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Osvaldo Molles (*)

Por motivo de mudança de ideias, vende-se uma gaiola que, por sentimentalismo, está presa a um sabiá-laranjeira. A gaiola mede 30 de frente por 10 de fundo e o sabiá não se deixou medir, por inquieto e indócil.

Convém explicar que o sabiá é próprio para quem gosta de colecionar auroras. Porque assim que «Febo rompe na abóbada celeste», como diria Coelho Neto, começa a derramar um bel canto que enche tudo o que for vazio e silencioso.

Se o senhor está dentro de casa e não sabe, ao certo, se o sol está nascendo, pode confiar no sabiá. Se ele estiver cantando em pizzicato, é ter logo a certeza de que é dia e há sol.

Também ao crepúsculo, ele solta prantos cantarinos. Até parece que leu Bilac e anda repetindo os mesmos versos da página 137: «não quero o teu alpiste, gosto mais do alimento que procuro na mata livre em que a voar me viste…». Mas o fato é que ele quer alpiste e bica o cocho com tal ímpeto que parece estar bicando todo o regime presidiário do mundo.

Entretanto, convém avisar ao possível comprador que o sabiá tem seus dias de spleen. E, por vezes, passa uma semana sem cantar, só meditando. Eu sei lá o que é que ele medita!…

Sabiá-laranjeira Turdus rufiventris

Sabiá-laranjeira
Turdus rufiventris

Decerto sonha com a bicicleta motorizada e azul em que ele possa ganhar a porta, a rua, a liberdade, o campo. Se ele não cantar durante sete dias, não vá comer o sabiá. Deixe que o temperamental tenor se desenoje e, quando o domingo próximo romper, possa de novo encher a vida da casa com seus gorjeios de cantador do sertão.

Mas note. Apesar de ser do sertão, ele detesta viola, violão e instrumentos tais. Se quer ver como ele canta, não é tocar piano, nem pistão. É abrir a torneira e fazer com que ele acompanhe o solo da água cantadeira que vai dando saudade da «fonte a cantar chuá, chuá…».

Por uma questão de honradez, devemos informar que a gaiola, ao contrário dos outros imóveis em moda, não se valoriza. Mas o sabiá valoriza qualquer manhã, principalmente porque será em sua casa um último ― mas eloquente ― traço de união entre sua alma e o silêncio repousante da floresta.

Compre este sabiá, senhor, e tenha em sua casa uma bula contra o desassossego do asfalto. E é a primeira bula que canta…

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(*) Osvaldo Molles (1913-1967) era paulista de Santos. Seu percurso foi eclético. Deixou rastro como escritor, romancista, contista, cronista, jornalista, radialista, compositor, letrista, roteirista. Soube captar, com olhar lírico, a alma da gente simples de seu tempo. Foi parceiro e amigo de Adoniran Barbosa, com quem compartilha a autoria de Tiro ao Álvaro (1960), gravada pelos Demônios da Garoa e por Elis Regina.

O conto aqui transcrito foi publicado no livro Piquenique Classe C ― Crônicas e flagrantes de São Paulo, lançado em 1962 pela Boa Leitura Editora. A obra, com 63 crônicas, traz ilustrações de Clóvis Graciano e prefácio de Hermínio Sacchetta. Reúne textos esparsos que o autor havia publicado em meia dúzia de periódicos, entre eles a Folha de São Paulo, a revista Manchete, o jornal Diário da Noite.

Àqueles que quiserem conhecer um pouco mais sobre Osvaldo Molles, recomendo uma visitinha ao site Cifrantiga. Aqui.

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