Assombro na porta da Colombo

Álvaro Costa e Silva (*)

Youtubers, influencers e humoristas de direita, com milhões de seguidores nas redes sociais, sequer imaginam a popularidade de que desfrutou Olavo Bilac. Em plena belle époque carioca, uma multidinha se formava em frente à Confeitaria Colombo só para ver o Príncipe dos Poetas que, no auge dos 30 anos, era uma espécie de monumento da nação. Seus poemas eram devorados e decorados pelos leitores.

Como todo príncipe e todo monumento, caprichava na pose. Seu nome completo era um alexandrino: Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac. De elegante perfil parnasiano, postava-se de monóculo para disfarçar o estrabismo. Também era prognata (o popular chove-dentro) e torcedor do Botafogo, mas moçoilas, madames e marmanjos não ligavam. Afinal, ele era capaz de ouvir e entender as estrelas.

Confeitaria Colombo, Rio de Janeiro

Com o tempo e o estigma (atribuído pelos modernistas) de poeta jocoso, tornou-se sinônimo de formalismo e alienação. Uma injustiça que se reflete hoje: nada se fez para lembrar o centenário de sua morte ocorrida em dezembro de 1918. O Bilac maduro se envolveu em campanhas patrióticas, entre as quais a luta pelo serviço militar obrigatório (mas isso, nos tempos atuais, seria caso para homenagem, não?).

Acusaram-no de indiferença ao cotidiano dos brasileiros. Besteira. Substituindo Machado de Assis, foi cronista semanal da Gazeta de Notícias de 1897 a 1908. Escreveu sobre Canudos e detalhou o processo de modernização do Rio. Não se pode entender aquele período sem ler Bilac que, como jornalista, envelheceu melhor do que como poeta.

Numa crônica de 1901, em que tratou do uso das imagens na imprensa, antecipou a televisão e ‒ incrível ‒ as redes sociais: “Qual de vós, irmãos, não escreve todos os dias quatro ou cinco tolices que desejariam ver apagadas ou extintas? Mas, ai! De todos nós! Não há morte para as nossas tolices!”. De pince-nez, Bilac iria arrasar como youtuber.

(*) Álvaro Costa e Silva (1962-) é jornalista e escritor.

O lábaro estrelado

José Horta Manzano

Mais de uma vez já escrevi, aqui neste espaço, sobre o hino brasileiro. Nosso cântico nacional é coisa fina. Já disse e repito: num concurso internacional, a música do nosso poderia até empatar com a da Marselhesa, mas a letra faria a diferença. Enquanto o canto francês incita os cidadãos a fazer jorrar sobre suas plantações o sangue impuro dos inimigos da nação (arrgh!), o nosso é mais conciliante e aprazível. Dependesse do hino, o Brasil seria campeão eterno.

A Folha de São Paulo de 28 jun° 2014 publica matéria sobre a dificuldade que crianças enfrentam para entender as palavras do hino brasileiro. Atribui o problema ao fato de a letra ter sido escrita mais de cem anos atrás, com expressões da época hoje caídas em desuso. A história é um pouco diferente.

No início do século XX, Osório Duque Estrada teceu palavras que se encaixaram direitinho na melodia composta um século antes por Francisco Manuel da Silva. Não é qualquer escritor ou letrista que consegue enfiar letra em melodia já feita. Cobrir de redondilhas uma melodia não é pra qualquer um. Precisa ser bambambã ― e nem todos têm o talento de um Chico Buarque.

Duque Estrada até que se saiu muito bem. Suas palavras não correspondem a «expressões da época», como imaginam alguns, mas refletem o preciosismo parnasiano em voga naqueles tempos, artificialidade familiar para os que já fizeram alguma incursão pela obra de Olavo Bilac ou Vicente de Carvalho.

A Lei da Palmada não há de melhorar as coisas Fonte: FolhaPress

A Lei da Palmada não há de melhorar as coisas…
Fonte: FolhaPress

Gente comum jamais chamou bandeira de lábaro nem de flâmula. Adjetivos como fúlgido, vívido e garrido nunca passearam pela boca do povo. São palavras desde sempre reservadas para uso dominical, daquelas que descansam na gaveta o resto da semana.

Outra particularidade da letra de nosso hino, do ponto de vista gramatical, é a quebra quase sistemática da ordem direta. O sujeito nem sempre é aquele que parece. Mas não tem jeito: o hino é esse aí. Contra fatos, não há argumentos. A vida não é feita só de facilidades.

Caderno escolar com Hino na 4a. capa

Caderno escolar
com Hino na 4a. capa

O aprendizado da letra deve ser parte do currículo da escola elementar. Naturalmente, estou partindo do princípio que professores primários sejam capazes de destrinchar frases sofisticadas e pô-las na ordem direta. Torço para que assim seja. A construção sinuosa de certas estrofes serve de excelente exercício nas aulas de análise sintática.

Nos tempos recuados em que escola ensinava e aluno aprendia, cadernos costumavam trazer, na quarta capa, a letra completa do hino. Não sei se a gente aprendia por osmose ou pela insistência. Seja como for, todo guri conhecia as palavras. E de cor, faz favor!

Espero que ainda seja assim. As crianças de hoje não são menos inteligentes que as de antigamente. Se forem bem guiadas, guardarão de memória ― e correta! ― a letra do hino, assim como guardaram a Ave-Maria ou Batatinha quando nasce.

Já houve quem ousasse ― com o beneplácito de autoridades encarregadas de zelar pela Instrução Pública ― reescrever Machado de Assis à atenção de semiletrados. Se bobear, qualquer dia aparece aí um gaiato com uma adaptação do Hino Brasileiro para mentes embotadas. Periga ser reconhecido, aplaudido e incentivado pelas otoridades” competentes. E remunerado com nosso dinheiro.

Anúncio

Osvaldo Molles (*)

Por motivo de mudança de ideias, vende-se uma gaiola que, por sentimentalismo, está presa a um sabiá-laranjeira. A gaiola mede 30 de frente por 10 de fundo e o sabiá não se deixou medir, por inquieto e indócil.

Convém explicar que o sabiá é próprio para quem gosta de colecionar auroras. Porque assim que «Febo rompe na abóbada celeste», como diria Coelho Neto, começa a derramar um bel canto que enche tudo o que for vazio e silencioso.

Se o senhor está dentro de casa e não sabe, ao certo, se o sol está nascendo, pode confiar no sabiá. Se ele estiver cantando em pizzicato, é ter logo a certeza de que é dia e há sol.

Também ao crepúsculo, ele solta prantos cantarinos. Até parece que leu Bilac e anda repetindo os mesmos versos da página 137: «não quero o teu alpiste, gosto mais do alimento que procuro na mata livre em que a voar me viste…». Mas o fato é que ele quer alpiste e bica o cocho com tal ímpeto que parece estar bicando todo o regime presidiário do mundo.

Entretanto, convém avisar ao possível comprador que o sabiá tem seus dias de spleen. E, por vezes, passa uma semana sem cantar, só meditando. Eu sei lá o que é que ele medita!…

Sabiá-laranjeira Turdus rufiventris

Sabiá-laranjeira
Turdus rufiventris

Decerto sonha com a bicicleta motorizada e azul em que ele possa ganhar a porta, a rua, a liberdade, o campo. Se ele não cantar durante sete dias, não vá comer o sabiá. Deixe que o temperamental tenor se desenoje e, quando o domingo próximo romper, possa de novo encher a vida da casa com seus gorjeios de cantador do sertão.

Mas note. Apesar de ser do sertão, ele detesta viola, violão e instrumentos tais. Se quer ver como ele canta, não é tocar piano, nem pistão. É abrir a torneira e fazer com que ele acompanhe o solo da água cantadeira que vai dando saudade da «fonte a cantar chuá, chuá…».

Por uma questão de honradez, devemos informar que a gaiola, ao contrário dos outros imóveis em moda, não se valoriza. Mas o sabiá valoriza qualquer manhã, principalmente porque será em sua casa um último ― mas eloquente ― traço de união entre sua alma e o silêncio repousante da floresta.

Compre este sabiá, senhor, e tenha em sua casa uma bula contra o desassossego do asfalto. E é a primeira bula que canta…

Interligne 23

(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.

O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C ― Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.

Àqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre Osvaldo Molles, recomendo uma visitinha ao site Cifrantiga. Aqui.