Efeito Bolsonaro

Cúpula do G7: foto de família em modo distanciamento social

José Horta Manzano

O status de “potência emergente” que o planeta atribuía ao Brasil até pouco anos atrás murchou feito pastel de vento depois da primeira mordida. A pandemia tem parte nisso, mas não é a única responsável. A danada afetou o mundo todo, não só nosso país. Se demos um passo atrás por causa dela, todos também deram. Portanto, empatou. Essa desculpa é furada. Atualmente, a grande diferença, o principal fator que alarga a distância entre nós e o mundo mundo civilizado tem nome: é Jair Bolsonaro.

Nossas instituições – Congresso, Forças Armadas, Poder Judiciário – vêm aceitando flacidamente o extravio presidencial, cada dia mais evidente. Por seu lado, o povo continua anestesiado, a discutir o número exato de motocicletas que participaram da última motociclata patrocinada pelo capitão. Fora de nossas fronteiras, em terras em que o peso de palavras e atos segue outra escala, a história é diferente.

Pouco divulgada no Brasil, teve lugar no fim de semana passado a cúpula anual do G7. Os grandes deste mundo se reuniram – presencialmente! –  de 11 a 13 de junho numa estância balneária do sul da Inglaterra. Pra se ter uma ideia da importância do encontro, note-se que é a primeira viagem de Joe Biden ao exterior desde que assumiu a Presidência.

A última cúpula do G7 realizada em caráter presencial tinha sido a de Biarritz (França), em agosto de 2019. Na ocasião, a zombaria que Bolsonaro acabava de fazer com relação à aparência física da primeira-dama francesa tinha sido posta à mesa pelo presidente Macron e abundantemente comentada pelos participantes estupefatos.

Tradicionalmente, nas cúpulas do G7, o anfitrião tem o direito de convidar dirigentes de outros países, que vêm na qualidade de observadores. Nesta edição, Boris Johnson, o dono da casa, resolveu convidar a Índia, a África do Sul, a Coreia do Sul e a Austrália. Honrados, todos aceitaram o convite. O distinto leitor há de ter reparado que, à exceção da China e da Rússia, que não são considerados países democráticos, o Brics inteiro foi chamado pra fazer a festa. Faltou o Brasil. É que, graças ao trabalho incansável do capitão, nosso país passou a fazer parte dos empestados, aqueles que ninguém quer ver por perto.

Tem avançado a ideia de reformar o G7 e transformá-lo no D10, um clube com as dez principais democracias. Índia, Coreia do Sul e até Austrália são cotados para entrar na agremiação. Nosso país, apesar de ter peso econômico maior do que os futuros integrantes, não aparece entre eles. De fato, não passaria pela cabeça dos integrantes do G7 convidar o Brasil de Bolsonaro. Quando se sabe que um país pode causar dor de cabeça, ele é posto na geladeira. Ninguém abre a porta de casa para sujeito encrenqueiro.

Como se sabe, nosso país não é uma ilha nem está situado no planeta Marte. Estamos com os pés fincados na velha e boa Terra, e daqui não há meio de sair. Os vizinhos que temos – próximos e distantes – são o que são, não temos escolha. São eles que compram o que produzimos em excesso; é deles que compramos aquilo que não colhemos nem produzimos. Não somos autossuficientes, sequer em produção de alimentos. Portanto, não é possível dar uma banana pro mundo, como faz nosso capitão, e esperar que, em troca, nos mandem beijinhos. Amor, com amor se paga.

Reparem que, com Bolsonaro no poder, já começamos a ser discriminados. As portas fechadas do D10 são apenas um aperitivo, uma amostra das sanções que nos esperam. São só o comecinho.

A insensatez

José Horta Manzano

As palavras têm peso. Quanto mais elevada for a posição de quem as exprime, maior será o impacto do que disser. Nem todos os dirigentes se dão conta disso.

Muito tempo atrás, o mundo era dividido entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos. O Brasil se situava entre estes últimos. Um dia, já faz uns 40 anos, chegou-se à conclusão de que a expressão subdesenvolvido era pesada e infamante. Foi substituída por em desenvolvimento. Na prática, nada mudou: nosso país continuou na mesma categoria.

Mais recentemente, firmou-se a convicção de que uma meia dúzia de países subdesenvolvidos ― oops, em desenvolvimento ― pesavam mais que os outros. Foi-lhes atribuído outro epíteto. Passaram à categoria de potências emergentes. Entre os promovidos, ainda que fosse pela macicez de sua população, figura o Brasil.

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Um avião de linha caiu ontem na Ucrânia. Despencou justamente numa zona conflagrada, nos confins do país, a poucos quilômetros da fronteira com a Rússia. Segundo especialistas, é forte a probabilidade de que o aparelho ― que explodiu em voo ― tenha sido vítima de míssil terra-ar.

Cada um tem seu palpite sobre o que possa ter ocorrido: erro, distração, ataque proposital. Uns acham que o exército ucraniano possa ter disparado o foguete mortífero. Outros garantem que isso só pode ser obra dos insurgentes ucranianos pró-russos. Ainda há quem veja o dedo de Moscou por detrás do desastre.

Dificilmente saberemos nós, meros mortais, o que realmente aconteceu. Ainda que se descubra ― ou já se saiba ― como foi, é pouquíssimo provável que a verdade seja um dia revelada à larga.

Os grandes deste mundo já se pronunciaram sobre o acidente. Barack Obama, François Hollande, Angela Merkel & companhia se limitaram, como manda o figurino, a declarações de pesar e a condolências dirigidas à família das vítimas.

Nossa presidente não se esquivou. Afirmou que o governo brasileiro não deverá se manifestar sobre a queda do avião. Manifestar-se para dizer que não vai se manifestar já é, em sim, incongruente. É como aquele sujeito que bate à sua porta para dizer que hoje não vai poder vir. Mas dona Dilma foi mais longe.

Dilma Rousseff & Vladimir Putin

Dilma Rousseff & Vladimir Putin

Esquecendo-se de que a expressão «potência emergente» inclui a ideia de «potência», soltou palavras pra lá de desconcertantes. Além de manifestar-se para dizer que não ia se manifestar, acrescentou que, segundo órgãos da imprensa, «o avião derrubado estava na rota da volta do presidente Putin. Hora e percurso coincidiam. O míssil seria, então, dirigido ao avião presidencial».

É raro que um chefe de Estado se arrisque tanto em situação tão incerta. Incapaz de liberar-se de seu complexo de vira-lata, a chefe do Brasil-potência não se deu conta de que sua fala é analisada com atenção em chancelarias estrangeiras e jogou pesado. Insinuou que inimigos do senhor Putin estariam por detrás do atentado. Naquela região, de inimigos, o senhor Putin tem um só: o governo constituído da Ucrânia, eleito há poucos meses.

A ousadia de quem soprou essa extravagante mensagem a nossa incauta presidente nos põe numa saia pra lá de apertada. A chefe do Estado brasileiro ― voz oficial da nação! ― acusa, por meio de um circunlóquio, que Kiev tentou assassinar o presidente da Rússia.

Essa desajuizada declaração é um desastre diplomático. Demonstra mais uma vez, se ainda fosse necessário, que a cúpula instalada do Planalto não leva jeito para dirigir nosso País.

Mais dia, menos dia, russos, ucranianos pró-russos e ucranianos antirrussos vão acabar se entendendo. A conflagração vai logo ser coisa do passado, que não interessa a ninguém que se eternize. Feitas as pazes entre os beligerantes, sobrarão três grandes vítimas do evento.

A primeira, naturalmente, são os que viajavam dentro do aparelho derrubado. Vítimas inocentes que ― e é isso que nos consola ― devem ter expirado na hora, sem tempo de se dar conta do que acontecia.

A segunda vítima deverá ser a companhia aérea malaia. Tendo em conta que um de seus aviões já desapareceu misteriosamente quatro meses atrás, este novo golpe periga ser fatal para a empresa.

A terceira vítima, por obra e graça de nossos preclaros dirigentes, será a relação entre o Brasil e a Ucrânia. E tudo por causa de palavras levianas pronunciadas ― sem a menor necessidade ― por nossa presidente. Quanta insensatez!