Pesadelo voltou

José Horta Manzano


Algumas considerações sobre Trump e sua nova eleição (que alguns chamam equivocadamente de “reeleição”)


Nem as preces, promessas, novenas, oferendas e despachos de meio mundo foram suficientes. Os americanos, os verdadeiros donos da bola, votaram como bem entenderam. E mais uma vez elegeram Donald Trump para a Casa Branca. Como é que pode? Para mim e para muitos, aquela mulher simpática, sorridente e diplomada transmite mais confiança que aquele velho pretensioso, grosseiro e ameaçador.

Acredito firmemente que as tradições daquele país – ligadas à força física, à violência, à lei do mais forte, à crença de que vence o que atira primeiro ou o que bate mais forte – falaram mais alto. Não é tão já que entregarão as rédeas do país a uma mulher. E, ainda por cima, de pele escura.

Muitos povos têm fixação em tempos gloriosos que ficaram no passado. Franceses e ingleses vivem a nostalgia da época das colônias, em que viviam num país rico e poderoso.

Em Portugal, esse sentimento é especialmente presente. Fala-se sempre, com certa saudade, do tempo em que o pequenino país tinha importância mundial por ter colônias ultramarinas. Muitos anos atrás. tive um colega de serviço português, que suspirou um dia, balançando a cabeça e, com ar acabrunhado, me confessou sua tristeza: “Ah, e perdemos o Brasil…”.

A partir de 1945 e pelas três décadas seguintes, os EUA viveram seu apogeu. Eram os maiores em todos os pontos: os mais poderosos, os mais ricos, os mais influentes. Todo o mundo respeitava aquele país e gostaria de viver lá. O cinema nos trazia imagens de uma civilização avançada.

Quando Trump insinua que vai fazer com que seu país volte a ser importante (Make America Great Again), está aludindo àquele período. Quem é que não gostaria, não digo de voltar ao passado, mas de reviver uma época dourada, de crescimento, sem desemprego, sem concorrência comercial à altura do país? Um período de dólar forte, que permitia à população viajar à Europa ou ao México com dinheiro farto no bolso.

Pois é esse argumento de dar água na boca que aflora no imaginário do americano comum quando Trump brande seu MAGA (Make America Great Again). Seria difícil perder a eleição.

Cantinho da Candinha
Será que é impressão minha? Pela foto do início deste artigo, parece que Donald Trump abandonou a perturbadora coloração laranja do cocuruto e permitiu a seus cabelos viver uma velhice normal?

Como meus cultos leitores sabem, dona Melania Trump é originária da Eslovênia, pequeno país de dois milhões de habitantes, resultado do despedaçamento da antiga Iugoslávia. Estive hoje dando uma vista d’olhos aos jornais de lá. Como se pode imaginar, estão exultantes com a perspectiva de voltar a ter, por quatro anos, uma conterrânea no posto de First Lady dos EUA.

Por um desses veículos, fiquei sabendo que Barrow Trump, aquele garoto meio desengonçado que aparecia nas fotos durante a primeira presidência do pai, está hoje com 18 anos. Cresceu, cresceu, passou mãe e pai, está com 2,06m. Um assombro! Além do inglês, fala esloveno fluentemente. Fora de casa, só inglês. Da porta pra dentro, só esloveno. Se o pai não estiver, naturalmente.

Você fala esloveno?

O seleto clube dos negacionistas

José Horta Manzano

No momento em que escrevo, nosso Itamaraty – momentaneamente entregue aos delírios persecutórios de um embaixador júnior – ainda não reconheceu a vitória de Joseph Biden nas eleições presidenciais americanas. O clube dos renitentes está cada dia mais seleto.

Agora que a China, meio acanhada, deu os parabéns ao vencedor, ficamos na companhia de: Eslovênia, Rússia, Hungria, México e Coreia do Norte. Não tenho notícias da Mongólia nem da Quirguízia mas, salvo erro ou omissão, todos os demais já levaram a maçã para a professora.

Cada retardatário arrasta o chinelo por um motivo diferente. Vamos ver um por um.

Eslovênia
Eles estão fazendo papelão por motivo fútil, que combina mais com concurso de Miss Universo do que com relações internacionais. Neste pequeno país de 2 milhões de habitantes e área equivalente à de Sergipe, não acontece grande coisa. Um dia, uma modelo internacional natural do país casou-se com um multimilionário americano. O sonho da moça de origem simples ecoou no país inteiro. Pouco tempo depois, o maridão se tornou presidente. Desde esse dia, o pequeno país anda em cima de uma nuvem. É compreensível hesitarem em reconhecer que o sonho acabou.

Rússia e Hungria
Razões diferentes levam os dois países a almejarem o enfraquecimento da União Europeia. Para a Rússia, uma Europa fraca é desejável, pois alavanca o projeto de poder de Moscou. Para a Hungria, cujo governo atual tende para a direita extrema, o raciocínio é ideológico: uma Europa fraca – se possível esquartejada – liberaria seus Estados membros; nesse caso, alguns poderiam até juntar-se à Hungria e reforçar o clube de dirigentes extremistas autoritários. Aos olhos de russos e húngaros, a permanência de Trump no trono de Washington é a melhor receita para despedaçar a Europa.

México
Este caso também é transparente. Depois das promessas de Trump de construir um muro na fronteira entre os dois países, o relacionamento azedou. É compreensível. Por um lado, é humilhante ver um vizinho dizer por aí que vai levantar muro no quintal dele para se proteger de você. Por outro, caso a passagem entre os dois países ficasse realmente vedada, o México teria de hospedar todos os migrantes oriundos da miséria centro-americana.

Coreia do Norte
Bom, essa é fácil de entender. Faz alguns meses, um planeta estupefato viu imagens inimagináveis: um alaranjado Trump a cumprimentar o rechonchudo herdeiro da dinastia que há 75 anos domina a Coreia do Norte. Encantado com as perspectivas que começavam a se abrir para seu país, Kim Jong-Un reluta em aceitar a partida de Trump.

E o Brasil, nesse clube, que pito toca?

Diferentemente da Eslovênia, não temos primeira-dama brasileiro-americana. Aliás, o Brasil costuma mostrar indiferença quanto ao destino de conterrâneos que vivam além-fronteiras. Sei de muita gente que, vivendo no estrangeiro, tem ou teve relativo sucesso nas letras, nas artes ou nas ciências; gente que, no entanto, é desconhecida no Brasil.

Diferentemente da Rússia e da Hungria, não temos interesse em desmontar a União Europeia. Os projetos de poder do Brasil costumam estender-se ao relacionamento com a vizinhança. Aliás, no atual governo, até com os vizinhos andamos emburrados.

Diferentemente do México, não temos ressentimento contra o grande irmão do norte. O desvario de Trump não chegou ao ponto de imaginar construir muro em nossas fronteiras.

Pode parecer curioso, mas nossa motivação para a ausência de parabéns a Biden tem afinidade com a Coreia do Norte.

Para a galeria, a explicação é ideológica: Mr. Trump representa a defesa dos tradicionais valores ocidentais e cristãos. Mas isso é fachada. No duro, a explicação é mais terra a terra.

Não temos (ainda) nenhuma dinastia despótica no poder, mas o clã aboletado momentaneamente no Planalto é candidato forte. Iludidos com a pseudoideologia de Trump, esperavam que o apoio incondicional e servil dado ao americano pudesse servir de rampa de lançamento para se tornarem donos do Brasil pelas próximas décadas.

Apostaram todas as fichas. Perderam. E ficaram sem ficha.

Uns que choram

José Horta Manzano

A queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética provocaram uma onda de choque que varreu todo o leste europeu. Durante os anos que se seguiram, os países satélites da URSS sentiram que era chegado o momento de reaver a independência perdida no epílogo da Segunda Guerra.

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Um a um, foram todos retomando a soberania que havia sido posta de molho durante mais de quarenta anos. A Iugoslávia, embora não sendo propriamente um «satélite», foi palco de processo mais traumático que os demais. Guerras fratricidas ensanguentaram a região durante anos. Ao final, a federação explodiu e deu lugar a meia dúzia de pequenos países independentes.

Entre eles, está a Eslovênia. Apesar do território exíguo e da população diminuta ‒ ou talvez por causa disso ‒, separou-se mais tranquilamente que os vizinhos. Quando, por plebiscito, os eslovenos optaram pela independência, o poder central iugoslavo fez menção de invadir o novo Estado. Mas o conflito durou pouco. Em poucos dias, sob pressão da Comunidade Europeia, um tratado selou a separação e pôs fim às hostilidades.

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

O território esloveno é pouco menor que o de Sergipe. A população do país não passa de dois milhões de pessoas. Assim mesmo, o PIB por habitante é quase o dobro do brasileiro. O país é tranquilo, com paisagens muito bonitas, um daqueles lugares de que pouco se fala, onde raramente acontece algo importante.

Estes dias, enquanto eventual eleição de Donald Trump assustava muita gente, as expectativas na Eslovênia divergiam do resto do mundo. A razão é peculiar: a eslovena Melania Trump (nascida Melanija Knavs) será a nova primeira-dama americana pelos próximos quatro anos. A ex-modelo está casada há onze anos com o presidente eleito.

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Chamada da mídia eslovena, 9 nov° 2016

Ao falar de Trump, a mídia eslovena nunca perde a ocasião de dirigir os holofotes para Melania. Se os cidadãos do pequeno país pudessem ter votado, Trump teria sido eleito por maioria staliniana se não por unanimidade.

Uns que choram, outros que riem. E vamos em frente.