Morrer pela Groenlândia

Nuuk, capital da Groenlândia

José Horta Manzano

Ao pé das montanhas geladas da Groenlândia estão para ser delineados parâmetros para o convívio das nações neste 21° século. A depender do que aconteça nas próximas semanas e meses, o futuro da humanidade dará um tímido passo adiante ou regredirá dois séculos e sacramentará a vigência da lei do mais forte.

Passado o pesadelo da Segunda Guerra Mundial, a quase totalidade dos países se reuniram na recém-criada ONU para pôr ordem no tabuleiro e fixar regras que evitassem conflitos e guerras. Essas regras nem sempre foram respeitadas, mas permaneceram, por décadas, como balizas de como as coisas deveriam ser.

De lá pra cá, a integridade e a soberania nacional nem sempre foram respeitadas.

Em 1950, a China, por ordem de Mao, invadiu o Tibet que, após longo período de distúrbios, acabou anexado pelo invasor e se tornou parte integrante da República Popular.

Em 1979, foi a União Soviética a invadir o Afeganistão; Moscou só mandou retirar suas tropas depois de 9 anos de ocupação.

Os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram a tradição de invadir ou intervir, por curtos períodos, em numerosos países; tirando a guerra do Vietnã, que durou doze anos, as outras intervenções foram mais breves, da Coreia à Líbia.

Ao ameaçar tomar posse da Groenlândia, Donald Trump eleva a novo patamar o desrespeito à soberania de países estrangeiros. A Otan, tratado de defesa mútua ligando EUA, Canadá e quase todos os países europeus, estipula que o ataque armado a um dos países signatários será considerado um ataque a todos os outros, que, por seu lado, se comprometem a defender o atacado.

O tratado não prevê a invasão de um país membro por tropas de outro país membro. Caso os EUA de Trump cumpram sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força, não faz sentido pensar num confronto EUA x todos os demais países membros. Primeiro, por uma questão ética e segundo, porque a força militar americana é superior à de todos os signatários da Otan reunidos. Os europeus não estão dispostos a mandar sua juventude ao campo de batalha morrer pela Groenlândia.

A Dinamarca é a proprietária daquela imensidão gelada. Por mais que seja civilizada e rica, a Dinamarca é um país pequenino, do tamanho do estado do Rio de Janeiro, com 6 milhões de habitantes. Imagino que, se a proprietária da Groenlândia fosse o Reino Unido ou a França, países mais fortes que possuem a arma nuclear, Trump pensaria duas vezes antes de ameaçar tomar o território à força.

Estes dias, há muito movimento em torno do assunto. Um detalhe absurdo é de se notar: oito países da Otan estão mandando tropas para defender a Groenlândia de um ataque americano: Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Estônia. A Europa se defendendo de ataque militar americano! É surreal. São tropas reduzidas, de valor simbólico, mas demonstram a disposição dos europeus de não permitirem que Washington leve um pedaço de seu território.

Trump, que tem em mãos a força bruta, é imprevisível. Se ele decidir que quer porque quer levar a Groenlândia, ninguém poderá detê-lo. Se isso ocorrer, a conquista de território alheio pela força estará, daqui pra diante, autorizada.

Só nos resta apreciar a movimentação e torcer para que o pior não aconteça.

Política pelo espalhafato

Oceano Ártico

José Horta Manzano

Como político, Donald Trump é inclassificável. Não se encaixa em nenhum modelo habitual. Autoritário é, mas não atinge os cumes a que chega um Putin; Trump sabe quando é chegado o momento de dar meia-volta. Personalista também é, mas ainda está para aparecer um líder que não o seja. A ignorância é outra de suas características, mas não é um não saber incurável que um bom assessoramento não possa mitigar.

O que distingue a personalidade de Trump são as palavras e os atos espalhafatosos, imoderados, apesar disso assumidos plenamente. Ordena ações militares pontuais que surpreendem e assustam, sem necessariamente resolver problemas.

O bombardeio do Irã, em junho de 2025, foi espetacular, mas passou longe de eliminar as instalações nucleares do país. Assustou, mas, de resto, foi pra inglês ver.

Ainda outro dia, anunciou ter bombardeado posições da guerrilha islamita em território sírio. Todo o mundo sabe que guerrilha não se combate com bombas lançadas por aviões.

A armada que Trump enviou para as costas venezuelanas era digna de uma batalha naval – que nunca houve, justamente por não estar no programa. A frota de guerra permaneceu semanas inteiras até que uma noite um comando foi mandado a Caracas, entrou atirando e capturou o presidente do país. Goste-se dele ou não, era o presidente, ainda que sua eleição fosse contestada. Para escárnio do mundo, o sequestrado foi levado para os Estados Unidos e lá exibido como animal de feira, mãos algemadas, pés entravados, macacão cor de abóbora. Por pouco, os curiosos não lhe lançaram bananas e pipocas. Dez dias depois, Trump declarou entender-se bem com a peona chavista que substituiu o ditador venezuelano. E tudo bem, que a vida segue. Moral da história? Tire a conclusão que lhe agradar.

Como se vê, o espalhafato é componente essencial da política trumpista. Há que conceder-lhe o mérito de atrair em permanência as atenções para sua pessoa.

Desde que assumiu o mandato, um ano atrás, Trump apregoa a quem quiser ouvir que a Groenlândia “tem de ser” americana, doa a quem doer. Se não for pelas boas, será pelas más, – promete ele. Volta e meia, torna a repetir o mantra da Groenlândia.

Não é de hoje que os Estados Unidos estão interessados em adquirir a Groenlândia. Faz século e meio que estão tentando. Mas é fácil entender por que razão o interesse cresceu dramaticamente nos tempos atuais. O aquecimento global (que Trump garante ser balela) está aí, só não vê quem não quer. Com os gelos eternos do topo do globo derretendo a olhos vistos, imensas possibilidades se abrem.

Novas vias navegáveis, antes bloqueadas por uma calota de gelo, começam a se abrir. O derretimento do gelo groenlandês tem duas consequências imediatas. A primeira é a subida do nível dos oceanos, e a inundação progressiva de baixios costeiros no mundo todo. A segunda é o afloramento de terras e rochas da Groenlândia, antes cobertas de neve e gelo, abrindo a possibilidade de exploração de suas imensas riquezas minerais.

Acostumados que estamos a ver o mapa-múndi tradicional, com as Américas à esquerda e a Ásia à direita, nos parece que a América do Norte e a Rússia estão muito distantes. E que a Groenlândia não tem a ver nem com esta nem com aquela. Basta mudar o ponto de vista e desenhar o planisfério com o Polo Norte no centro (ver ilustração). Agora, sim, dá pra entender que a Groenlândia é uma imensa ilha situada bem no meio do caminho entre a América do Norte e a Rússia. A distância do Canadá para o norte da Rússia (= a largura do Oceano Ártico) é de menos de 2.000km. Um pulinho.

Fica, agora, mais claro o porquê do interesse obsessivo de Trump pela ilha dinamarquesa. Tenho palpite que, com ou sem espalhafato, o presidente americano vai acabar conseguindo o que deseja.

Três semanas atrás, por acaso alguém imaginaria que, em uma noite, Maduro seria capturado e exfiltrado da Venezuela para nunca mais voltar?

O elefante

José Horta Manzano

Faz alguns dias, saiu notícia espantosa. Mais uma de Donald Trump. Num tuíte, o imprevisível presidente se mostrou interessado em comprar a Groenlândia e disse que a Dinamarca, dona da imensa e gelada ilha, deveria concordar em vendê-la aos EUA. A Groenlândia, habitada por 60 mil pessoas, pertence realmente ao reino da Dinamarca, embora goza de grande autonomia.

Parece piada de hospício. Passado o primeiro momento de estupor diante da ousadia de Trump, o mundo riu. A mídia europeia levou tudo na brincadeira. Por seu lado, a primeira-ministra dinamarquesa declarou que a ideia do presidente americano era absurda.

A primeira-ministra da Dinamarca, o presidente americano, a Groenlândia e a fábula do elefante.

Trump não gostou do que disse a chefe de governo. Embirrou. Em represália, anulou a visita que faria a Copenhague estes próximos dias. Na Dinamarca, ficaram todos constrangidos: «Com que então, ele não estava brincando? Estava falando sério mesmo?».

Politiken, importante jornal dinamarquês, traz na manchete o comentário de políticos do país. «Esta história faz o ditado do elefante na loja de porcelana perder todo sentido.»

É verdade. Donald Trump é capaz de quebrar mais louça que um elefante.

A Terra é redonda

José Horta Manzano

A Terra é redonda. Ainda que alguém possa demonstrar alguma dúvida ‒ fato que sucedeu há alguns anos com um figurão de nossa política ‒, acredite: é redondinha. Como também são os demais planetas e estrelas. A Terra forma figura geométrica com três dimensões. Além da altura e da largura, tem a profundidade.

Na hora de desenhar essa bola numa folha de papel, surge um problema: enquanto a bola tem três dimensões, a folha tem só duas. Como fazer? Por mais engenhoso que seja o artista, a imagem final será necessariamente distorcida.

Na Antiguidade, essa dificuldade não incomodava ninguém. A cartografia estava longe de ser preocupação central da humanidade. O quebra-cabeça de transferir a imagem de uma esfera para um papel plano ‒ desenhando assim um planisfério ‒ só apareceu no século 16, depois que a expedição de Fernão de Magalhães deu a volta ao mundo e comprovou que realmente o planeta era redondo.

Planisfério pela projeção Mercator

Nenhuma representação plana de um corpo esférico será perfeita. Se se conservam os ângulos, as dimensões dos continentes será deformada. E vice-versa: se se privilegiam as dimensões, os ângulos aparecerão deturpados.

Existem dezenas de diferentes projeções, todas elas imperfeitas. A mais utilizada sempre foi a que o matemático e geógrafo Gerard De Kremer criou. O estudioso nasceu em 1512 num vilarejo que hoje faz parte do território belga. Como era costume na época, seu nome foi latinizado para Gerardus Mercator.

A projeção de Mercator é fiel aos ângulos, mas distorce as proporções. Num planisfério desenhado segundo esse método, à medida que as terras se afastam do Equador, as dimensões vão se deformando. As regiões situadas em altas latitudes, próximas aos polos, parecem muito mais extensas do que realmente são. Num planisfério de Mercator, a Groenlândia parece maior do que a América do Sul. Na realidade, o continente sul-americano é oito vezes mais extenso do que a gelada Groenlândia.

Acostumados que estamos a ver planisférios com superfícies distorcidas, ficamos com a impressão de que os países situados longe do Equador são muito maiores do que na realidade são. Canadá, EUA, Rússia e China são grandes, sim, mas não tanto assim.

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crédito: Reddit.com

Para repor as coisas nos devidos lugares, está aqui uma sobreposição do mapa do Brasil e dos EUA, ambos retratados na mesma escala e com a mesma projeção. Embora os dois países sejam grandes, vale lembrar que o território brasileiro é mais extenso que o território contíguo dos Estados Unidos ‒ ou seja, com exclusão do Alasca.