.” Entendi a mensagem e desisti de procurar a tal instituição. E continuo tranquilo e tocando a vida normalmente.

O falecimento do homem de letras e acadêmico Antônio Cícero, ocorrido há algumas semanas, ecoou na mídia brasileira. Numa viagem sem volta, o poeta veio à Suíça para um procedimento de suicídio assistido – que eu saiba, a Suíça é o único país onde essa prática está legalmente descrita e rigorosamente enquadrada.

Se o poeta decidiu tirar a própria vida, não terá sido em decorrência de um desengano amoroso, nem por ter dívidas insolúveis, tampouco por estar com câncer em estado terminal – nenhuma dessas desgraças. O que o atormentava a ponto de tirar-lhe o gosto de viver era a perspectiva de ser entranhado pelo mal de Alzheimer, do qual já sentia as primícias.

Cada cabeça, uma sentença. Assim como acatei o conselho de meu médico e abandonei a ideia de fazer a bateria de testes de memória, não tenho intenção de me submeter a exame de sangue para detectar Alzheimer. Se a doença for pra vir, virá de qualquer maneira, com testes ou sem eles. Portanto, de que adianta ficar sabendo de véspera, se nada se pode fazer para evitar?

Pode ser que alguém prefira estar preparado. Na minha maneira de pensar, não faz sentido. Se houvesse meios de retardar, suavizar ou eliminar a doença, seria outra coisa; mas, no estágio atual da ciência, não há que fazer.

Ao contrário. Tenho a impressão de que saber de antecedência o nome da doença feia que vai nos agarrar daqui a não se sabe quantos anos pode até precipitar a chegada que se queria retardar. O estresse que essa pré-ciência vai provocar é capaz de estragar a existência e tirar o gosto de viver.

Não conheço os detalhes do caso do acadêmico Antônio Cícero. No entanto, é permitido supor que, se os descarrilamentos de sua memória não tivessem sido etiquetados com o nome de Alzheimer, ele ainda estivesse entre nós. E talvez viesse a morrer de outra coisa antes da piora da doença.

Kit covid

José Horta Manzano

Meses atrás, sob instigação de nosso doutor presidente, o Ministério da Saúde havia encomendado caminhões de hidroxicloroquina e de azitromicina para entregar aos estados a título de «tratamento precoce» da covid-19.

Os governadores, mais chegados às orientações da ciência do que o presidente, recusaram-se a fornecer as drogas à população. A montanha de comprimidos encalhou nos armazéns federais. Para esvaziar os galpões, o governo federal planeja despachar os remédios para as farmácias populares, com a ordem de distribui-los gratuitamente a quem pedir.

Na França, logo que a epidemia estourou, um médico do Hospital Universitário de Marselha lançou a ideia de usar hidroxicloroquina combinada com azitromicina em pacientes com covid. Fez, por sua conta, um estudo com apenas uma vintena de (jovens) pacientes seus. Concluiu que o remédio era eficaz, visto que nenhum dos doentes desenvolveu um quadro grave. Vaidoso, convocou a imprensa e foi à televisão divulgar sua descoberta. Teve seu momento de glória e ficou conhecido no país.

As autoridades sanitárias se debruçaram sobre o caso. Depois de analisar os considerandos e os finalmentes, concluíram que a administração dessa combinação de remédios, além de não ter eficiência comprovada por teste de larga escala, é problemática. De fato, exige acompanhamento médico rigoroso e contínuo, pelo risco de importantes efeitos secundários. Desde então, ficou proibido administrar essa combinação de drogas como «preventivo» de covid ou mesmo como «tratamento precoce». Unicamente pacientes hospitalizados podem receber o tratamento.

by Nando Motta, músico e ilustrador

A azitromicina é um antibiótico. Sabe-se que a ingestão indiscriminada de antibióticos favorece o aparecimento de resistência no organismo. No futuro, quando o paciente realmente precisar, esse medicamento poderá não fazer efeito.

Quanto à hidroxicloroquina, contraindicações e efeitos secundários são da pesada. Insuficiência cardíaca, arritmia ventricular, lesões da retina, hipoglicemia, convulsões, vertigens estão entre eles. Não são drogas a serem distribuídas a quem pedir, como se fossem balas de açúcar.

Ao administrar essas drogas ao paciente internado, a intenção é evitar que a doença evolua para um quadro grave. É importante repetir que a combinação de cloroquina e azitromicina não cura a covid-19. Até o momento, não foi descoberto nenhum remédio para curar essa doença.

Na minha opinião, a atitude de nosso governo federal é temerária. Em outras terras, antibióticos só são vendidos com apresentação de receita médica. A ideia do governo brasileiro de distribuir indiscriminadamente drogas que deveriam ser controladas é porta aberta para o surgimento de um problema nacional de saúde: uma legião de cidadãos resistentes a uma classe de antibióticos. Sabe-se que essa situação favorece o aparecimento de superbactérias que não cedem a nenhum tratamento. Uma calamidade.

Um último detalhe
Relatório da Anvisa informa que 72% dos ingredientes básicos que compõem os medicamentos vendidos no Brasil são produzidos na China (37%) e na Índia (35%). De genuinamente nacional mesmo, só a embalagem e a bula, se tanto. Alguém precisa contar a nosso doutor presidente que, com o «kit covid», a China ganha mais que ele.

Aposentadoria ‘baby’

José Horta Manzano

Aposentadoria 2O jornal italiano La Repubblica, de Turim, publicou artigo interessante sobre inacreditáveis dispositivos que distorcem o sistema brasileiro de aposentadorias.

Os italianos falam de cátedra. Até 20 anos atrás, aquele país também concedia regalias fora do comum a determinadas categorias de cidadãos. Em alguns casos, 15 anos de contribuição bastavam para dar direito ao benefício para o resto da vida. A reforma de 1995, se não corrigiu todas as falhas, amenizou efeitos perniciosos.

A língua italiana tem até uma expressão para definir aposentadoria concedida aos que ainda estão longe de completar 65 anos. Dizem “baby pensioni” – aposentadorias de bebê. O diagnóstico de Anna Lombardi, autora do artigo, é de que essas pensões «de bebê» põem o Brasil de joelhos. E tem razão.

O estado já periclitante das finanças nacionais é agravado pelas larguezas do sistema de aposentadorias, verdadeiro poço sem fundo. Signora Lombardi explica a seus leitores o chamado «efeito Viagra».

Aposentadoria 1Segundo ela, muitos desses jovens aposentados se casam (ou se casam de novo) tarde, pelos 60 ou 70 anos. Escolhendo esposa de pouca idade, fazem da cônjuge a herdeira da aposentadoria, que lhe será paga por décadas. O sistema é perverso porque, em casos assim, dá benefício a quem ainda está em idade de trabalhar. Não é justo que toda a sociedade deva pagar.

Não sou especialista em assuntos previdenciários, mas confesso que, em meu círculo próximo, conheci casos surrealistas. Certas pensões são concedidas às filhas do falecido, sem limite de idade, desde que permaneçam solteiras. Há senhoras que, embora vivam com um companheiro, evitam casar-se para não perder o direito à pensão.

É curioso que o reconhecimento de uniões estáveis por parte do Estado brasileiro seja estrada de mão única. A união é aceita para acrescentar benefícios, mas não para coibir abusos. São coisas nossas.

Aposentadoria 3Uma das grandes oportunidades perdidas por Luiz Inácio da Silva – entre outras tantas – foi a reforma que nosso sistema de aposentadorias reclama há décadas. Quando ele estava no apogeu da popularidade, teria sido fácil. Hoje ficou bem mais complicado. É a herança problemática que ele recebeu dos antecessores e transmitiu, tal e qual, aos sucessores.

Seja como for, vista a desaceleração da taxa de crescimento da população, o pagamento de benefícios tende a tornar-se o quebra-cabeça maior das finanças nacionais. Do jeito que está, o sistema não aguenta mais dez anos.

Nosso guia, que julga ter ‘reinventado’ o Brasil, será lembrado por sua inação quando os ventos estavam favoráveis. É pena.