Espaço de liderança

José Horta Manzano

Ao ler a chamada que estampo acima, fiquei pensativo. Quem lê essas palavras pode até ficar com a impressão de que o “espaço de liderança” do Brasil – seja lá o que isso possa significar – está sendo atacado e que necessita ser defendido. Esse raciocínio nos leva direto à doutrina Lulamorim, que divide o mundo em dois enormes grupos de países.

De um lado, estão os EUA e seus aliados, malvados que querem dominar o mundo à custa dos países atrasados. De outro, está o resto do mundo, um amálgama de países díspares, que vão da enorme China ao minúsculo Timor Leste, da rica Arábia Saudita ao paupérrimo Haiti.

Se a chamada do jornal tivesse sido fabricada na gráfica do Planalto, sairia nos mesmos termos. A filosofia do coitadismo está aí, resumida em uma dúzia de palavras: atacado, coitado, o Brasil precisa de um líder (no caso, Lula) para defendê-lo.

Essa dúzia de palavras toma o problema pelo avesso. O espaço de liderança de um país não se decide com discursos na ONU, ainda que pronunciados à frente daqueles belíssimos blocos de granito verde. Aquele recinto não foi feito para esse tipo de pleito. Dos que sobem àquele púlpito, esperam-se palavras que evoquem e encoragem a boa convivência entre os povos. Eventuais boas notícias sobre avanço sanitário e educacional de cada um também são bem-vindas.

Não faz sentido subir àquele pódio para defender o Brasil de ataques que fraudam nossa hipotética liderança onde quer que seja. Liderança não é medalha concedida pela ONU. A conquista da liderança é fruto de uma sequência de ações que vão firmando o Brasil como país estável, confiável e líder em algum tema ou em alguma região: aquele que segura as rédeas e dá as cartas.

Essas ações não estão sendo empreendidas. Olhando para trás no tempo, faz quase sete anos que o governo brasileiro “pedala pra trás” em política externa – tanto regional quanto internacional. Com o capitão, foram quatro anos de esforço continuado para nos levar à condição de pária internacional, status que quase alcançamos.

Desde que o imobilismo lulopetista, sincronizado com a doutrina de Celso Amorim, voltou ao poder, temos nadado de braçada para alcançar a outra margem, aquela que não é a nossa, e onde nos sentimos estrangeiros. Temos tentado, a todo custo, nos afastar do Atlântico, berço civilizatório de onde provêm os povos que constituem nossa nação, para tentar nos ancorar na margem das ditaduras e dos regimes ferozes. Que não combinam com nossos ideais de democracia.

Aproximação com Putin, desprezo da agredida Ucrânia, apoio envergonhado ao Hamas, apoio inabalável e indisfarçado a Maduro – esses são os atos que nos afastam de uma almejada liderança regional. Se pretendesse ser a locomotiva à qual se engatam todos os países vizinhos, o Brasil teria de se comportar com maior clareza e, sobretudo, com menos parcialidade.

Lula dirá e fará o que acha que tem de dizer e fazer em Nova York. Ao fim e ao cabo, porém, vai acabar se dando conta de que a liderança começa por um dever de casa benfeito. Nesse quesito, não são só as arestas que precisam ser aparadas – é hora de sentarem-se em volta de uma mesa e repensarem a política exterior brasileira, que tem sido tratada a sopapos.

Árvore sem raiz

José Horta Manzano

Quanto mais profunda for a raiz, mais sólida e mais resistente será a árvore. Raiz profunda leva tempo pra crescer. Pede muito cuidado, muita rega e, sobretudo, muito tempo.

Num sentido figurado, a imagem da raiz profunda pode ser transposta às relações humanas. Uma única relação sólida e antiga vale mais que um conjunto de relacionamentos superficiais, efêmeros e de circunstância.

Arvore 4No jogo político, é virtualmente impossível escapar a alianças efêmeras: a cada eleição, fazem-se acertos de circunstância destinados a durar pouco tempo. A regra de ouro, a seguir escrupulosamente, é não se exceder. Nenhum excesso é benéfico. Todo exagero, mais dia menos dia, acaba cobrando a conta.

Ao assumir o posto máximo do Executivo, no já longínquo ano de 2003, nosso guia não tinha experiência administrativa. Um pouco por vaidade, um pouco por ambição, um pouco por mau aconselhamento, deixou-se tentar pelo excesso. Exagerou ao tecer a teia de alianças políticas. Deu prioridade ao número de “amigos” e de “aliados”. Teve a impressão de tricotar, assim, rede de proteção mais eficaz.

Chamada do Estadão, 6 nov° 2015

Chamada do Estadão, 6 nov° 2015

Deu de ombros à regra da raiz profunda, expediente que a sábia natureza já inventou há milhões de anos. Preferiu espalhar um emaranhado de radículas superficiais, desconexas, pouco profundas. A aparência era de solidez. No entanto…

O resultado não podia ser outro. Enquanto durou o bom tempo, a teia sustentou e nutriu a árvore. A mudança radical nas condições ‘atmosféricas’ escancarou a realidade: o labirinto de relações era superficial e carecia de coesão. Partidas e desconectadas, as raizinhas já não garantem sustentação à árvore.

O demiurgo, que muitos incensavam até pouco tempo atrás, periga vir abaixo por excesso de vento e escassez de apoio. E pensar que é justamente ele quem havia dito um dia que, quando deixasse a presidência, ia demonstrar que o mensalão nunca tinha existido e que o respectivo julgamento não passava de uma farsa. Houve quem acreditasse.

Chamada da Folha de São Paulo, 6 nov° 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 6 nov° 2015

Aos poucos, passo a passo, nosso guia é obrigado a recuar. Já não bravateia sobre o mensalão. Muito menos sobre o petrolão. Concluiu pacto fugaz para tentar tirar seus rebentos de situação embaraçosa. Fez mais: ao declarar que não teme a prisão, admitiu implicitamente a possibilidade de passar uma temporada atrás das grades.

Está aí mais uma vez comprovado ensinamento mais antigo que a bíblia. Quem tem o poder e o dinheiro costuma atrair legiões de “amigos” e de “aliados”. Depois de apeado do poder, babau!

O preceito é velho como o mundo, mas cada um tem de aprender por si mesmo.