Popularidade

José Horta Manzano

Semana sim, outra também, nova pesquisa de popularidade presidencial circula na praça. Olha só, a popularidade subiu! Veja, a popularidade baixou! Ih, agora parece que tem mais gente gostando dele! Nossa, se ele continuar descendo desse jeito, vão lhe cassar o mandato antes do fim do ano!

Não sou especialista em pesquisa de opinião. Assim mesmo, acredito que sondagens são o que se costuma chamar de «retrato do momento»; pelo menos, é o que garantem os pesquisadores. Os institutos são bem claros ao explicar que ‘se a eleição fosse hoje’, a tendência seria esta ou aquela. Como a eleição não é hoje, o valor dessas pesquisas é bem relativo. Em outras palavras: o que vale hoje pode não valer mais nada amanhã.

Mas o que me surpreende é outra coisa. Eu me pergunto como é que a aprovação do trabalho do presidente pode seguir num ritmo de ioiô, que hoje sobe, amanhã desce, pra depois subir de novo e baixar em seguida. Como é que pode? Será que a população é assim volúvel?

Cada um tende a medir o mundo com a própria régua. No caso de Bolsonaro ou do Lula, por exemplo, já me convenci de que são ambos gente que não presta, que não serve para cargo político; são gente que eu não gostaria, aliás, de ver em cargo público nenhum. Portanto, minha aprovação será sempre negativa e não mudará nem amanhã, nem no ano que vem, nem no dia da eleição. Nem que venham com asas nas costas, tocando lira e cantando louvas ao Senhor.

Abro um parêntese. Só votaria num deles se fosse pra evitar a eleição do outro. Exemplo: pra rejeitar Bolsonaro, votaria até no Lula. Mas isso não é oscilação de humor, é estratégia.

Curiosamente, me dou conta de que nem todos pensam assim. Ah, o ser humano é diverso! Muita gente oscila, a depender dos últimos acontecimentos. Veio o auxílio emergencial? Adoro o presidente! Não veio o auxílio? Detesto o presidente! Ele fez um discurso bonito? Adoro o homem! Falou palavrão? Destesto (ou amo) aquele sujeito!

Enfim, ainda bem que as pessoas são todas diferentes umas das outras. Se a opinião de todos fosse sempre a mesma e sempre imutável, o mundo seria bem monótono.

A extradição de Battisti

José Horta Manzano

Antes de qualquer outra consideração, quero lembrar ao distinto leitor que, nos últimos cinco anos, mencionei neste blogue o nome de Cesare Battisti em nada menos que 23 artigos. Em todos eles, mostrei-me favorável à devolução do fugitivo a seu país de origem. Parece-me que todo criminoso, desde que tenha sido condenado em processo justo e decorrido em ambiente civilizado, tem de cumprir a pena. Não me parece normal nem aceitável que, por esperteza ou por amparo de poderosos, um condenado possa fugir para conseguir asilo nalgum lugar.

O problema, no caso desse senhor, é que a coisa foi longe demais. Por absoluta incompetência dos que têm ocupado as altas funções neste país estes últimos anos, decisões importantes têm se transformado em ioiô, em ucasses tonitruantes que respondem ao humor do comissário de turno. O veredito de hoje pode diferir do de ontem. E, com certeza, será diverso do despacho de amanhã. Ao fim e ao cabo, nosso sentimento de insegurança jurídica equivale ao que devia atormentar os súditos de Luís XIV, assujeitados aos humores cambiantes do Rei Sol.

Nossa formação escolar tosca tem produzido um povo imprudente. Povo imprudente escolhe dirigentes pé de chinelo. Dirigentes pé de chinelo costumam designar, para o STF, ministros pusilânimes. Pronto, os ingredientes estão sobre a mesa. Há que usá-los. O resultado é a insegurança jurídica. Ninguém está podendo garantir hoje como será a lei amanhã.

«STF se inclina a autorizar extradição de Battisti» ‒ foi a notícia que circulou este fim de semana. Neste 24° artigo em que escrevo sobre esse senhor, tenho duas considerações a fazer. A primeira é de caráter humanitário. Por maiores que tenham sido os crimes praticados por um indivíduo, parece-me desumano infligir-lhe tortura psicológica. Tortura é crime, não é? Pois é o que vem sendo praticado contra esse fugitivo. Desde que foi preso, em 2007, passaram-se mais de onze anos durante os quais ele foi dormir, a cada noite, sem saber quais seriam as disposições a seu respeito no dia seguinte. Seria acolhido? Preso? Expulso? Deportado? Extraditado? Deixado em paz? Não, não se pode submeter ninguém a esse infernal morde-assopra.

A segunda consideração liga-se a outra manchete destes dias: «O STF deve declarar que a decisão de Lula pode ser revista por outros presidentes». Os que não gostaram da decisão do Lula ficam contentes com a notícia. E vice-versa. Mas, pensando bem, a notícia é incongruente. Novo presidente pode extraditar um fugitivo que se encontra asilado ‒ até aí, tudo bem. Mas imaginemos o contrário. Que um presidente tenha mandado embora um estrangeiro. E que seu sucessor queira conceder-lhe o asilo. Como fazer para trazer de volta o indivíduo agora encarcerado em prisão no exterior?

Não faz sentido. Em matéria de concessão de refúgio, decisão de um presidente não deve poder ser revista. Além dos problemas práticos, cai muito mal no contexto internacional. Se o abrigo dado a signor Battisti já foi mal visto pela Itália e pelo resto do mundo, é melhor parar por aqui. Mudança na decisão vai deixar a impressão de que nosso país é republiqueta bananeira, que se verga a pressões vindas de fora. No caso deste terrorista, foi um erro tê-lo acolhido. Mas o mal está feito. Pra não piorar, é melhor deixar como está.