Amigo da onça

José Horta Manzano

Nos anos 1940, não havia internet nem televisão. Nos jornais, tudo era impresso em preto e branco, até as fotos. Para desfrutar imagens que não fossem as da vida real, só indo ao cinema ou comprando uma revista. As décadas de 1940 e 1950 marcaram o período áureo da telona e das revistas semanais.

A revista O Cruzeiro, publicada desde os anos 1920, era a mais importante. Toda semana, estava nas bancas um novo número com variedades, análise dos fatos do momento, seções assinadas por escritores de peso como Rachel de Queiroz.

E havia a tradicional página com um quadrinho (um quadrão, na verdade) do Amigo da Onça, personagem criado pelo desenhista pernambucano Péricles Maranhão (1924-1961). Figurinha um tanto sádica, o Amigo da Onça trajava sempre um impecável dinner jacket branco e azedava a vida de todos. Adorava pôr os outros em situação difícil – em saia justa, como se diz.

Não sei se é implicância minha, mas desde a primeira vez que vi Monsieur Zemmour, atual candidato da extrema-direita à Presidência da França, achei que ele se parecia com o Amigo da Onça. Não falo de semelhança de caráter (ainda que…), falo de parecença física. Dê uma olhada na ilustração que botei lá na entrada.

Ontem foi o primeiro grande comício do candidato, com vistas às eleições presidenciais de abril próximo. Desenrolou-se num miniestádio coberto, nas cercanias de Paris. Calcula-se que umas 15 mil pessoas tenham estado presentes. A gente se pergunta como é que é possível alguém sair de casa e viajar quilômetros para assistir ao discurso de um Zemmour. Enfim, cada cabeça, uma sentença.

O comício foi perturbado por diversos acontecimentos violentos. Os repórteres e cinegrafistas de um canal de tevê que costuma mostrar antipatia pelo candidato foram ameaçados por militantes e tiveram de ser evacuados pelos seguranças. O mesmo destino coube aos jornalistas de Mediapart, um jornal de esquerda. Francamente, os da extrema-direita não apreciam a imprensa. Dependesse deles, todos os jornais podiam fechar – com exceção dos que só publicam reportagens elogiosas.

Quando se encaminhava ao palco para discursar, Monsieur Zemmour foi agarrado pelo pescoço por um jovem desconhecido e, na confusão, acabou torcendo o pulso. O rapaz foi detido para averiguações e o candidato encontrou um médico camarada que lhe prescreveu 9 dias de licença médica.

Digo que o médico foi camarada porque, apesar de estar de licença médica por quase dez dias, o candidato não parecia estar sofrendo durante o discurso. Frise-se que, na França, toda agressão que acarretar mais de 8 dias de licença médica é considerada delito grave, com pena de até 3 anos de prisão mais 45 mil euros de multa. Nesta segunda-feira, o agressor continuava sendo interrogado nas dependências da delegacia. Ele alegou ser fã de Zemmour, mas os investigadores não parecem estar convencidos.

Um pouco mais tarde, um grupo de militantes de uma ONG de combate ao racismo, chamada SOS Racisme, foi reconhecido por devotos mais exaltados. Os integrantes do grupo foram então agredidos fisicamente, sangue correu, gritaria subiu, e a explicação terminou na rua, longe do recinto.

Resumo da ópera: gente gritou, o povo correu, cadeiras voaram. Hoje em dia, todos filmam tudo; as imagens falam mais que mil palavras. Ao final da festa, 62 pessoas tinham sido detidas para averiguações.

Acredito (e espero) que o eleitorado francês não desça ao ponto de eleger essa figura para a Presidência da pátria dos direitos humanos. Seria o cúmulo. Mas isso mostra que os simpatizantes da direita extrema não são gente tranquila, disposta a dialogar nem a debater.

A invasão do Capitólio de Washington, os buscapés atirados contra o STF em Brasília, as cadeiras voando em Paris são faces de um mesmo poliedro. Os devotos não são muitos (felizmente!), mas são barulhentos. Todo cuidado tem de ser tomado para não acreditar que sejam majoritários. Não são.

Fofocas impróprias

José Horta Manzano

O nome antigo era mexerico. Lá pelos anos 60, a revista semanal O Cruzeiro, então a mais importante do País ― é verdade que não havia muitas ―, lançou uma secção humorística.

Já havia páginas de humor antes disso, naturalmente. Ninguém perdia o Pif-Paf, de Millor Fernandes, com seu humor característico, suas máximas e seu traço naïf. O Amigo da Onça, sempre estampado na última página, assinado pelo pernambucano Péricles Maranhão, fez tremendo sucesso durante duas décadas. Muita gente não resistia e começava a leitura da revista pela última página só para ver logo a mais recente malvadeza do pitoresco personagem.Amigo da onça

A novidade de 1963 foram as Fotofofocas baseadas em fotografias reais. Mexiam com políticos e com gente conhecida. O humor não estava nas fotos, mas nos dizeres fantasistas que os humoristas inventavam e metiam nas bolhas. Naturalmente, os diálogos não tinham nada que ver com a realidade, mas o efeito podia ser engraçadíssimo.

O neologismo fez tanto sucesso que entrou nos dicionários. O Houaiss indica que o termo fofoca foi imortalizado já a partir de meados dos anos 70.

O tempo passou, O Cruzeiro desapareceu, a tevê se popularizou. Com isso, as fotofofocas acabaram relegadas ao esquecimento que costumamos reservar a tudo aquilo que sai de moda.

Um dia, surgiu o telefone de bolso, também chamado de celular. No começo era um tijolão que dava boa impressão, dava status, dava cartaz, dava importância, mas… raramente dava linha.

Mais alguns anos se passaram, internet se popularizou e, um belo dia, alguém teve a ideia de conjugar funções múltiplas num só aparelho. A situação atual, todos vocês conhecem. Um telefonezinho minúsculo permite falar, ouvir, ver, transmitir dados, guardar zilhões de coisas na memória, tuitar, despertar dorminhocos, e mais 1001 utilidades. As redes ditas «sociais» dão a seus usuários a possibilidade de fofocar a qualquer hora do dia ou da noite.

Assim como não há ida sem volta, nenhuma ação fica sem reação. Há limite para tudo. O erro de um não pode servir de justificativa para o erro de um outro. Os novos fofoqueiros nem sempre se dão conta dessas verdades velhas, mas inexoráveis.

Reportagem do Correio Braziliense do dia 15 de fevereiro nos dá conta de que duas jovens foram demitidas logo após haverem surpreendido um rato no prédio da oficina gráfica do Senado da República, onde cumpriam seu estágio. Seu crime? Fotografaram o bicho morto e postaram em suas respectivas contas facebook. Até aí, poderiam ter sido acusadas de indiscrição, de comportamento pouco elegante, mas ninguém é obrigado a ter gostos requintados.

O problema maior é que a foto difundida para o planeta estava acompanhada de comentário desairoso em que o presidente da Casa era comparado ao roedor. Foi aí que a porca torceu o rabo.

Que não me compreendam mal: não morro de amores pelo senhor Calheiros, não o conheço nem de elevador, não pretendo arrumar uma boquinha em nenhum de seus protetorados. O ensinamento que gostaria de extrair deste episódio é outro.

Na verdade, o que me deixa boquiaberto é o fato de as jovens ― certamente por ingenuidade própria da pouca idade ― terem ousado injuriar publicamente seu próprio patrão.

Quem é, como eu, do tempo em que aluno se punha de pé assim que o professor entrava em classe, e só se sentava quando lhe davam autorização, fica abismado com o desdém que as estagiárias mostraram. Descancar o presidente da própria Casa onde se trabalha! E difundir grande piada a um número de leitores potenciais que O Cruzeiro jamais sonhou atingir!Bolha cartum 1

Uma coisa é não concordar com decisões do Senado e de seus componentes. Nesse ponto, estamos todos de acordo. E o remédio é um só: votar bem. Outra coisa é comparar seu próprio patrão a um rato. Certos comentários podem ser feitos numa roda de amigos, não numa rede social de alcance mundial. É impertinente e cai mal.

Isso já não é fofoca, é mexerico de cortiço. Berrado num megafone.

O site do Senado Federal dá a informação in extenso. Aqui.