latino
Latinidade
José Horta Manzano
O distinto leitor que já me fez a honra de ler alguns artigos se deu conta de que faço o que posso para exprimir meu pensamento com precisão. A clareza me encanta. Sinto-me irritado quando não consigo entender o que um autor quis dizer. A escrita clara exige palavras adequadas ‒ taí uma regra incontornável.
Traduzir um texto, por exemplo, não é tarefa que se possa cumprir com um pé nas costas. Paradoxalmente, quanto mais próximos estiverem o idioma de origem e o de chegada, maior será o risco de o tradutor distraído se deixar ludibriar por um «falso amigo».
Estou-me referindo a falsos amigos em sentido figurado, evidentemente. São palavras e expressões traiçoeiras que, embora parecidíssimas, não significam a mesma coisa na língua estrangeira e na nossa. O problema assume proporções maiores quanto se traduz entre línguas da mesma família. O que parece nem sempre é.
Mais dia, menos dia, todo tradutor acaba caindo na armadilha. Até franceses, conhecidos pelo rigor no trato da língua, escorregam. Um exemplo de erro frequente é quando ingleses ou americanos utilizam a palavra «administration» para designar o conjunto dos governantes. As expressões «Obama administration» ou «future Trump administration» são frequentemente (mal) traduzidas ‒ tanto na França quanto no Brasil ‒ por «administração Obama» ou «futura administração Trump».
Não bate. Não é nossa maneira de dizer. A boa tradução será «governo Obama» ou «futuro governo Trump». Ou alguém ousaria se referir à finada «administração Lula»? Se não estiver convencido, faça uma busca rápida no google. A proporção é de uma menção a «administração Lula» para cada centena de referências a «governo Lula». Portanto, «administração Trump» é contaminação a evitar.
Há outras armadilhas à espera do tradutor negligente. Uma delas, que me irrita particularmente, é tratar nossos hermanos latino-americanos simplesmente de «latinos». Nos EUA, é o uso; entre nós, não. Em manchete, o Estadão escorregou ainda ontem. Disse que o grosso dos turistas que visitaram o Brasil em 2016 eram «latinos», seguidos de europeus. Sem se dar conta, o autor da manchete deu um golpe na latinidade. Abriu um fosso entre latinos europeus e latino-americanos.
A manchete aberrante tem mais de uma causa. Uma delas é o comportamento do tipo ‘maria vai com as outras’: é tão mais cômodo adotar o que vem escrito no despacho da agência de notícias e traduzir palavra por palavra… Outra causa é evidente falta de estudo. Talvez não esteja mais sendo ensinado na escola que «latinos» não são unicamente nossos vizinhos de fala espanhola. Diz-se latino de todo povo originário de país de língua latina. Franceses, portugueses, italianos, romenos, espanhóis, andorranos, monegascos são latinos. Sem mencionar parte dos suíços, dos belgas, dos canadenses.
Francamente… Excluir romanos e italianos dos povos latinos, como fez o autor da manchete, é de uma estupidez sem nome.
Lá também, quem diria, como cá
José Horta Manzano
Em dezembro do ano passado, publiquei uma postagem sobre o autoexílio do astro de teatro e cinema Gérard Depardieu. A intenção era dar-lhes uma ideia da voracidade do fisco francês. O nível de imposição na França está atingindo píncaros. O povo se sente espoliado, exatamente como em terras tupiniquins. Não se passa um mês sem que surja um novo imposto.
Não é à toa que a popularidade de Monsieur Hollande, o presidente da República, desceu a 20%, o nível mais baixo já registrado desde que esse índice é aferido. Tanto no caso francês quanto no brasileiro, essas coisas não acontecem da noite pro dia. Anos de má governança levaram a essa situação.
Há também um problema filosófico por detrás. Dependendo da cultura e das tradições de cada país, o olhar que se lança sobre o enriquecimento individual pode variar. Em países de cultura anglo-saxônica, a riqueza pessoal é valorizada. O cidadão que «chegou lá» se orgulha disso e faz questão de que todos saibam. Já no universo latino, fortunas pessoais são vistas com certa desconfiança. Melhor esconder, que não é de bom-tom alardear seu próprio sucesso.
De onde virá essa tendência? Decorrerá do protestantismo de uns oposto ao catolicismo de outros? Se assim fosse, como explicar que no mundo árabe, na China e no Extremo Oriente não exista esse pudor cercando o enriquecimento pessoal? É uma vasta questão. Convém deixar o debate para especialistas.

Estes dias circula na internet uma frase de Gerard Depardieu, aquele que se mudou para a Bélgica para fugir aos impostos confiscatórios franceses. Ela vai logo aqui abaixo. Não estivesse assinada pelo conhecido ator, bem que poderia aplicar-se a um país muito conhecido nosso. Você deve imaginar qual é.
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«Aqueles que, como os senhores Hollande, Ayrault, Sapin(1) e tantos outros, são sustentados pelo dinheiro público do nascimento até a morte,
aqueles que são praticamente dispensados de pagar encargos sociais,
aqueles que gozam de um sistema de aposentadoria reservado à sua categoria,
aqueles que têm direito de fazer investimentos financeiros sem pagar imposto,
aqueles que jamais investiram um centavo numa empresa, mas aplicaram tudo em residências de férias
devem, no mínimo, ter a honestidade de jamais pronunciar a palavra Igualdade(2).
Tampouco devem exigir dos outros, ainda que esses outros tenham enriquecido, solidariedade maior do que a que se impõem a si mesmos.»
(1) Respectivamente: presidente da República Francesa, Primeiro-Ministro e Ministro do Trabalho.
(2) Igualdade é a segunda palavra da divisa nacional: Liberté, Égalité, Fraternité

