Faltam palavras

José Horta Manzano

Como sabem todos os meus leitores, que são gente estudada, a Lua, nosso único satélite natural, gira em volta da Terra. Entre outras particularidades, esse interessante corpo celeste tem duas notáveis.

Com relação à Terra, é um satélite de tamanho fora das normas. De fato, nenhum dos planetas de nosso sistema solar possui um satélite de dimensões tão imponentes – com relação à massa do planeta. Se nossa Lua seguisse o padrão satelitar do sistema solar, nós a enxergaríamos como um pequeno ponto luminoso no céu noturno, pouco maior que uma estrela.

Outra particularidade da Lua é nos mostrar sempre a mesma face. Gira, gira, gira, passam os meses e os séculos, e sempre vemos o mesmo lado. Até cinquenta anos atrás, antes da era espacial, ninguém sabia como era o outro lado de nosso satélite. Agora todos sabem. Foguetes chineses estão até pousando do lado de lá.

É por isso que o lado que não se vê daqui se chama face oculta. Os encarregados das chamadas da Folha parecem ter fugido da aula de Geografia de dona Pasqualina. Chamam a face oculta de “lado afastado”.

Procure ensinar a expressão correta a seus filhos, netos, sobrinhos e outros rebentos, antes que eles cresçam sem palavras para descrever o mundo que os cerca. Triste, não?

Gaza: antes e depois

by Patrick Chappatte (1966-) desenhista suíço

José Horta Manzano

A trégua acertada entre Hamas e Israel durou pouco. Já desandou, cada parte atribuindo à outra a quebra do acordo e a retomada das hostilidades.

Aquele bombardeio contínuo, de dia e de noite, que as imagens nos mostram não é efeito especial de filme de guerra. É pra valer. A estimação é que 100.000 (cem mil !) prédios já tenham sido derrubados parcial ou inteiramente.

A britânica BBC publicou algumas fotos tiradas por satélite mostrando o antes e o depois em certas zonas da castigada Faixa de Gaza – território exíguo que abriga mais de dois milhões de pessoas, é bom ter em mente.

Achei bastante instrutivas as imagens em que se pode arrastar um marcador pra ver ANTES e DEPOIS dos bombardeios. Até as escassas plantações estão sendo devastadas.

Se as bombas parassem de cair hoje, anos se passariam até que as culturas fossem reconstituídas. Se já era o caso antes, hoje os gazeus dependem mais ainda da caridade de organizações estrangeiras, sob forma de ajuda alimentar.

Para ver as imagens de satélite, clique aqui.

O planeta à noite

José Horta Manzano

A NASA deu publicidade a imagens noturnas do planeta. As fotos foram tomadas a partir de um satélite, em 2016, e têm uma resolução nunca antes alcançada.

Aqui está a América do Sul. Os pontos mais iluminados indicam as grandes aglomerações.

2016 ‒ Visão noturna da América do Sul
Imagens: Joshua Stevens, Nasa
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E esta é a Europa.

2016 ‒ Visão noturna da Europa
Imagens: Joshua Stevens, Nasa
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Mais imagens podem ser visualizadas aqui.

Caixa preta

José Horta Manzano

Vivemos no século 21. Todo o mundo tem telefone no bolso. Com dois cliques, sem se levantar da cadeira, qualquer um pode ter acesso ao outro lado do planeta. Coisas de ficção científica, como conversas ao vivo com som e imagem, tornaram-se corriqueiras e estão ao alcance de qualquer um.

Liga-se a tevê e pronto: lá está uma emissora internacional mostrando, ao vivo, um incêndio no Bangladesh, uma inundação na Mongólia, um tumulto em Moscou, o enterro de um figurão africano.

Caixa preta

Caixa preta

Li ontem que um jovem americano sobrevive, há ano e meio, sem coração ‒ no sentido próprio. Enquanto não aparece um órgão compatível para transplante, o que lhe foi retirado vem sendo substituído por uma maquineta de 6kg acondicionada numa mochila que o moço carrega às costas. O rapaz se movimenta, anda, sai à rua, fala, pensa, vive vida quase normal.

Mister Obama sabe, em tempo real, o que se trama em gabinetes de governos estrangeiros importantes. Mister Cameron, Frau Merkel, Mister Xi Jinping e Господин Putin(*) também sabem.

O distinto leitor pode até conhecer o site que vou nomear. Se não for o caso, aqui vai a dica. Quando estiver à espera de um conhecido que está viajando de avião, o interessantíssimo site Flight Radar é de grande utilidade. Serve também como passatempo pra momentos de farniente. Com três cliques, aparece o mapa-múndi com todos os aviões que voam naquele momento. Em movimento e em tempo real, com zoom, identificação e roteiro de cada aparelho. Um assombro.

Faz um mês, um avião da companhia EgyptAir desapareceu dos radares quando sobrevoava o Mediterrâneo. Destroços evidenciam que o aparelho se precipitou no mar. A França deslocou navios da Marinha, dotados de sonares altamente sensíveis, para a região onde se supõe que o avião tenha despencado. Faz quatro semanas que buscam as caixas pretas que encerram dados técnicos do voo e gravação dos sons da cabine. Na realidade, a cor das caixas é laranja, o que não altera o problema.

Imagem do site Flight Radar clique para ampliar

Imagem do site Flight Radar
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Nada garante que os objetos sejam um dia encontrados. Ainda que localizados, não é certo que estejam em condições de revelar os segredos que contêm. Supondo que não se as localizem nunca, ficaremos sem saber o que aconteceu. Erro humano, ação deliberada, falha mecânica, atentado terrorista? É possível que nunca se venha a conhecer a verdade.

Tendo na mão um telefone conectado a um satélite, qualquer um pode ser localizado, ouvido e gravado ainda que se encontre em pleno Sahara. Como é possível que conversas e dados de voo não seja registrados em tempo real e dependam de um disco rígido inserido numa frágil caixinha de metal que pode terminar no fundo do mar?

Para não iniciados, como eu, é um espanto.

Interligne 18c

(*) Господин (= Gaspadín) é marca de respeito que os russos antepõem ao nome de alguém. Nos tempos da União Soviética, o uso foi suspenso. Todos passaram a tratar-se por Товарищ (= Tavárich), ou seja, ‘camarada’. Derrubado o Muro de Berlim, tudo voltou ao que era antes no quartel de Abrantes.