Se esqueceram

source: Câmara dos Deputados

José Horta Manzano

Em dias de tempestade, a cada trovão que arrebentava, minha avó murmurava “Santa Bárbara!”. E ia assim, de trovão em invocação, até o tempo acalmar. Anos mais tarde fiquei sabendo que, na hagiologia católica, Santa Bárbara protege contra raios e tempestades.

Vim a conhecer também um provérbio português: “Só se lembra Santa Bárbara quando troveja”. Tem algo a ver com a ingratidão. Se a santa nos salvou um dia de ser fulminado por um raio, não precisa esperar a próxima situação de perigo para só então lembrar-se dela; convém dar-lhe um alozinho fora da precisão. Apego interessado é muito feio.

Com certa frequência, tenho lido notícias de brasileiros hostilizados em Portugal. Nem sempre isso acontece por terem cometido algum malfeito, mais frequente é serem interpelados pelo simples fato de serem brasileiros. Essa atitude me preocupa e me traz à mente lúgubres precedentes.

Penso nos judeus, nos armênios e em outros grupos étnicos que, ao longo da história, foram perseguidos pelo simples fato de serem judeus ou armênios. São agressões pérfidas e imensamente covardes.

Os brasileiros que estão em Portugal – ou em qualquer outro país – não são pessoalmente responsáveis pelo fato de haver muitos recém-imigrados nesses lugares. Se alguma queixa tem de ser feita, que seja feita aos que fazem as leis.

Li outro dia que, em Portugal, uma senhora insultou uma brasileira, na rua, sem motivo que não fosse estar irritada com a abundância de estrangeiros. “Volte para sua terra! Aqui mandamos nós!”. Ouvem-se gritos desse teor, um verdadeiro horror.

Ninguém tem o direito de xingar cidadãos na rua só pelo fato de não gostar de estrangeiros. Em Portugal há até um partido político xenófobo. Chama-se Chega. Quem adere a suas ideias, que se afilie a esse partido, vote em seus candidatos, participe de suas passeatas e manifestações. Isso pode. Xingar, não.

Saíram hoje as estatísticas oficiais da Confederação Suíça que esmiúçam os nascimentos do ano passado. O que todos querem saber é quais foram os nomes mais atribuídos aos recém-nascidos. Aqui, como em outras partes do mundo, há nomes da moda. Faz alguns anos que a moda impõe nomes curtos. Ninguém mais chama um filho de Epaminondas ou Zacarias, nem uma filha de Genoveva ou Madalena.

Em 2023, o top 5 de nomes femininos foi: Mia, Emma, Sofia, Emilia, Elena. E os cinco nomes masculinos mais atribuídos foram: Noah, Liam, Matteo, Gabriel, Leano. Acho um pouco sem graça dar a uma criança um nome da moda, que, no futuro, será igual ao de primos, colegas, vizinhos, amigos. Mas, enfim, de gosto não se deve discutir.

A justificação do título deste artigo vem agora. Junto com as estatísticas dos prenomes, saíram também as dos nomes de família. Saibam os distintos leitores que, no dia 31 de dezembro de 2023, os três sobrenomes mais comuns na Suíça de expressão francesa eram, na ordem:

1° Silva

2° Ferreira

3° Pereira

É isso mesmo. Na contagem oficial dos Serviços Federais de Estatística, sobrenomes portugueses aparecem na frente dos nomes locais. Os cidadãos portugueses que insultam imigrantes brasileiros e sugerem a eles que voltem para a terra de origem deveriam pensar nisto: os imigrantes portugueses que trabalham na Suíça são multidão! E não só na Suíça, em outros países é igual: França, Luxemburgo, Alemanha, Bélgica e outros mais. E não estou falando do século 19, mas do ano de 2023.

Posso garantir que, aqui na Suíça, jamais ouvi alguém se dirigir a um desses portugueses de maneira irrespeitosa para sugerir-lhes que voltem pra casa. As senhôras que se irritam ao cruzar com imigrantes em Portugal deveriam tomar um chazinho de humildade todas as noites antes de se deitar.

Goste-se ou não, aqui está a verdade: todos nós – todos mesmo – vimos de algum lugar.

Esplanada das religiões

José Horta Manzano

A cidadezinha francesa de Bussy St-Georges, de 25 mil habitantes, está situada na região parisiense, a 30km da capital e apenas a 7km do parque de diversões Disneyland.

Em 1980, com menos de quinhentos habitantes, não passava de sonolento vilarejo da zona rural. Em quarenta anos, a população multiplicou-se por mais de quarenta. É fato notável que, sem enquadramento atento, pode fazer desandar o quotidiano dos cidadãos.

Fotomontagem de ritos religiosos

Fotomontagem de ritos religiosos

Gente de muitos horizontes veio acrescentar-se aos camponeses originais. Franceses de raiz, fugindo os aluguéis inabordáveis da capital, fixaram residência no pequeno burgo. Imigrantes muçulmanos das antigas colônias francesas do norte da África também estão presentes. Por seu lado, imigrantes chineses, vietnamitas e cambodgianos constituem 35% da população do burgo.

Nestes tempos de enfrentamento entre fiéis de diferentes religiões, a presença de pessoas oriundas de diferentes universos periga transformar-se em foco de tensões. Em vez de esperar de braços cruzados que o pior acontecesse, as autoridades municipais optaram por tomar a iniciativa.

Grande área foi reservada para a construção de uma Esplanada das Religiões. Mal comparando, respeita-se o mesmo princípio de uma praça de alimentação de shopping center onde pizzas, sushis, paellas, brigadeiros e pastéis podem ser degustados a alguns centímetros de distância uns dos outros, sem que ninguém se sinta incomodado.

Armonitace

Armonitace

A esplanada compõe-se de dois templos budistas, uma mesquita (para os muçulmanos), uma sinagoga (para os judeus), uma igreja protestante. Um centro cultural para católicos armênios completa a coleção. A comunidade católica tradicional não está representada no novo espaço porque a cidadezinha já conta com duas igrejas, uma das quais fica bem próximo. Foi considerado supérfluo erigir mais um templo.

A construção do empreendimento ainda não chegou ao final, mas as obras continuam aceleradas. É que, para não favorecer nenhuma religião, a municipalidade cedeu o terreno mas se absteve de bancar as obras. Aliás, a lei francesa proíbe o uso de dinheiro público para fins religiosos. Cada comunidade teve de encontrar seu próprio financiamento.

O homem costuma temer aquilo que não conhece, é natural. A coabitação incentiva o mútuo conhecimento e favorece o mútuo respeito. Dificilmente Bussy St-Georges será, um dia, palco de combate interreligioso. Os que tiveram a ideia merecem parabéns.

Interligne 18h

PS: Armonitace ‒ que aparece na ilustração ‒ é criação artística encomendada para simbolizar a Esplanada. O conjunto entrelaça o símbolo estilizado de cada uma das religiões.