Infância e celular

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 24 junho 2023

Uma cidadezinha irlandesa chamada Greystones, situada não longe de Dublin, foi recentemente palco de uma decisão conjunta entre prefeito, vereadores e pais de alunos. De comum acordo, resolveram proibir o uso de celular para crianças antes da escola secundária. Isso significa que, antes dos 12 – 13 anos, nenhum aluno escolarizado no município terá acesso ao aparelho. Não há penalidade prevista, visto que o cumprimento da resolução será de responsabilidade dos próprios pais.

Entre os objetivos principais, está a proteção dos pequeninos que sofrem atos de humilhação (bullying) provocados por alunos maiores ou mais fortes. Esse acosso, como se sabe, é amplificado pelo uso das redes sociais e pode chegar a perturbar gravemente a saúde mental das pequenas vítimas. Com a proibição de celular, esse problema diminui drasticamente. De quebra, fica também banido o acesso dos mais jovens a redes do tipo TikTok, que os enfeitiçam e os tranformam em robôs. As autoridades irlandesas estão propensas a adotar a medida de Greystones como política nacional.

Neste mês em que Paradas LGBT são organizadas mundo afora, o instituto Ipsos anunciou os resultados de uma pesquisa sobre o tema. É bom lembrar que Ipsos é o terceiro maior instituto de pesquisa de mercado do mundo, com 18 mil funcionários e presença em 90 países.

Para essa análise, mais de 22 mil entrevistas foram feitas em 30 países incluindo o Brasil. O objetivo era apurar a visibilidade dos integrantes da comunidade LGBT em cada país individualmente, assim como seus índices de aceitação (ou rejeição) nas diferentes sociedades. O relatório final traz muitas informações interessantes, algumas já esperadas, outras surpreendentes.

Uma constatação é curiosa: o Brasil é o campeão da sinceridade. À pergunta “Em qual das seguintes categorias você se encaixa”, seguida de diversas opções não hétero (homossexual, bissexual, pansexual, omnissexual, assexual), 15% dos brasileiros entrevistados declararam se encaixar em categoria não hétero e não cis. Nenhum outro país tem tanta gente que se autodeclara nessa categoria. Na França, são 10% da população e na Argentina, 8%. Na Polônia são 6% e no Peru apenas 4% dos habitantes.

Essa disparidade entre países deixa uma interrogação no ar. Pessoalmente, não acredito que possa haver tanta diferença, com um Brasil que conta com três vezes mais LGBTs que um Peru, um Japão ou uma Polônia. Não vejo por que razão seriam tantos aqui (ou tão poucos lá). Acredito que boa parte da discrepância deva ser posta na maior ou menor dificuldade que os nativos de cada povo sentem na hora de revelar a própria sexualidade. É possível que no Brasil, apesar dos pesares, nos sintamos menos reprimidos, logo, mais despachados.

Uma constatação é, no mínimo, inquietante. O estudo ventila o total de indivíduos autodeclarados LGBTs e os classifica por faixa etária. O quadro mostra que 4% dos Baby Boomers (nascidos entre 1948 e 1964) estão na categoria LGBT. Na Geração X (1965-1980), há 6% de LGBT. Nos Millennials (1981-1996), são 10%. Finalmente, entre os jovens da Geração Z (1997+), espantosos 18% se declaram LGBT.

Não sei para você, mas para mim parece discrepância exagerada. O estudo informa que há, entre os menores de 25 anos, quase 5 vezes mais LGBTs que entre os mais velhos. A divergência é tão grande que faz supor efeito tribal fomentado por veículos tais como TikTok & semelhantes. A pré-adolescência é idade complicada, em que a personalidade está se construindo. Os muito jovens não estão necessariamente preparados para resistir ao canto da sereia.

Talvez fosse boa ideia acompanhar com atenção a aplicação da política irlandesa e cogitar sua eventual implementação em nosso território. É verdade qie o brasileiro é por natureza indisciplinado e propenso a burlar regulamentos. Assim mesmo, não custa tentar. A proibição geral, no fundo, ajuda os pais, que deixam de ser aqueles “chatos” que negam celular ao filho. A desculpa é incontornável: “Não posso te dar. É a lei!”.

Que tal adotar a ideia irlandesa para preservar a evolução mental de nossa criançada?

Mesquinho

José Horta Manzano

«Cancelei, desde o ano passado, todas as assinaturas de jornais e revistas. Ministro que quiser ler jornal e revista vai ter que comprar.»

Essa frase, pronunciada esta semana por doutor Bolsonaro, evidencia mais um aspecto maligno do caráter dele: a mesquinharia. Em repetidas ocasiões, nosso mito tem reafirmado seu agarramento a picuinhas, a revides, a pequenas vinganças.

Se essas birras obstinadas são atributos comuns na adolescência, sua persistência num adulto denota um distúrbio de personalidade. É de crer que nosso presidente teve infância infeliz.

Sabe-se que o presidente tem medo da imprensa, razão pela qual foge de jornais e revistas.

A pequena vingança simbolizada pela suspensão de jornais e revistas no Planalto faz lembrar a história do Joãozinho. Era aquele garoto que ia à rua com a bola (no tempo em que se podia jogar bola na rua) para uma pelada com a garotada. Tudo ia bem até o momento em que Joãozinho, por uma razão qualquer, embirrava. Nessa hora, ele não perguntava se os amiguinhos queriam continuar a jogar ou não: confiscava a bola e ia embora. Para os mesquinhos, vale a norma: os outros que se lixem.

Jairzinho, nosso presidente, é como o Joãozinho da história. Visto que não gosta de ler, confisca jornais e revistas sem se preocupar se os demais gostariam de ler.

Nem o Lula, apesar de confessar seu horror à leitura, ousou confiscar jornais e revistas de seus assessores e privá-los de informação confiável. Nesse ponto, Jairzinho não é igual ao Lula; é pior.

Mesquinho
A palavra mesquinho vem do árabe miskin ou meskin. Nessa língua, significa pobre, desprovido de tudo. A raiz, presente também em hebreu, é atestada já na língua acádia, falada na Mesopotâmia 3.000 anos antes de Cristo. Ao passar para as línguas europeias, o termo sofreu alteração de sentido. Nas línguas latinas, designa aquele que se agarra a coisas pequenas, que não tem grandeza nem generosidade.

Revendo…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

“Na véspera de não partir nunca,
ao menos não há que arrumar as malas”

Fernando Pessoa

– Você me disse que ia passar a vida toda tentando fazer-me feliz. – É que eu não imaginava que fosse viver tanto.

Há pouco tempo, registrei aqui neste espaço minhas percepções sobre o lado obscuro do envelhecimento. Hoje quero alterar meu ângulo de visão e tentar listar as mudanças que caracterizam o lado luminoso da velhice.

Antes de mais nada, sinto em mim que estou mais conectada com aquilo que alguns especialistas em psicologia e psiquiatria chamam de “energias sutis”. Explico melhor: ao longo da vida, vamos aos poucos abrindo mão das experiências de alta intensidade que atraem tanto os mais jovens. Aprendemos a trocar adrenalina por endorfina, a substituir a paixão por velocidade pela degustação lenta dos prazeres.

Vin 1Exemplos? Vários, a maior parte dos quais ligados aos órgãos dos sentidos: a sensação prazerosa de uma brisa tocando nosso rosto, o calor gostoso na pele quando nos sentamos ao sol em um dia frio, nosso palato e nossa língua absorvendo lentamente os sabores e os aromas de um bom vinho, nossa pele arrepiando e nossos pelos se eriçando quando alguém sussura alguma coisa íntima em nosso ouvido, nossos olhos se enchendo de água diante da ternura ou da beleza.

– Não fiquei de todo satisfeita com o transplante de quadril.

– Não fiquei de todo satisfeita com o transplante de quadril.

Depois vem a “idade do conforto”. Já não prestamos tanta atenção aos ditames da moda e às regras sociais. Em vez do salto agulha, um bom mocassim. Em vez das sensuais roupas apertadas, vastidão de tecidos de toque macio. Em vez da cirurgia plástica, um bom spa. Em vez dos almoços de negócio em lotados restaurantes fashion, comidinha caseira ingerida bem devagar em meio a um papo descontraído com os amigos. Em vez do mobiliário Bauhaus, afundar gostosamente num velho sofá que, de tão usado, já assumiu a forma de nosso corpo.

Entramos então em pleno desfrute do “tempo da delicadeza”. Nada de som muito alto, nada de comida muito temperada, nada de gargalhadas histéricas, nada de arroubos passionais, nada de ativismo político exacerbado. Mais vale observar em silêncio emocionado uma flor se abrindo do que participar de um espetáculo circense. É nossa alma que começa a exigir autocontenção.

Edgar Walter Simmons (1917-1994), artista mineiro Óleo sobre tela

by Edgar Walter Simmons (1917-1994), artista mineiro
Óleo sobre tela

Chega mais tarde, lá pelos 75 anos, uma fase que uma amiga descrevia como a da “adolescência reciclada”. Passamos a nos permitir viver experiências que nos eram proibidas em nossa juventude. Pular de paraquedas? Por que não? Ir ao cinema sozinha? Pode ser. Deixar o medo do ridículo de lado e agitar num baile da terceira idade? Hum, dá para pensar. Paquerar aquele vizinho viúvo metido a descolado? Topo! Praticar “sincericídio” o tempo todo com parentes e amigos também pode ser uma experiência libertadora. O que importa é buscar o próprio prazer, tomando apenas o cuidado de não ferir intencionalmente outras pessoas.

Dança 3Pelo que observei no comportamento dos ainda mais velhos, depois dos 80 anos tem início uma fase que passo a denominar de “infância reciclada”. Comer todas aquelas comidas gordurosas que o médico contraindicou, esquecer de tomar o remédio, cabular o banho, talvez até fugir de casa – tudo adquire um gosto delicioso de transgressão desejada, de molecagem consentida, de verdadeira autoexperimentação.

Sol 1Loucura, diria você, ou será que, pensando bem, é uma sutil demonstração de sabedoria? Afinal, estaremos nos despedindo com savoir-faire das últimas cores e sabores de nossa vida.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.