A palavra mágica

José Horta Manzano

Política 1Nossas autoridades federais contam com extraordinária equipe de analistas, marqueteiros e arteiros. Com precisão muito maior do que todos os analistas não governamentais reunidos, conseguem apurar o Zeitgeist, o espírito do momento. Conseguem fazer que personalidades políticas saiam, lampeiras e sorridentes, das piores enrascadas.

Doze anos de mensalões, roubalheiras, trapalhadas, desprezo para com o povo, escândalos, erros monumentais, descaso, degradação econômica, incompetência, desleixo, promessas não cumpridas, vexames internacionais, hecatombe futebolística, desonestidade, alargamento de fraturas sociais ― esse conjunto de mazelas não foi suficiente. Dona Dilma, atualmente no topo da pirâmide, continua no páreo para emplacar mais um mandato. E, naturalmente, para dar carona ao séquito.

O povo não faz tanta questão de que se lhe diga a verdade. Cada um quer mais é ouvir aquilo que lhe agrada. Bolsas várias já garantem à maioria atual a fidelidade de extensa base eleitoral. Os votos que faltam para completar estão sendo arrebanhados, com maestria, através de promessas vagas de um Brasil maravilha.

A reforma política, por exemplo, faz parte das promessas evocadas a cada eleição. Volta e meia, o assunto volta à ordem do dia. Ninguém sabe direito do que se está falando ― o que é excelente, pois permite a cada um imaginar o que mais lhe agradar. (Não deixa de ser curioso que doze anos de amplo domínio do Executivo, do Legislativo e, até certo ponto, do Judiciário não tenham bastado à atual maioria para empreender a necessária reestruturação.)

Blabla 2Estes dias, a presidente voltou a bater na tecla da reforma política. E aventou a ideia de liquidar o assunto através de um plebiscito. Quando a coisa aperta e fica difícil dar resposta nítida, a ideia do plebiscito costuma ser içada da cova.

Que é um plebiscito, afinal? É consulta popular em que, a uma questão proposta, deve-se responder por um sim ou por um não, sem meio-termo. Agora diga-me, distinto leitor, como será possível resolver um problema complexo como o da reforma política por meio de um sim ou de um não?

Nossos sábios têm perfeita consciência de que reforma política não combina com plebiscito. É assunto complexo demais para ser zerado com uma simples resposta binária. Assim mesmo, a candidata foi orientada a lançar a ideia ao vento. Sempre haverá algum incauto para comprar o peixe sem se dar conta de que já vem avariado. E assim vão-se arrebanhando mais alguns milhares de desavisados.