Vacina para crianças

José Horta Manzano

Para futuros turistas que se preparam pra visitar determinados países ou regiões, recomenda-se tomar (ou exige-se que tomem) vacina contra doenças como tifo, febre amarela, raiva, hepatite A, poliomielite.

Para crianças, independentemente de qualquer viagem turística, a vacinação é obrigatória ou recomendada para proteger contra bom número de doenças: difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola.

Como se sabe, a vacinação dos pequerruchos é coisa corriqueira, sabida e aceita por todos. Não há mãe que deixe de levar seu filho ao médico ou ao posto de saúde pra ser imunizado.

Os mais antigos se lembram de um tempo em que essa proteção simplesmente não existia. Dá impressão de que vivemos hoje num mundo abençoado. Há quem diga que não passa de impressão. Mas essa é uma outra discussão.

Fico abismado – e meus leitores habituais sabem disso – com essa gente que recusa a vacina anticovid. Na Europa, espantosamente, são muitos. É verdade que, no Brasil, são poucos. Felizmente.

Fico boquiaberto com certos cidadãos de miolo mole, em geral apoiadores do capitão, que combatem a liberação da vacina anticovid para crianças. Como é que pode? Levam o filho para tomar vacina contra difteria, tétano, coqueluche, varíola, polio, hepatite B, pneumococos, sarampo, caxumba, rubéola, mas, na hora da vacina contra a maior pandemia que castigou a Terra nos últimos séculos, se afinam. Expõem os próprios filhos – e o resto da família – só pra obedecer à mente doentia do capitão. Não pode ser gente normal.

E tem mais. Não se está impondo nenhuma obrigação de vacinar crianças. O que se propõe é a autorização de vacinar. Ao fim e ao cabo, só vacinará seu filho quem quiser.

Vamos ver como está a situação além-fronteiras. Dia 25 de novembro, a Agência do Medicamento Europeia (que corresponde a nossa Anvisa) autorizou a vacina para crianças na faixa de 5 a 11 anos. Desde então, a Dinamarca e a Áustria já organizaram a campanha de vacina para os pequeninos. Na Alemanha, que é um país federal, como o Brasil, Berlim e a Baviera (Munique) já entraram para o time.

A Hungria – dirigida por Viktor Orbán, colega extremo-direitista de Bolsonaro – vai lançar sua campanha para a vacinação dos 5-11 anos quarta-feira. Na Grécia, os pais de 20 mil pequerruchos já inscreveram os rebentos para a picada, que também começa a partir de quarta-feira.

A Espanha, que está na categoria dos bons alunos no quesito vacinação, também já abriu sua campanha para vacinar os 5-11 anos. Portugal já planificou a imunização dos pequenos: começa esta semana e vai até 13 de março, os de 11 anos primeiro, e pouco a pouco baixando até chegar aos de 5 anos.

A Itália, a Lituânia, a Letônia, a Estônia, a Polônia (dirigida por colegas de Bolsonaro), a Eslováquia, a Tchéquia e a Suíça vão dar partida na campanha de vacinação infantil contra a covid estes próximos dias.

Enquanto isso, no Brasil… nosso respeitado capitão subiu a serra quando ficou sabendo que a Anvisa tinha conferido à criançada o direito de também ser imunizada contra a pandemia. Prometeu publicar, para execração pública, o nome dos diretores e funcionários que autorizaram “essa barbaridade”. O ministro da Saúde Pública, um sabujo interesseiro, repetiu como papagaio o discurso do presidente.

Destoando da covardia que os propósitos absurdos e cruéis de Bolsonaro costumam suscitar, a Anvisa soltou uma nota dura, indignada, inflexível.

Ai, que saudades do tempo em que nossos governantes se empenhavam em amparar os brasileiros, não em os assassinar.

O que se leva desta vida

Dr. Oswaldo Cruz e a vacina
charge de Arthur ‘Bambino’ Lucas (?-1929), desenhista carioca

 

José Horta Manzano

No começo do século 20, surtos frequentes de varíola assolavam o Rio de Janeiro. Embora a vacina antivariólica tivesse sido criada cem anos antes, o governo nunca havia organizado nenhuma campanha de imunização em massa. Em 1904, a Saúde Pública instituiu a vacinação obrigatória contra a varíola, fato que acendeu o estopim de uma rebelião popular que ficou conhecida como Revolta da Vacina.

É interessante notar que não foram as estatísticas de doentes que ficaram na história, mas a Revolta da Vacina. A varíola causou certamente mais sofrimento e perdas humanas do que a revolta, mas a história guardou o fato mais espetaculoso, aquele que botou mais medo que a doença.

Neste começo de século 21, os humanos estão tendo de encarar assalto de doença nova: a covid-19. Dado que o mal é recente demais, no ano passado ainda não havia nem vacina pronta pra ser usada.  Dezenas de laboratórios trabalharam com afinco e, para surpresa de todos, vários deles conseguiram oferecer imunizantes, menos de um ano depois da notificação do primeiro caso. Uma façanha!

O mundo se jogou em cima dessas novas vacinas. Israel, por exemplo, foi ainda mais rápido que os outros; contratou, recebeu, aplicou antes dos demais. Hoje está com quase todos os habitantes vacinados.

O Brasil de Bolsonaro desviou da rota do bom senso e seguiu em direção oposta. O presidente fez (e continua fazendo) campanha contra a vacinação. Sem se dar conta do mal que já causou e que continua a causar, não perde ocasião pra mostrar animosidade contra tudo o que possa limitar o alastramento da epidemia: máscaras, confinamento, distanciação social e, naturalmente, vacinas. Esta não presta porque é chinesa; aquela não compro porque não me ofereceram; aqueloutra nem pensar porque te transforma em jacaré. No fundo, a gente fica desconfiado que, na verdade, ele deve ter medo de injeção.

É difícil prever, especialmente o futuro – como diz o outro. Mas fazer previsões a longuíssimo prazo é moleza e não compromete; de qualquer maneira, quando chegar o tempo previsto, nenhum de nós vai mais estar aqui pra conferir. Então, vamos lá.

Daqui a cem anos, quando tivermos virado pó, os livros de história vão mencionar o turbulento período 2020-2021. Creio que o comportamento de Bolsonaro vai ser mais comentado do que a epidemia em si. A passagem do tempo vai escancarar cada vez mais a responsabilidade do doutor.

Assim como falamos hoje da Revolta da Vacina de 1904 mas esquecemos de contar as vítimas da varíola, nossos descendentes crucificarão Bolsonaro como o responsável pela ausência da vacina que teria estancado o morticínio.

Ele será um Joaquim Silvério dos Reis do século 21, o homem que traiu a confiança que nele haviam depositado os cidadãos. A história das nações está recheada de mitos que simbolizam tanto episódios gloriosos, quanto momentos execráveis. Bolsonaro vai entrar para a galeria de “mitos” brasileiros, a representar o papel de traidor dos ideais da nação. Será o símbolo de tudo o que o Brasil não quer.

Frase do dia — 278

«Em 1906, graças aos investimentos feitos em saneamento básico e saúde pública pelo governador Jorge Tibiriçá, que poderia dar aulas de modernidade a 9 entre 10 políticos brasileiros de hoje, São Paulo comemorou a extinção da febre amarela e da varíola na capital.

Agora, com apenas 13 anos de PT, aí estão São Paulo e o Brasil afundados na dengue, na chicungunha, na zika, na microcefalia e na síndrome de Guillain-Barré galopantes…»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em seu blogue Vespeiro.