O homem da continência

John Bolton

José Horta Manzano

Na manhã do dia 29 de novembro de 2018, já eleito mas ainda não empossado, Bolsonaro recebeu em sua casa do Rio de Janeiro um emissário do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O visitante era um senhor de cabelo e bigode brancos chamado John Bolton, assessor de Segurança Nacional nomeado por Trump.

Assim que Mr. Bolton apontou no portão do jardim, um entusiasmado capitão, empertigado na soleira da porta de casa, bateu continência ao visitante(!), aquela saudação que um militar deve obrigatoriamente fazer diante de outro militar de grau mais elevado que o seu.

O primeiro a se surpreender com o gesto deve ter sido o próprio americano, desacostumado a ver as regras militares tratadas com leviandade, mas a mídia brasileira tampouco deixou passar em branco. Os comentários foram de espanto com a atitude do novo presidente do Brasil que, assim, deixou clara sua postura de curvar-se diante dos EUA, representados ali pelo emissário. Pegou supermal.

Nem o suco de caixinha e o pão com leite condensado servidos naquele petit-déjeûner em honra ao hóspede tresnoitado foram capazes de atenuar a sombra de mal-estar que pairava no ambiente. Mr. Bolton entregou a Bolsonaro o convite que Donald Trump lhe fazia para visitar os Estados Unidos.

Os anos passaram, Trump perdeu a reeleição, Bolsonaro terminou seu governo calamitoso e também perdeu a reeleição. Agora, depois de quatro anos atravessando o deserto, Donald Trump conseguiu ser de novo eleito para a presidência. Nas 24 horas que se seguiram à tomada de posse, despejou um balde de decretos carregados de ressentimento, raiva, perseguições, intolerância. Desfez medidas que seu antecessor havia implementado. Atirou a torto e a direito.

Um dos projéteis atingiu John Bolton, seu antigo assessor de Segurança Nacional, aquele que havia sido homenageado com a continência de Bolsonaro. O homem aparentemente caiu em desgraça, não se sabe exatamente por que razão.

O que se sabe é o seguinte. Em 2021, o presidente Joe Biden tinha concedido a Mr. Bolton proteção permanente do Serviço Secreto em razão de ameaças de morte proferidas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Pois ao voltar à presidência esta semana, Trump revogou a proteção policial permanente dada a Mr. Bolton. Supõe-se que tenha feito isso por capricho, só para desfazer o que Biden tinha feito. Veja em que mãos está o governo dos EUA!

Bem, Bolsonaro que se cuide. Assim como ele mesmo faz com seu costume de abandonar amigos e correligionários feridos pelo caminho, Trump leva jeito de fazer igual.

Trump aprecia ganhadores, vencedores, os que ele chama de “winners”. Um Bolsonaro no Planalto podia até interessar Trump, mas um Bolsonaro na rua da amargura, cheio de processos e ameaçado de cadeia, periga ser atirado ao mar para alegria de tubarões e camarões.

E o barco segue.

Barriga vazia

José Horta Manzano

O governo francês acaba de descobrir duas verdades. Embora evidentes para os brasileiros, eram fatos desconsiderados, pelo menos até aqui, pelas autoridades de Paris. A primeira verdade revela que, muitas vezes, criança de família pobre chega à escola de manhã de barriga vazia. A segunda, incontestável, diz que a fome é inimiga do bom aprendizado.

Apesar de serem, pela média estatística, mais ricos que os demais, os países do Primeiro Mundo também têm bolsões de pobreza. A rigor, as pessoas de baixa renda estão concentradas em determinados municípios ou bairros afastados e esquecidos pelo poder público. Aluguéis mais abordáveis são a principal razão de essas pessoas viverem nesses lugares. É justamente nessas regiões que alguns aluninhos chegam à escola de barriga roncando.

O ministro francês da Educação anuncia que um café da manhã gratuito deverá ser oferecido aos pequenos da escola elementar. Por enquanto, o experimento se fará a título facultativo. Fica a critério do prefeito de cada município. Os que quiserem tentar a experiência podem solicitar ajuda financeira do governo central.

Para nós, a medida parece tão evidente que nem vale a pena discutir. Na França, no entanto, a polêmica é esporte nacional. Discute-se sobre tudo, e cada um faz questão de dar opinião. Assim que foi anunciada a proposta do governo, surgiram vozes discordantes. Há quem diga que alimentar crianças não é papel da escola. É verdade, mas… fazer o quê? Esperar pra ver como evolui o mundo enquanto barriguinhas roncam?

Há também quem argumente que a medida vai agir como estigma. As crianças que tomarem café na escola estarão passando atestado de pobreza. Os alunos ou vão desfilar na ala dos abastados ou na dos miseráveis. É até capaz de algum pai proibir o filho de tomar café na escola só pra não descobrirem que a família está passando por um aperto. O argumento tem lá seus fundamentos. Caberá à escola inventar um modo de contornar o problema. Talvez instituindo um cardápio tão inventivo que nenhuma criança consiga resistir.

Há ainda outros argumentos contra a medida:

  • «Que cada município use seu dinheiro pra cuidar dos próprios pobres. Por que é que eu tenho de financiar café da manhã com meus impostos?»
  • «Os pais é que deviam ser penalizados por não darem de comer aos próprios filhos.»
  • «Isso é coisa de estrangeiros. Franceses de raiz não deixam os filhos passar fome.»
  • «Crianças que já comeram em casa vão querer acompanhar os outros e vão acabar tomando café pela segunda vez. Isso é incentivo à obesidade.»

O número de opiniões empata com o número de habitantes do país.

A mim, parece uma resolução de bom senso. Podem-se discutir os detalhes, mas o acerto da medida é indiscutível. Vamos ver como evolui a ideia. É bom que venha novo debate nacional, que o país está precisando. Essa insistência dos «Coletes Amarelos» de infernizar a existência já deve estar dando nos nervos da população. É hora de mudar de estação.