Vale tudo

Cabeçalho 7José Horta Manzano

Dancing daysOs mais maduros hão de se lembrar dos tempos em que novelas como O Direito de Nascer, Pecado Capital ou Dancing Days eletrizavam o país e prendiam o povo em casa. Ninguém perdia um capítulo.

Em 1988, justamente na época das festas de Natal, falava-se menos em Papai Noel e muito mais no desenlace da novela Vale Tudo. Em conversas de elevador, de corredor e de botequim, a pergunta era sempre a mesma: quem matou Odete Reutemann?

Pecado capitalComo vivo fora e só vejo o Brasil de longe, desconheço qual seja a novela do momento. Ignoro se é boa e cativante como algumas do passado. No entanto, tenho certeza de que, por mais palpitante que seja, está sofrendo concorrência pesada.

Não, não me refiro a eventual programa cultural proposto por outro canal no mesmo horário ‒ antes fosse. Estou pensando no pipocar de notícias bizarras. Estes últimos anos, casos políticos tem-se transformado, com indesejável frequência, em casos de polícia. De dois dias pra cá, a colheita de notícias espantosas já dá pra compor um buquê. Veja só.

Interligne vertical 16 3KeO Supremo, em sessão solene, dá anuência para que o presidente da Câmara seja investigado como réu da Lava a Jato. Será o primeiro réu da operação a responder diretamente à corte maior.

A Justiça francesa informa que Paulo Maluf ‒ interventor no Estado de São Paulo na última ditadura ‒ foi condenado, à revelia, a três anos de prisão em regime fechado, a confiscação de 1,8 milhão de euros e a multa de 1,5 milhão de euros. A condenação é extensiva à esposa e ao filho.

A OAS, empreiteira gigante, admite o que negara até o dia anterior: financiou ilegalmente a campanha eleitoral de dona Dilma. Com vista a fugir à prisão, seu ex-presidente já está de caneta na mão para assinar acordo de delação.

O ministro da Justiça, considerado demasiado benevolente, é demitido e substituído por um promotor de quem o Planalto espera maior disposição para “controlar” a Polícia Federal.

Jesus, Maria, Josef! ‒ como se exclamam os vienenses quando o espanto é grande. O panorama político atual merece, mais que a velha novela, o título Vale Tudo. A pergunta agora é: quantos capítulos ainda faltam para Odete Reutemann sair de cena?

Cachaça não é água

Sebastião Nery (*)

Lula caricatura 2O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Em 1978, o prefeito Walmor de Luca, líder estudantil, deputado federal eleito no levante eleitoral do MDB em 1974, realizou um seminário trabalhista nacional com destacadas lideranças sindicais e com os políticos que se reorganizavam lutando pela anistia.

Lula estava lá. E também Olívio Dutra, o bigodudo gaúcho, bancário do Rio Grande do Sul, depois prefeito de Porto Alegre e governador do Estado. E também Jacó Bittar, petroleiro de São Paulo, e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.

Desde a primeira assembleia, um assunto centralizou os debates: o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos já funcionando ou outros a nascerem?

Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Discutimos dois dias. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas (José Talarico, a brilhante advogada Rosa Cardoso, o exemplar João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido liderado pelo incansável Brizola, que deixara o exílio no Uruguai e, em Portugal, articulava sua volta.

Copo d'água 2Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados que Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? No último dia, vimos Lula já quase mudando de posição. Afinal, em 10 de fevereiro de 1980, nasceria o PT, marco da história política brasileira.

Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.

Lembro-me bem de que lá em Criciúma, já rouco de falar, Lula pediu:

‒ Me dá minha água.

Veio uma garrafinha de água bem branquinha. Aquela “minha água” me chamou a atenção. Joguei um gole no meu copo. Era cachaça e da boa.

Lula continua o mesmo. Sempre misturando cachaça com água.

Casa 1Minha casa, minha vida
Lula é um passarinho do céu, como aqueles da Bíblia, que não fiam nem tecem. A casa de São Bernardo não é dele mas é nela que ele mora. O sítio de Atibaia não é dele mas é nele que ele passa os fins de semana e pesca. O triplex do Guarujá não é de ninguém mas quem pôs o elevador lá foi ele, quem fez a churrasqueira foi ele, quem construiu as suítes foi ele, quem toma os porres lá é ele, quem paga… quem paga tudo… ah, quem paga tudo é a madrinha Odebrecht, a titia OAS, o vovô Teixeira.

(*) Sebastião Nery, jornalista, é editor do site SebastiãoNery.com.