Falta de inteligência

Eliane Cantanhêde (*)

Depois de Lula e Dilma acabarem com as câmeras de segurança no Planalto em 2009, o governo dela extinguiu em 2015 o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), órgão de inteligência que assessora o presidente da República nas diferentes áreas. Lula e Dilma temiam revelar quem circulava pelo poder? Tinham algo a esconder? E a extinção do GSI ‒ com o esvaziamento da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ‒ foi puro desdém ou confusão entre inteligência e espionagem?

Dilma e Lula 4Conforme antecipou o Estadão, Michel Temer restaurou, logo ao assumir, o GSI e nomeou para o cargo o general da reserva Sérgio Etchegoyen, quadro de elite do Exército. Além de encontrar a Abin com um terço da equipe, o general descobriu que não tem como responder a pedidos judiciais ou legislativos sobre a movimentação de pessoas no Planalto. Sabe quem entrou pela portaria principal, mas não se o empreiteiro tal, o lobista tal ou quem quer que seja passou em qual gabinete, em que dia, por quanto tempo.

Qualquer órgão público, prédio de apartamentos, shopping ou loja tem câmeras de segurança, fundamentais para desvendar dezenas, talvez centenas de crimes, como o recente assassinato do embaixador da Grécia. Mas justamente o prédio mais importante do País não tem câmeras há oito anos. Um espanto!(…)

(*) Eliane Cantenhêde é jornalista. O texto é excerto de artigo publicado no Estadão de 17 jan° 2017.

No photos, please!

José Horta Manzano

Notícia esquisita essa que saiu dois dias atrás. Em 2009, foi feita uma reforma no interior do Palácio do Planalto. Governava o Lula. As obras exigiram a retirada das câmeras de segurança internas, aquelas que registram o vaivém de funcionários e visitantes.

Terminada a reforma, imagina-se que os corredores tenham recobrado o aspecto que tinham quando foram inaugurados. Tudo voltou ao normal com uma exceção: as câmeras de segurança interna não foram reinstaladas. E assim ficou. O tempo foi passando e ninguém ligou pra isso.

big-brother-5O último ano do governo do Lula e o longo período da doutora transcorreram sem gravação de imagem. Não se pode atestar que o empresário A tenha passado por ali nem que o político B tenha visitado o gabinete presidencial. Nem mesmo o chefe do serviço de limpeza pôde checar se o faxineiro C realmente passou o aspirador ou se carregou balde e vassoura.

Se o distinto leitor fizer uma caminhadinha de meia hora por qualquer cidade média brasileira, será filmado umas cinquenta vezes. Se não for mais. Pois o Palácio do Planalto, coração do governo brasileiro, não dispõe de registro de imagens há oito anos. Dá pra acreditar? Tem razão, parece piada de primeiro de abril.

O governo do doutor Temer demorou alguns meses para se dar conta da falta, mas pelo menos tem o mérito de haver denunciado a situação. A bizarrice veio a público em declaração do Gabinete de Segurança Institucional. Demoraram, mas acordaram.

by Olga Subirós, arquiteta espanhola

by Olga Subirós, arquiteta espanhola

O honesto cidadão, querendo ou não, sabendo ou não, é filmado, vigiado, controlado, seguido. Já os do andar de cima têm passe livre. Transitam incógnitos. Nem a fértil imaginação do conceptor do Big Brother teria pensado num contraste tão flagrante entre os que podem tudo e os demais.

Vêm agora as perguntas. Por que diabos foi evitado todo registro de idas e vindas nos corredores palacianos? Quem deu a ordem para a retirada definitiva das câmeras? Com que intuito? A resposta está na ponta da língua. Ou não?

Interligne 18cPensando bem
Se não serviu nem para garantir a segurança do próprio palácio presidencial estes últimos oito anos, para que mesmo serviu o Gabinete de Segurança Institucional? É difícil acreditar que não tenha passado de cabide de emprego. Se bem que, nos tempos que correm, nada mais surpreende.