Fazendo justiça

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A Eletropaulo, a empresa paulista de energia e luz, é uma das campeãs de reclamações junto ao Procon, o órgão de defesa dos direitos do consumidor. Considero esse fenômeno incompreensível, fruto quiçá do desconhecimento – para não dizer ignorância – de boa parte da população de São Paulo quanto aos imensos e complexos desafios que cercam a administração dessa grande empresa.

computador-18Lembro, por exemplo, que só muito recentemente veio à tona a discussão sobre a necessidade de aterramento da rede elétrica paulista para evitar os constantes problemas de queda de árvores causados pelas fortes chuvas que enfrentamos todos os anos na primavera e no verão. A Eletropaulo prontamente ofereceu sua contribuição para o aprofundamento do debate público. Emitiu um comunicado alertando para os altos custos que uma providência desse porte acarretaria, manifestando inclusive preocupação com o inevitável repasse para o preço da distribuição da

(Ops, desculpem, a luz acabou)

fiacao-1Retomando. Dizia eu que, em função da atual grave crise econômico-financeira que afeta nosso país, a Eletropaulo confessa estar de mãos e pés atados para fazer frente como deveria à crescente violência das forças naturais, consequência inevitável do aquecimento global. A empresa foi além: abriu seu coração para se posicionar ao lado do infeliz consumidor que já está às voltas com o aumento do desemprego e da inflação e não teria como pagar tarifas ainda mais altas. Lamenta as perdas praticamente diárias que seus usuários são forçados a enfrentar em sua residência e em seus negócios devido à frequente interrupção do fornecimento de energia elétrica e se prontifica a dar solução rápida a todos os reclamos. Promete envidar seus melhores esforços para encontrar um ponto de equilíbrio entre as necessidades da população e sua

(Perdão novamente. A energia foi interrompida mais uma vez. Pelo que a Eletropaulo informou, está sendo feita uma grande operação de manutenção na rede do bairro, uma vez que ele foi um dos maiores atingidos pelo temporal da última quinta-feira)

computador-16Voltando. Acredito que grande parte da elite paulistana não se dá conta da angústia que assoberba a diretoria da empresa quando ela se predispõe a implementar inovações necessárias para prestar serviços de qualidade na quarta maior cidade do mundo e não conta com os recursos adequados para fazê-lo. Só as almas mais afeitas ao entendimento da psicologia humana poderão compreender a dor avassaladora que isso representa

(Mais uma interrupção breve, queiram desculpar. Parece que os ventos hoje estão numa velocidade acima da esperada para esta época do ano. Os fios balançam e, já se viu, há um desligamento automático da rede)

fiacao-2O que poucos de nossos concidadãos percebem é que o Brasil é um país ainda em desenvolvimento e que o aprimoramento da infraestrutura do setor elétrico nacional foi descuidado pelo governo federal ao longo da última década. Se, ao menos,

(Desta vez a pausa forçada foi um pouco maior. Aparentemente, a tempestade que se avizinha está retardando a ação das equipes de reparo…. Meu computador também deu sinais de desgaste e está mais lento que de costume)

Em suma, o que precisa ficar claro é que vivemos em um país de dimensões continentais e a cidade de São Paulo isoladamente representa a demanda inteira de energia elétrica de vários países europeus e latino-americanos somados. Apesar de tantas dificuldades, o Brasil demonstrou ser capaz de desenvolver quadros profissionais do mais alto quilate no setor de geração de energia elétrica, formou técnicos experimentados nas lutas para fazer chegar à região amazônica os confortos do século 21 e capacitados para responder pela construção da maior hidroelétrica do mundo. A Eletropaulo é parte importante dessa história. Graças ao talento e denodo de suas equipes técnicas

computador-17(Desculpem. Agora foi o sol que voltou forte e tornou quase impossível manter as equipes da Eletropaulo nas ruas, sem hidratação adequada e com fome depois de tantas horas de trabalho hercúleo)

Um dos grandes méritos da Eletropaulo é, sem dúvida, ressaltar o valor da cultura para uma geração imbecilizada pelo uso sistemático da tecnologia. Todos sabem que nossos cérebros são literalmente sugados pelos computadores, celulares, tablets e quejandos. Graças aos encantos do mundo virtual, passamos a viver na periferia de nós mesmos, alienados de nossas necessidades fisiológicas, psíquicas e sociais. Quando falta luz, redescobrimos o prazer de ler um bom livro, entramos novamente em contato com a magia e o romantismo de um jantar à luz de velas, ficamos disponíveis para sentar e conversar com familiares e amigos, reencontramos a utilidade da introspecção e da meditação. Que outros estímulos externos teriam a mesma força para provocar essa revolução de costumes?

(Perdão, pela última vez. A força caiu novamente, a noite chegou e eu confesso ter perdido o fio do raciocínio. Volto ao tema amanhã, se não chover, não ventar e o calor não for tão abrasador)

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Depois da tempestade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu havia acabado de voltar do passeio diário com as cachorras. A tarde estava anormalmente quente e abafada. Tinha sido penoso para mim enfrentar a caminhada e as escadas. A falta de vento agravava minha dificuldade respiratória, ainda consequência do resfriado. Eu me sentia um corpo sem alma e era fácil perceber que às cachorras também faltava alento para prosseguir. Optei por voltar para casa mais cedo.

tempo-3Chegando ao apartamento, desabei no sofá da sala e liguei a televisão para me entreter um pouco. Alguns minutos depois, constatei surpresa que o vento voltava a soprar e havia começado a chover. Nada indicava que a chuva seria forte ou que duraria muito tempo. Tudo que me era dado perceber antes é que havia um silêncio de expectativa na natureza, como se até o canto dos pássaros tivesse de ser suspenso para auscultar a movimentação do ar no interior das nuvens. Logo a chuva engrossou e começaram a cair os primeiros raios.

De início, limitei-me a observar a cabeleira das palmeiras que ornamentam a entrada do condomínio se agitando ferozmente. À medida que a ventania foi se tornando mais violenta, não me restou alternativa a não ser levantar e fechar a janela do banheiro, que fica no final do corredor, em frente à sala, para evitar o encanamento do vento. Eu sabia que o trinco dessa janela estava emperrado e que ela poderia abrir com a força da ventania. Por isso, reforcei a vedação colocando um pedaço de plástico embaixo do trinco e voltei para a sala às pressas, na tentativa de tranquilizar as cachorras.

tempo-1Mal tive tempo de me sentar e escutei um forte estrondo: a janela tinha se aberto violentamente, o vidro estilhaçou e cacos voavam para todos os lados. Não havia nada mais a fazer, a não ser tentar proteger o rosto e as mãos de cortes. Antes que eu pudesse me refazer do susto, a porta do banheiro bateu com força às minhas costas e o apartamento todo estremeceu.

Corri para o quarto. Mesmo tendo certeza de que havia apenas uma fresta do tamanho de um dedo na janela, queria evitar mais estragos. A força do vento era tamanha que me foi difícil abrir a porta e caminhar até a janela. Não pude acreditar em meus olhos com o que vi na sequência. Parecia que uma potente mangueira havia sido introduzida janela adentro e a água jorrava em chafariz, molhando toda a minha cama. Preocupada, fui correndo verificar como estava o escritório, já que o computador e a secretária eletrônica ficam a poucos centímetros da janela. Como previsto, a água já escorria pelas paredes e se espraiava pelo piso. Temendo um curto-circuito, desliguei toda a aparelhagem e voltei à sala.

cachorro-33O temporal piorou. Granizos do tamanho de bolas de gude batiam com violência nos vidros, provocando um barulho ensurdecedor. Eu me sentia em meio a um filme de terror, tendo como trilha sonora a tempestade wagneriana. Temia que todas as janelas do apartamento se quebrassem de uma só vez. Não tive muito tempo para pensar em estratégias de defesa. Logo me dei conta de que a esquadria das janelas não suportaria a pressão da água acumulada. De fato, ela já brotava dos vãos, descia em cascata pelas paredes e escorria por debaixo dos móveis até a porta de entrada.

Levantei num pulo e corri para a área de serviço em busca de rodo, panos e baldes. Minha cachorra Aisha havia literalmente travado, atravessada na porta de acesso para a lavanderia. Em pânico absoluto, ela observava aquele cenário de caos e não se movia nem para frente, nem para trás, nem para os lados. Tive que lhe dar um safanão com o joelho e forçar a passagem. Passei as duas horas seguintes arrastando os móveis e tentando retirar o máximo possível de água. A sensação, porém, era a de estar enxugando gelo.

tempo-2Dizem que uma desgraça nunca vem sozinha. Em poucos instantes, a luz acabou e a noite chegou. Se a cena já era aterrorizante antes, não é difícil imaginar como era estar num ambiente iluminado apenas pelo clarão dos raios, ouvindo o uivo dos ventos e o ribombar dos trovões. A cereja do bolo não tardou: um raio atingiu em cheio o transformador do poste em frente ao condomínio, me cegando por alguns segundos. Aquilo foi a gota d’água para os ouvidos sensíveis da Molly. Espremida embaixo da mesa, ela me dava a pata em desespero, como se aquele gesto pudesse por si só colocar um ponto final na situação traumática.

Acalmei-a como pude e me enchi de paciência para esperar o retorno da energia. Respirei fundo, fechei os olhos e deixei-me enredar com meu passatempo favorito: viajar no tempo. Quando estou passando por momentos difíceis e não vislumbro solução imediata, sinto-me estimulada imaginando como seria lidar com o mesmo problema séculos atrás, caso habitasse em uma zona rural, sem vizinhos e sem contar com os recursos de conforto contemporâneos. A fabulação confortou-me por alguns minutos, mas logo a ansiedade retornou.

Tão logo a tempestade amainou, pensei em ligar para minha irmã para descobrir qual era a dimensão exata dos estragos no bairro. Me angustiava o som dos helicópteros da polícia voando baixo e o barulho das sirenes das ambulâncias que corriam para lá e para cá. Tirei o fone do gancho e….surpresa, ele estava mudo! Foi a minha vez de entrar em pânico. Lá estava eu, ilhada dentro de um apartamento, no alto de um morro, na maior cidade das Américas, sem nenhuma forma de contato com o mundo exterior.

tempo-4Era preciso fazer alguma coisa de prático para retomar o controle da situação. Enchi-me de coragem, desci as escadas com o auxílio de uma vela e fui até a portaria. Pedi ao porteiro que me emprestasse o celular. Ele balançou a cabeça em negação, indicando que a bateria estava descarregada. Ainda, me alertou que seria inútil procurar outros aparelhos, já que nenhuma operadora de telefonia móvel estava funcionando na região.

Voltei para o apartamento me sentindo a criatura mais desamparada do planeta. Sabendo que só podia contar comigo mesma, desanimei de vez, perdi a fome, cabulei o jantar e fui me deitar de roupa e tudo no sofá da sala. Acordei acabrunhada às três horas da madrugada, em meio a uma crise de hipoglicemia, só para constatar que nada havia mudado.

Vinte e seis horas e meia depois de iniciada a tempestade, a luz voltou, o telefone se curou espontaneamente da afonia e eu pude, finalmente, reaprender o valor da tecnologia e da civilização humana. Deixei meus olhos passearem pelo ambiente fortemente iluminado, encantei-me de novo com as cores da tela da televisão, e alegrei-me com as notícias na tela do computador. Contrariando minha tradicional resistência aos ‘gadgets’ eletrônicos, redescobri estupefata como é bom poder pressionar um simples botão e encontrar resposta para a maioria dos problemas de sobrevivência no século 21.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.