Da infidelidade

José Horta Manzano

Da fidelidade, o dicionário diz que é «característica do que é fiel, do que demonstra zelo, respeito por alguém ou algo». Tem razão, mas falta ainda explicar de onde vem esse zelo, quanto dura e por que acaba. Cada caso é um caso.

Quebra de fidelidade amorosa, praticamente todos sabemos o que é. É raro encontrar quem nunca tenha sido autor, vítima ou coadjuvante. Além disso, zilhões de manuais de autoajuda autopsiam a infidelidade.

Fora do círculo amoroso, numerosos outros tipos de infidelidade correm por aí. A maior parte das pessoas depende de alguma atividade para ganhar a vida. É exatamente onde despendem mais tempo – oito horas por dia ou mais. É natural que as mostras mais frequentes de infidelidade ocorram nesse ambiente.

Na área política, os atores costumam estar particularmente excitados. Quanto mais alta a função, tanto mais exacerbado será o nível de infidelidade. Eleitos que abandonam partidos são multidão. Incontáveis são os que, uma vez empossados, ‘se esquecem’ de promessas de campanha. Viração de casaca é corriqueira. Na presidência da República, então, o fenômeno é especialmente agudo.

Não é coisa nova. Nos tempos do imperador, a infidelidade já estava na moda. A deposição de D. Pedro II, por exemplo, foi resultado de tremenda infidelidade dos galonados que haviam jurado defender o chefe de Estado e a Constituição. Presidentes infiéis para com o eleitorado, sempre houve. Ultimamente, no entanto, o problema parece agravar-se.

Logo em seguida à entrada do novo século, Lula da Silva, alavancado pela promessa de ‘acabar com a miséria’, chegou lá. Ainda há quem acredite que ele compriu o prometido. Não é minha análise. O desempenho do ex-sindicalista foi marcado por senso de oportunismo e soberbo desprezo à palavra dada. Ficou com os milhões e entregou migalhas. Seu programa de transferência de renda não passa de assistencialismo – um curral com entrada e sem saída, que transforma os assistidos em dependentes eternos. O Lula foi infiel às ideias e às esperanças dos que o puseram lá em cima. O resultado foi pífio pra tanta empáfia.

O presidente atual não fez melhor. De natureza paranoica, bombardeia todos os que possam representar ameaça – real ou imaginária. Já metralhou muita gente fina, companheiros de longa data, pessoas que o ajudaram a chegar lá. Todos os dias, o Brasil desperta inquieto e curioso pra saber se nova cabeça rolou.

Taí uma parecença entre as duas figuras mais impactantes deste começo de século: a constância na infidelidade. Se é que é permitido exprimir-se assim. Mas é permitido constatar que ambos têm feito um mal danado ao povo sofrido que tinha depositado esperança neles.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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