Lula & Trump: os discursos

José Horta Manzano

A 80ª Assembleia Geral da ONU abriu hoje com o discurso dos dois. O Brasil antes, porque assim manda uma tradição não escrita. Em seguida, Trump, por ser o anfitrião.

Quem se acostumou com os discursos de nossos presidentes nos últimos anos, de Bolsonaro e do próprio Lula, se surpreendeu com a fala deste ano. Parece que o Lula andou frequentando aulas de “estadismo”, se é que essa disciplina se ensina nalgum lugar. Falou como estadista. Não tivesse feito menção, no finalzinho, a Pepe Mujica e ao papa Francisco, – citação que me pareceu fora de lugar –, eu diria que o discurso foi perfeito.

Em vez de fazer como um infantil Bolsonaro, que se gabou um dia de “ter salvo o Brasil do socialismo”, o Lula fez um discurso digno de chefe de uma potência regional, que se respeita e que respeita o mundo. Mencionou, por alto, alguns feitos de seu governo, mas gastou bom tempo acentuando os ataques que o Brasil vem recebendo. Não mencionou o nome do agressor, mas insistiu na natureza do ataque.

Falou da carnificina que vem sendo praticada na Faixa de Gaza e deu nome aos bois: chamou a ação de Israel de genocídio, que é a descrição correta. Seu discurso foi interrompido uma meia dúzia de vezes por palmas. Não são todos os discursantes que fazem tanto sucesso.

Em seguida, veio Trump. Quem esperava ouvir Trump não se decepcionou: Trump se comportou como… Trump. Como se estivesse acima das regras do jogo, ultrapassou folgadamente os 15 minutos alocados a cada discursante. Veio com uma maquiagem de assustar. A pele do rosto estava escura, puxando para o alaranjado do cabelo. Ouvi dizer que ele usa um spray facial. Deve achar bonito.

Na primeira metade da fala, teceu elogios a si mesmo. Lançou à plateia um rosário de números inverificáveis referentes a inflação, desemprego, índice da Bolsa e inúmeros outros índices. Todos os números estão no melhor patamar desde que o mundo é mundo. Um verdadeiro milagre.

Me lembrou o Lula de outros tempos, quando dizia “nunca antes na história desse(sic) país”. O Trump de nossos dias vai pelo mesmo caminho “never before” nunca antes, etc. Mencionou o presidente anterior (Biden) uma meia dúzia de vezes, sempre para criticá-lo ou ridiculizá-lo. Chegou a mencionar o “sleepy President”, presidente sonolento.

Já na reta final, falou do Brasil. Me deu a impressão de estar desconfortável, de estar falando só pra dar uma resposta ao discurso do Lula. Pode ser só impressão minha. Começou a dizer que os EUA tiveram de agir (mas não disse de que ação se tratava) porque o Brasil estava exercendo pressões sobre firmas e cidadãos americanos, principalmente com censura, exercida por um “judiciário corrupto”. (O STF há de ter apreciado.)

Nessa altura, para não se enrolar ainda mais, fez uma digressão. Contou que, nos bastidores, antes de discursar, cruzou com o presidente do Brasil, Disse que os dois se cumprimentaram e se abraçaram(!). Revelou ainda que achou o Lula muito simpático e que tinha gostado dele. Acrescentou: “Ainda bem, porque, quando não simpatizo com uma pessoa, não faço conversa nem negócio”.

Trump não voltou mais a discorrer sobre as tensões com o Brasil. Por seu lado, explicou que, nos poucos segundos em que se encontraram, já tiveram tempo de marcar um encontro para a semana que vem.

Vamos cruzar os dedos para que essa simpatia mútua dure até a semana que vem, que se encontrem realmente e que a tensão se desanuvie. O Brasil está precisando.

Espaço de liderança

José Horta Manzano

Ao ler a chamada que estampo acima, fiquei pensativo. Quem lê essas palavras pode até ficar com a impressão de que o “espaço de liderança” do Brasil – seja lá o que isso possa significar – está sendo atacado e que necessita ser defendido. Esse raciocínio nos leva direto à doutrina Lulamorim, que divide o mundo em dois enormes grupos de países.

De um lado, estão os EUA e seus aliados, malvados que querem dominar o mundo à custa dos países atrasados. De outro, está o resto do mundo, um amálgama de países díspares, que vão da enorme China ao minúsculo Timor Leste, da rica Arábia Saudita ao paupérrimo Haiti.

Se a chamada do jornal tivesse sido fabricada na gráfica do Planalto, sairia nos mesmos termos. A filosofia do coitadismo está aí, resumida em uma dúzia de palavras: atacado, coitado, o Brasil precisa de um líder (no caso, Lula) para defendê-lo.

Essa dúzia de palavras toma o problema pelo avesso. O espaço de liderança de um país não se decide com discursos na ONU, ainda que pronunciados à frente daqueles belíssimos blocos de granito verde. Aquele recinto não foi feito para esse tipo de pleito. Dos que sobem àquele púlpito, esperam-se palavras que evoquem e encoragem a boa convivência entre os povos. Eventuais boas notícias sobre avanço sanitário e educacional de cada um também são bem-vindas.

Não faz sentido subir àquele pódio para defender o Brasil de ataques que fraudam nossa hipotética liderança onde quer que seja. Liderança não é medalha concedida pela ONU. A conquista da liderança é fruto de uma sequência de ações que vão firmando o Brasil como país estável, confiável e líder em algum tema ou em alguma região: aquele que segura as rédeas e dá as cartas.

Essas ações não estão sendo empreendidas. Olhando para trás no tempo, faz quase sete anos que o governo brasileiro “pedala pra trás” em política externa – tanto regional quanto internacional. Com o capitão, foram quatro anos de esforço continuado para nos levar à condição de pária internacional, status que quase alcançamos.

Desde que o imobilismo lulopetista, sincronizado com a doutrina de Celso Amorim, voltou ao poder, temos nadado de braçada para alcançar a outra margem, aquela que não é a nossa, e onde nos sentimos estrangeiros. Temos tentado, a todo custo, nos afastar do Atlântico, berço civilizatório de onde provêm os povos que constituem nossa nação, para tentar nos ancorar na margem das ditaduras e dos regimes ferozes. Que não combinam com nossos ideais de democracia.

Aproximação com Putin, desprezo da agredida Ucrânia, apoio envergonhado ao Hamas, apoio inabalável e indisfarçado a Maduro – esses são os atos que nos afastam de uma almejada liderança regional. Se pretendesse ser a locomotiva à qual se engatam todos os países vizinhos, o Brasil teria de se comportar com maior clareza e, sobretudo, com menos parcialidade.

Lula dirá e fará o que acha que tem de dizer e fazer em Nova York. Ao fim e ao cabo, porém, vai acabar se dando conta de que a liderança começa por um dever de casa benfeito. Nesse quesito, não são só as arestas que precisam ser aparadas – é hora de sentarem-se em volta de uma mesa e repensarem a política exterior brasileira, que tem sido tratada a sopapos.

República ou republiqueta?

José Horta Manzano

De 24 a 30 de setembro, terão lugar os trabalhos da Assembleia Geral da ONU, encontro que marca o início dos trabalhos do período 2019-2020. Como manda uma regra não escrita – mas respeitada todos os anos –, o Brasil tem a honra e o privilégio de ser o primeiro na lista de oradores.

Visto que todo país pode se inscrever, a lista de discursantes é longa, com dezenas e dezenas de chefes de Estado, chefes de governo, chefes de delegação. Doutor Bolsonaro vai ser o primeirão. Vai encontrar uma plateia cujos ouvidos ainda guardam o frescor de quem saiu da cama pouco tempo antes. É uma oportunidade e tanto.

Ser o primeiro orador é oportunidade única. Imperdível, como diria o outro. Ele vai falar antes de Trump, antes de Macron, antes de Putin, antes de Xi Jinping. Como é fácil imaginar, o primeiro discurso é ouvido com mais atenção do que o décimo sétimo ou o trigésimo terceiro.

O momento é solene. Neste anos recentes, o discurso do presidente do Brasil tem saído pasteurizado, sem grande relevo, sem força. Ninguém se lembra do que disse Michel Temer, nem do teor das palavras da doutora. Quanto ao Lula, então, sua fala ficou prisioneira da espessa bruma do passado.

Que dirá doutor Bolsonaro? Esperamos todos que ele já chegue com discurso pronto, escrito no papel, com letra bem grande. É a melhor maneira de prevenir que nos envergonhe proferindo torrente de bobagens. Imaginem o que seria se ele soltasse uma daquelas falas proibidas pra menores, daquelas que terminam invariavelmente com um ‘talquei’?

Dizem que ele anda preocupado com a sabatina que o bolsonarinho deve enfrentar no Senado antes de assumir a embaixada de Washington. Receia que o filho leve bomba no exame. (Essa era a expressão que se usava, nos tempos de antigamente, pra dizer que alguém foi reprovado.) Não quer que os dirigentes presentes à assembleia o enxerguem como incapaz de obter maioria no Senado. Considera que seria uma vergonha.

No meu entender, doutor Bolsonaro está equivocado. Nas democracias, descompasso entre o Executivo e o Legislativo é coisa corriqueira. Essas rusgas só são dramáticas em regimes autoritários. Se o parlamento chinês, por exemplo, desautorizasse Xi Jinping, seria o fim do mundo. No nosso tipo de regime, não tem grande importância. O próprio Trump encontra resistência, a toda hora, na Casa de Representantes.

Muito mais grave que desentendimento entre poderes é a própria nomeação do filho. Toda a imprensa mundial terá dado a notícia. O presidente do Brasil subirá ao púlpito no papel caricato daquele personagem de republiqueta de banana que distribui, entre parentes, cargos importantes e bem remunerados.

Não adianta. Se, no momento do discurso, a nomeação do filho já tiver sido confirmada pelo Senado, doutor Bolsonaro não será enxergado como presidente de uma República decente, mas como chefe de clã. Será visto com bigode e chapelão tipo sombrero. Ainda que apareça com a cara habitual.