A lanterna de Diógenes

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Enojada, eu me forçava a prestar atenção aos detalhes escabrosos de mais uma das tantas delações premiadas que nos têm assombrado ultimamente. Pensava com os meus botões que, por mais asquerosas que sejam as revelações, nada é realmente surpreendente. Pode até acontecer que este ou aquele cidadão incauto não tenha suspeitado da existência de uma prática lesiva específica, mas quase certamente ninguém ficou horrorizado ao ser revelado o nome da pessoa que a praticou.

Assim é desde sempre o estado emocional do brasileiro comum. Desconfiamos de tudo e de todos, principalmente de quem se anuncia como salvador da pátria. Escolados por séculos de leviandade no trato da coisa pública e pelo contínuo alijamento da cidadania, acabamos nos deixando entorpecer e, pouco a pouco, nos tornamos indiferentes às mil formas de perversidade de nossas elites. Quando se atinge o nível de saturação, refletia eu, tanto faz se a dose do veneno aumenta pouco ou muito. Só a náusea cresce, mas o mal-estar é permanente.

Na sequência, acompanhei preocupada o relato de mais um caso de suicídio de adolescente associado ao jogo Baleia Azul. Não foi preciso muito esforço mental para ligar alho com bugalho. Se a adultos experimentados nas pequenas e grandes tragédias do cotidiano nacional já se tornou insuportável a repetição de casos grotescos de absoluta indiferença às demandas sociais, o que esperar de uma pessoa que se prepara para se desprender dos ingênuos paradigmas infantis e elaborar um projeto de futuro responsável? Desesperança é nosso sobrenome.

Foi quando cruzou minha cabeça a lembrança do filósofo grego que saía às ruas com uma lanterna, em pleno dia, à procura de um homem justo. Digo ‘justo’ porque assim fui ensinada. No entanto, consultando a Wikipédia, encontrei a afirmação de que o que Diógenes procurava de fato era um homem honesto. Será que honesto e justo ‒ me perguntei ‒ querem dizer a mesma coisa?

Seja como for, continuei lendo os detalhes da história de vida desse pensador andarilho que, desacreditado das hipócritas convenções sociais de sua época, optou por abrir mão dos confortos da civilização e foi morar dentro de um barril, na rua. Ele postulava que a virtude está em viver de acordo com as regras da natureza e em harmonia com a própria essência. Detalhe relevantíssimo, que caiu como uma bomba sobre minha cabeça: Diógenes sugeria que se buscasse no comportamento dos cães a inspiração para viver uma vida virtuosa e feliz.

Quase caí da cadeira ao me dar conta de que a palavra cinismo – nome da escola filosófica à qual pertencia Diógenes – deriva do grego antigo kynos (cão). Os argumentos de sustentação de sua teoria começaram a me soar estranhamente familiares: os cães perambulam livremente e sem destino pelas ruas, fazem todas as suas necessidades fisiológicas (inclusive sexo) em público, comem qualquer coisa que encontrem ou lhes seja oferecido, não fazem exigências quanto ao lugar em que vão dormir, vivem sem ansiedade o presente e conseguem distinguir intuitivamente quem é amigo e quem é inimigo.

Sem ter consciência disso, descobri que sempre fui cínica ‒ desde criancinha e nos dois sentidos da palavra. No sentido de escola filosófica, porque sempre acreditei que a felicidade vem de dentro e independe da posse de riqueza, fama ou poder. Na conotação moderna de cinismo (descrença na sinceridade ou bondade das motivações humanas), porque sempre intuí que, por trás dos propósitos nobres que apresentamos para nossas ações, escondem-se outros impulsos e desejos bem menos altruístas e, por assim dizer, mais humanos. Só não aprendi ainda a me libertar de toda forma de desejo e sou pudica demais para me desnudar por inteiro em público.

A missão da filósofa canina Molly, que encantou minha vida por quase uma década, estava finalmente revelada. Meu pulso acelerou e fui tomada por uma agitação febril. Meu cérebro não se cansava de buscar novas conexões que me permitissem reunir num só quadro diagnóstico os sintomas dessa corrosiva doença social que aflige a humanidade desde priscas eras.

Corrupção e perda de sentido da vida são gêmeas siamesas, concluo. Quem busca fora de si a felicidade, a realização e a aceitação social está fadado a descobrir-se suspenso pela brocha, sem uma escada de apoio. Da mesma forma, quem tem sua autoestima apoiada na padronização de comportamentos e sua noção de valor pessoal ancorada no reconhecimento do grupo vai se perceber, mais cedo ou mais tarde, literalmente num mato sem cachorro.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Desalento

José Horta Manzano

Linguistas divergem sobre a origem da palavra desalento (des + alento). Boa parte acredita que venha da mesma raíz que o verbo latino halare, que significa expirar, soltar o ar dos pulmões. Faz sentido. Um dos sinais característicos do indivíduo desalentado e desesperançado é o suspiro.

A crer nos resultados da pesquisa que o Instituto Paraná Pesquisas acaba de publicar sobre a Operação Lava a Jato, o brasileiro dá sinais fortes de desalento. Indagados sobre como imaginam o futuro da corrupção no Brasil depois da Lava a Jato, nossos concidadãos deram resposta nada otimista.

Pesquisa 6

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Dos entrevistados, mais de 61% acreditam que, terminado o jateamento, a corrupção vai continuar como está ou vai até aumentar. Arredondando os números, de cada três conterrâneos, apenas um acha que esse festival de obscenidades vai dar trégua. Os outros dois não botam fé na regeneração do panorama político.

Desalento 1A constatação é ‒ sem trocadilhos ‒ desalentadora. Como é que ficam aquelas pesquisas que classificam os brasileiros entre os mais otimistas do planeta? Há flagrante contradição aí.

Otimismo por um lado, desalento por outro. Para conciliar as duas afirmações, só enxergo uma tenebrosa hipótese: os brasileiros são felizes e otimistas independentemente de viverem mergulhados num universo de corruptos. Em outras palavras, a corrupção onipresente não incomoda. Será isso?

Envelhecendo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Estou desolada. Diante do espelho, constato a celeridade com que o envelhecimento toma conta de mim em todos os sentidos. O que me incomoda não é tanto a decadência física mas principalmente aquilo que chamo de ‘perda de esperança’. Sinto que sobrevivo não por escolha mas por um simples compromisso religioso de cumprir tabela. Como se colocar ativamente um ponto final naquilo que não faz mais sentido pessoal fosse uma transgressão indesculpável perante a divindade. Contraditório, não é mesmo?

Computador 2Explico melhor essa sensação de obsolescência. Consultando o dicionário, é possível ver que, dentro de um contexto econômico, obsolescência significa “diminuição da vida útil e do valor de um bem devido não a desgaste causado pelo uso mas ao progresso técnico ou ao surgimento de produtos novos”, como informa o Houaiss. É precisamente o que sinto. Perdi todo meu valor de mercado no mundo profissional e grande parte dele na família e no meu círculo de amizades.

Submergi um tanto a contragosto no tsunami do desenvolvimento de novas tecnologias e minha recusa em utilizar as redes sociais para me comunicar foi o que bastou para decretar minha exclusão da vida prática. Não consigo lidar decentemente com tantos gadgets eletrônicos. É como se minha habilidade para mexer com essas maquininhas fosse comparável à de um hipopótamo tentando aprender passos de dança e minha inteligência estivesse próxima à de um ouriço. Novos aparelhos cada vez menores e teclados cada vez mais curtos e estreitos me parecem pensados para o uso de crianças ou para os jovens que aprenderam a digitar em seus celulares utilizando só a ponta dos dedos, só um dedo de cada vez e só uma das mãos. O mouse dos notebooks faz com que eu passe os dias praguejando contra minha canhotice e consequente falta de destreza.

by Salvatore Malorgio

by Salvatore Malorgio

O tempo, que antes me era tão precioso, perdeu agora todo o seu significado. Para mim, tanto faz se hoje é segunda-feira ou quinta, se o mês é maio ou agosto, se o ano é 1997 ou 2015. Os dias passam burocraticamente, sem deixar rastros na minha lembrança. Em que ano mesmo aconteceu a morte do meu pai? E o daquela amiga querida? Não importa. Tudo o que sobrou foi a memória dolorida do espanto, a inconformidade com a perda, a revolta contra o destino e, mais tarde, a pura e simples apatia.

Quando acordo, compilo mentalmente as tarefas que terei de executar ao longo do dia e depois as vou cumprindo mecanicamente. E, se penso no dia de amanhã, tudo o que me ocorre fazer é tentar lembrar que coisas vão ter de ser feitas nas próximas 24 horas. Tenho de ir ao banco pagar uma conta? Preciso passar na farmácia para comprar aquele remédio que está acabando? Não posso esquecer de telefonar para…

by Lena Karpinsky

by Lena Karpinsky

Olho-me ao espelho e observo condoída a desesperança instalada em meus olhos. Examino horrorizada as mudanças em meu corpo. Cadê as carnes que até uns cinco anos atrás enchiam confortavelmente estas roupas? Já dá para notar o acabamento em plissê na parte interna de meus braços e coxas e os músculos de minha barriga se espraiando num belo godê. O que foi feito do brilho dos meus cabelos e daquela luzinha que insistia em aparecer no fundo dos meus olhos? Por onde anda a curiosidade que sempre foi meu motor na vida? Pareço ridícula, tenho a figura de um espantalho que engoliu um melão e carrega nas costas, encurvado para a frente, um feixe de algodão. Estou literalmente minguando.

A vida de aposentada ajuda a acrescentar requintes de crueldade a esse quadro por si só dantesco. Quando vou ao supermercado, pego os ítens que me davam prazer consumir, fico assustada com os preços e acabo descartando-os quando chego ao caixa. Quando me alimento, já não vejo a comida com olhos de prazer ou de promessa de sabor e saúde, mas só com olhos de quantidade. Será que essa comida vai dar para chegar até o fim do mês? Se eu não comer isto aqui, vai estragar em dois dias. Isto é pouco ou muito para matar minha fome? Por falar nisso, qual é o tamanho real da minha fome? Consulto meu estômago e concluo sempre que dá para postergar por mais algumas horas a decisão de comer. Só volto ao assunto quando me sobe pelas entranhas aquela onda de enjoo e desconforto por tantos cigarros fumados inconscientemente.

by Edvard Munch

by Edvard Munch

Cinema, teatro, literatura e outras atividades culturais? Não, não posso mais pagar por esses afagos à minha alma. Além disso, só de pensar em me vestir, sair de casa, enfrentar o trânsito caótico desta cidade e pegar fila, minha disposição se esvai em segundos. Almoço com amigos? Não dá, enfrento sempre sérias restrições financeiras para encontrar o local certo, isso sem falar do meu vegetarianismo e da minha dificuldade de mastigar coisas muito duras. Uma saída à noite para uma conversa acompanhada por um drinque? Não posso, sou diabética.

Meu peito também já não vibra com praticamente nenhuma emoção. Talvez me tenha sobrado apenas a indignação derivada da leitura dos escândalos políticos ou dos tenebrosos casos policiais de violência. As emoções ditas positivas me ocorrem, sim, de quando em vez, mas parecem vir sempre filtradas. São tímidas, acanhadas, sempre em tom pastel. Às vezes experimento uma sensação de leveza ou de bem estar, principalmente quando uma brisa bate de leve em meu rosto ou quando me sento ao sol e fecho os olhos. Outras vezes me enterneço vendo minhas cachorras desfrutando de sua doce intimidade, chamando uma à outra para novas brincadeiras. Mas é só, nenhum turbilhão emocional nem num sentido nem em outro.

Meu cérebro é o último bastião. Continua teimosamente produzindo pensamentos, analisa, investiga, questiona, tira conclusões, revisa e coloca tudo em suspenso até um novo pensamento abrir espaço à força dentro dele. Tenho opiniões, sem dúvida, mas na maior parte das vezes sem serventia alguma. Estou cansada de apontar ranzinzamente o dedo contra as mazelas do mundo contemporâneo. Decididamente não tenho mais espaço nesse mundo que se transformou em um festival de selves e de selfies.

by Abby Schmearer

by Sylvia Baldeva

 

Sei que o que me falta neste momento é tolerância para acolher o novo, jogo de cintura para aprender coisas novas, alegria para remover os obstáculos e vontade de recomeçar. Não importa mais o que penso, como penso e quando penso. É só um velho hábito, uma boca torta pelo uso tão frequente desse cachimbo.

Na Antroposofia se diz que a energia vital entra pelos pés todas as manhãs e sai pela cabeça ao final do dia. Deve ser por isso que, ao longo da vida de uma pessoa, os orgãos dos sentidos vão desinvestindo aos poucos na realidade externa e o mundo interior vai ocupando lentamente os espaços vazios. É isso, a única realidade que me diz respeito é a extracorpórea. Sou um fantasma vagando desinteressado e sem direção por entre coisas e gentes.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.