Baile da saudade

José Horta Manzano

A charge
Achei genial a charge que saiu na Folha de hoje, obra do jovem desenhista João Montanaro (27 anos). É a imagem reproduzida acima.

A seita
Os obstinados que se mobilizam a um simples aceno de Bolsonaro estão mais para sectários (fiéis de uma seita) do que para partidários (companheiros de partido). A obediência absoluta demonstra isso. Partidos, especialmente no Brasil, não exigem fidelidade total de seus membros. Já uma seita só sobrevive da lealdade de seus adeptos.

Sem faixas
Me parece simples. Com receio de ser levado em cana por incitação à sedição, Bolsonaro pediu a seus fiéis que não trouxessem faixas. Resultado: ninguém veio com faixas. Isso expõe a devoção do distinto público a Seu Mestre, ou seja, ao super-homem que lhes dá ordens.

O Brasil já conheceu populistas que, a seu tempo, magnetizavam os fiéis. Getúlio Vargas talvez tenha sido o mais significativo deles. Assim mesmo, assisti a conversas animadas entre getulistas e ademaristas (de Adhemar de Barros) que não terminavam em tiro nem morto estendido no meio-fio.

A diferença é o que eu dizia antes: num caso, temos simpatizantes de um partido; no outro, são fiéis obedientes a um guru. Essa é a diferença entre os de antigamente e os de hoje. Daí a dificuldade de lidar com os ditos “bolsonaristas”.

No espírito de um “bolsonarista”, o chefe tem sempre razão. Não há discussão possível. Se mandou levar faixa, levo; se não mandou, não levo. Se ele diz que é um inocente perseguido por pessoas más, acredito.

Como argumentar? Não adianta nem tentar. Seria como tentar convencer um eleitor argentino de que o “peronismo” já faleceu faz meio século. Ele não concordará.

Resumindo
Isso foi o que mais me impressionou no ajuntamento de ontem: a ausência de faixas. Da meia dúzia de discursos, já se imaginava que não insultariam magistrados, mas do público era mais difícil. No final, vê-se que foi mais fácil adestrar os assistentes do que conter um dos ‘pastores’ discursantes, que chegou a cutucar autoridades superiores a ele.

Trocando em miúdos, temos uma continha de soma zero. Os ‘bolsonaristas’ deram mostras de quem são e do apreço que devotam ao guru. Continuam a apreciar o chefe. Quanto aos ‘não bolsonaristas’, continuam no seu canto, sem precisarem de chefe que lhes diga de que cor têm de se vestir. Os de lá não votam nos de cá e vice-versa. O desfile não fez ninguém mudar de campo. Zero a zero.

Quanto à Justiça, ah, são outros quinhentos! O tempo judicial é mais longo que o tempo do trio elétrico ex-presidencial. Daqui a uma semana, a algazarra suscitada pelo ajuntamento da Avenida Paulista terá sossegado. Mas os processos, implacáveis, continuarão a correr nos escaninhos do Supremo.

Não acredito que choro de Madame amoleça coração de magistrados.

PS
Esperemos que os juízes que vão julgar Bolsonaro não tenham interpretado essa movimentação como demonstração de força ou, pior, como afronta ou provocação. Juiz irritado tem a mão pesada.

Seita

José Horta Manzano

Não se assuste o distinto leitor com o palavrão que vem a seguir. É o nome de uma língua: o protoindo-europeu. Bem, não é exatamente uma língua no sentido que damos habitualmente a essa palavra – um falar homogêneo usado por um povo como meio de comunicação. É, antes, uma criação hipotética, uma reconstrução feita ‘de trás pra diante’. Num trabalho de paciência beneditina, a partir de palavras existentes em línguas modernas aparentadas, linguistas procuram encontrar o tronco, o ancestral comum. Palavra por palavra, vai-se recompondo a língua-mãe.

Pronto, não me estendo mais. Minha intenção não é ministrar curso de linguística. Só queria que ninguém ficasse assustado com o nome do antepassado longínquo. Quando se sabe o que é, o protoindo-europeu se torna manso feito coelhinho.

Supõe-se que a língua ancestral contasse com uma raiz *sekw-, responsável por extensa prole que aparece no latim e em boa parte das línguas europeias. Chegou ao latim como sequi – verbo que significa seguir, vir depois. Em nossa língua, uma baciada de termos provém do mesmo ancestral.

Uns mais, outros menos, todos conservam algum traço do sentido original: seguinte (o que vem depois), conseguir (ir atrás de), perseguir (ir atrás de), prosseguir (continuar seguindo), segundo (o que vem depois, o que se segue ao primeiro), sequência/consequência (o que vem em seguida), obséquio (ir atrás do que se supõe ser o desejo do outro), sequestrar (perseguir e apoderar-se do objeto da perseguição), executar (prosseguir até a realização), sócio (o que caminha junto, o que segue o outro).

Seita é fruto da mesma árvore. Nos tempos de antigamente, a palavra tinha significado neutro, isto é, não carregava julgamento de valor. Seita não diferia muito do sentido que damos hoje a partido, a entidade que congrega os seguidores de determinada ideia.

Ao longo dos séculos, a palavra assumiu valor claramente pejorativo. Hoje, sectários – os componentes de uma seita – são os que divergem frontalmente da doutrina majoritária e preferem seguir orientação de um guru político ou espiritual. São olhados pela maioria como se estivessem fora da lei.

É curioso notar que maiorias e minorias são instáveis, portanto, evoluem. Assim, os que são hoje vistos como sectários, por serem devotos de uma seita minoritária, podem se tornar majoritários amanhã. A partir daí, sectários serão os outros. E o mundo continua a girar.