Sexta-feira da Paixão

José Horta Manzano

As sextas-feiras santas da minha infância eram marcadas pelo som dos sinos das igrejas e pelo perfume das flores frescas que adornavam os altares. Naquela época, a cidade inteira parecia entrar em um estado de contemplação e respeito, enquanto procissões serpenteavam pelas ruas, estreitas e largas, de terra e pavimentadas.

Naquele tempo, todos aprendiam desde pequeninos a diferenciar entre o profano e o sagrado, dois elementos que, como água e óleo, não se podem misturar. Eu me lembro da sensação de reverência que pairava no ar, misturada com a expectativa do sábado de Aleluia, dia em que os maiorzinhos tinham direito a dar com pau num judas de trapo e farrapo, amarrado a um poste. A meninava vibrava e mandava brasa porque tinham todos aprendido que o boneco representava um homem mau que estava ali pagando seus “malfeitos”. E dá-lhe paulada!

Depois vinha o domingo de Páscoa, dia especial em que todos se lançavam um “–Boa Páscoa!”. Eu não entendia bem por que razão os adultos externavam votos de que o dia de festa fosse bom. Pois o dia era, necessariamente, bom! Era domingo, não havia aula e, além de tudo, ganhava-se ovo de chocolate, um acontecimento!

Chocolate, hoje em dia, é mais disponível. Encontra-se em cada esquina e tem preço abordável. Naquele tempo, na venda do Seu Manuel, disponível era só doce de batata doce. E maria-mole.

Nas inchadas metrópoles brasileiras atuais, será que ainda se veem passar procissões?

Não se fazem mais Sextas-Feiras Santas como antigamente

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, Sexta-Feira Santa era um dia especial. Ainda me lembro do vendedor de pão, aquele que passava todos os dias na porta de casa, com sua carrocinha puxada a burro, e que vendia um pão doce com sabor de infância. Pois ele dizia que trabalhava todos os dias do ano, com exceção de dois: o Dia de Natal e a Sexta-Feira “Maió”, que era o nome que ele dava à Sexta-Feira Santa.

Os tempos antigos eram cheios de “não-podes”. Na sexta-feira antes da Páscoa, o comércio baixava as portas. Nem entregador de pão trabalhava. Não se podia comer carne. Estações de rádio tocavam música clássica e cinemas passavam a Vida de Cristo. Baile, festa, dança? Nem pensar. Qualquer festinha, nem que fosse de aniversário de criança, ficava pro dia seguinte.

Hoje mudou, e muito. Fomos de um extremo a outro. Se antes quase nada podia, agora tudo pode. Palavrão, modo de expressão antes reservado para bate-papo entre bandidos, entrou para o dia a dia de todos – a começar pelo capitão e pelas excelências que o acolitam. Alguns acham isso natural, marca de espontaneidade. Eu continuo achando que é falta de educação e de respeito.

Bom, mas não vamos ser mais católicos que o papa. Rádio não toca mais música clássica. Cinemas (os poucos que restam) já não dão mais A Vida de Cristo. Aniversariante não precisa mais mudar o dia da festinha. Presidente fala palavrão – e como fala!

Então, com o perdão dos que ainda conservam um trisquinho de recato, aqui vão dois comentários bem-humorados sobre a bizarra compra de medicamentos pra atenuar os problemas de disfunção erétil de nossa (antes) vigorosa tropa.