Amor à mesa

José Horta Manzano

A fronteira entre a Coreia do Norte e a Rússia tem comprimento de escassos 17 quilômetros. Pois é ela que permite ao ditador norte-coreano, Kim Jong-un visitar Vladímir Pútin. Paranoico como todo ditador Mr. Kim não põe os pés em avião.

(Considerando o que aconteceu outro dia com Evguêni Prigôjin, do Grupo Wagner, que caiu junto com seu avião num “acidente” ocorrido em espaço aéreo russo, o coreano até que tem razão – com Pútin, nunca se sabe.)

Ao não entrar em avião, Mr. Kim só tem uma opção para viajar: o trem. Desse modo, só pode ir de visita a seus dois vizinhos de parede: a China e a Rússia (graças aos 17km de fronteira).

Mandou fazer um trem blindado, coisa que não se via desde os tempos da Revolução Paulista de 1932. Assim, estará protegido caso algum camponês exaltado resolva dar-lhe uma estilingada. E lá se foi ver o colega russo.

Foi bem recebido. O Washington Post nos traz o cardápio do banquete. Serviram uma certa massa recheada de “carangueijo”. Falar de guerra enquanto se come “carangueijo” é indigestão na certa.

Banquete com queijo?
Perfeito!

Banquete com beijo?
Bem, entre aqueles dois, tudo pode acontecer. Há gosto pra tudo.

Banquete com carangueijo?
Evite! Tem o poder de arruinar qualquer negociação. Prefira sempre caranguejo, o legítimo.

Tem boi na linha

José Horta Manzano

Lá pelo fim dos anos 1950, foi lançado o filme nacional “Tem boi na linha”, estrelado por Zé Trindade. Era uma chanchada – comédia leve e despretensiosa filmada em estúdio sem cenas externas, produzida com orçamento modesto.

Perto de minha escola, havia um cinema. Pela janela escancarada, dava pra ver o que estava passando: “Tem boi na linha”. Na fachada, o letreiro em letras enormes. Ao ler o nome do filme, nosso professor de Português, um mestre rigorista, escandalizou-se. Não entendia como tinham ousado pôr no título um linguajar tão vulgar. No seu entendimento, tinha de ser “Há boi na linha”. Outros tempos.

Lembrei do caso estes dias ao ler a notícia de caranguejos que atravessaram a pista do aeroporto de Vitória do Espírito Santo e causaram momentânea interrupção de pousos e decolagens. Primeiro, um avião avisou à torre que “um monte” de caranguejos estavam na pista. Ato contínuo, a torre deu ordem de arremeter a um aparelho prestes a pousar.

Inspecionada a pista, descobriu-se que havia um só caranguejo. O crustáceo foi retirado e a movimentação de aviões pôde reiniciar. No avião que teve de arremeter, os passageiros foram informados do que tinha acontecido e riram muito, achando a situação engraçadíssima.

A Prefeitura de Vitória informou que o aeroporto se encontra próximo a um manguezal, o que propicia o aparecimento de algum “intruso” na pista. A meu ver, a informação foi dada pelo avesso. O manguezal já estava lá havia milênios quando o aeroporto foi construído. Os intrusos, portanto, são os humanos, não os crustáceos. Foram os homens que invadiram território alheio sem pedir licença.

A Prefeitura esclareceu ainda que estamos no período de reprodução dos caranguejos – época chamada “andada”. É quando, seguindo o próprio instinto, se deslocam todos na mesma direção, para copular no lugar adequado. Se o Brasil já tivesse chegado a um bom nível de consciência ecológica, a reação dos passageiros não teria sido tão hilária. O fato de ter sobrado só um caranguejo na pista pode indicar que o grosso da colônia já tinha atravessado.

Não tenho condições técnicas de aconselhar os responsáveis pelo aeroporto, mas acredito ser possível abrir uma passagem para os caranguejos. Por cima da pista não se pode, mas por debaixo, um túnel, quem sabe. Não custa dar uma mãozinha para perpetuar a espécie e evitar acidentes na pista.

No mundo todo, pistas asfaltadas e linhas de trem formam barreira intransponível para a passagem de animais (grandes e pequenos). Para evitar mortandade pelas estradas, cada ponto crítico vem recebendo solução adequada.

 

Passagem para ursos sobre via espressa
Alberta, Canadá

 

 

Passagem para tartarugas sob estrada de ferro
Kobe, Japão

 

 

Passagem para caranguejos sobre estrada de rodagem
Christmas Island, Austrália

 

 

Passagem para cervos sobre via expressa
Picardia, França

 

 

Fim de reino

José Horta Manzano

Por mais autoritária que seja – ou que goste de parecer –, dona Dilma não controla nem seus próprios ministros. O fato ficou evidente estes dias. Um aqui, outro ali, quinze deles deram demissão. Ou, como se diz mais diplomaticamente, «puseram seu cargo à disposição».

Dona Marta, que não perde ocasião para sobressair, demitiu-se de forma teatral. Teve o topete de criticar publicamente a política econômica da presidente. Relaxemos e gozemos, irmãos!

Reunião ministerial

Dos 39 ministros, mais da metade continua dando uma de joão sem braço, como se o fim do primeiro mandato da presidente não lhes dissesse respeito. E pensar que, quando digo que a equipe governamental se tornou um verdadeiro balaio de caranguejos, tem gente que me chama de exagerado…

A maior parte da culpa por essa desordem repousa sobre os ombros da própria presidente. Há ritos que devem ser instituídos e cumpridos. Se, numa empresa, há reuniões periódicas de gerentes e diretores, por que seria diferente no governo do País?

Nem que fosse pra inglês ver, dona Dilma deveria estabelecer uma reunião – mensal, digamos – com presença obrigatória de todos os ministros. Cada participante teria direito a 5 minutos, durante os quais exporia o que fez desde a última reunião e o que pretende fazer no próximo mês. Em três horas, a agenda estaria liquidada e os ministros sentiriam que fazem parte de uma equipe. A ausência desse rito resulta em dispersão, cada um agindo por conta própria e fazendo o que bem entende. Quem perde é o País.

Demissão coletiva
Manda a decência que decisões de grosso calibre sejam tomadas de forma concertada. A demissão deveria ter sido apresentada conjuntamente por todos os ministros. Teria sido a maneira mais civilizada de proceder. Não tendo sido respeitada essa regra de compostura, caberia à presidente tomar a iniciativa de pôr todos de aviso prévio. A mandatária fez isso somente com o ministro da Fazenda, numa decisão humilhante para o atingido. Os outros continuam olhando para o lado, como se não tivessem nada que ver com o peixe.

Reuniao trabalho 1Resumo da ópera
A presidente não soube organizar o trabalho ministerial. Em consequência, seus assessores nunca se deram conta de que formavam uma equipe. O final melancólico está aí: cada um age à sua guisa. Uns saem humilhados, outros saem humilhando.

A presidente colhe o que plantou.