A aposta errada

Folha de SP, 28 março 2023

José Horta Manzano

Alguns integrantes do governo Lula 3 não têm medo de escorregar em público. São daquele tipo de gente que, ao ver uma casca de banana do outro lado da rua, não resiste à tentação: atravessa só pra pisar na casca.

Como é natural, o mais ávido é o próprio chefe, mas ministros não ficam muito atrás. Não sei se se trata de cacoete indesejado que nos vem dos quatro anos de Bolsonaro, mas o fato é que Lula se tem mostrado à vontade pra soltar palavrões em entrevista e pra acusar Moro de malfeitos imaginários. Outro dia, o ministro das Comunicações também se sentiu livre para agredir verbalmente uma jornalista, em entrevista ao vivo pela CNN.

Toda essa energia jogada fora pela janela seria mais bem empregada se canalizada para projetar o Brasil das próximas décadas. Goste-se ou não, o futuro chegará. Visto que o tempo do terraplanismo e da negação acabou, é hora de largar mão de negar a realidade.

Os combustíveis fósseis estão sendo banidos por toda parte. Inúmeras cidades europeias já anunciaram que, já em 2030, veículos com motor térmico serão proibidos de circular. Outras cidades fixaram data ainda mais apertada, como 2025 por exemplo. Poluente e vilão climático, o combustível fóssil está com os dias contados.

Investir para alimentar essa tecnologia é dar murro em ponta de faca. Cada centavo gasto em exploração de petróleo em território brasileiro será um centavo a menos para alavancar o País e trazê-lo ao mundo atual. Ainda que o governo Lula acredite ter mãos de aço, não tem. De tanto dar murros na faca, vai acabar estropiando a mão. Investir em prospecção de petróleo, nestas alturas, é um contrassenso.

Nosso país é ensolarado e ventoso. Temos à disposição, de graça, a matéria prima principal da produção de energia limpa: sol e vento. No mundo, usinas eólicas e parques fotovoltaicos se multiplicam. Na Europa, a invasão da Ucrânia pela Rússia veio acelerar o processo. Na Suíça, por exemplo, tornou-se obrigatório cobrir de placas fotovoltaicas o telhado de toda construção nova.

O que é que o governo Lula pretende? Quer que o Brasil faça concorrência com a Venezuela em matéria de petróleo? Talvez queira também que nosso país siga os passos de Caracas em matéria de decomposição política?

Que deixem o petróleo tranquilo. Um dia, ele pode até vir a ser precioso para aplicações novas, que hoje nem conseguimos imaginar. As futuras gerações agradecerão por não termos queimado essa preciosidade que a natureza levou milhões de anos pra fabricar.

Campeã da poluição

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz décadas que a corrente ecologista alemã é influente. Uma de suas bandeiras tem sido a erradicação da energia nuclear. O desastre de Fukushima acelerou dramaticamente o movimento.

Central atômica 1Para fugir da insegurança nuclear, os alemães têm aumentado a produção de eletricidade a partir de matéria fóssil: petróleo, gás, carvão. Mas nada sai de graça. Afastam-se os riscos ligados a um acidente nuclear, é verdade, mas surgem os inconvenientes da queima de combustível fóssil.

Despacho da AFP repercutido pelo jornal francês Les Echos nos dá conta de que a Alemanha, com 760 milhões de toneladas emitidas em 2013, é o maior produtor de CO2 da Europa. Pior que isso, é um dos cinco países da União Europeia onde a produção de gases com efeito de estufa está aumentando em vez de diminuir. Em 2013, foram 2% a mais que no ano anterior.

O abandono da produção de energia atômica afasta o perigo imediato de um acidente grave. Sua substituição pela queima de matéria fóssil, no entanto, aumenta o risco de mudanças climáticas de consequências catastróficas.

Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come.