Conselho de Paz

Conselho da Paz
20 membros fundadores

José Horta Manzano

Davos, 21 janeiro 2026
A fila de espera para entrar no recinto em que Donald Trump era esperado para discursar estava “de dobrar a esquina”. (Que se entenda essa expressão em sentido poético, pois, com o frio que faz em Davos, ninguém ia esperar na esquina.) Armaram uma fila interna, como as que se vêem em check in de aeroporto. O discursante, a estrela do espetáculo, chegou atrasado em razão de problemas técnicos no Air Force One.

Em silêncio de catedral, o presidente dos EUA foi ouvido. Falou sem parar durante mais de uma hora. Se espremermos a fala pra extrair o suco, vamos descobrir que não disse nada além do que todo o mundo já tinha ouvido antes. Passou quase todo o tempo autoelogiando-se e desdenhando o trabalho do governo Biden, seu predecessor. É um de seus esportes preferidos, uma fixação.

Nesse particular, Trump me lembrou o Lula, que passou o primeiro mandato reclamando do antecessor (FHC) e se lamentando que tinha recebido uma “herança maldita”. Quando a reclamação é repetida ao ponto de virar mantra, o ouvinte deve desconfiar.

Da Venezuela, Trump disse pouca coisa. É pena, porque esse assunto nos interessa de perto. Insultou quanto pôde seus parceiros europeus, sem ir além do que já tinha dito anteriormente. Nenhuma novidade.

Novidade mesmo é sua ideia de criar um “Conselho de Paz” para funcionar em paralelo com a ONU. Terá o mesmo nobre objetivo, que é manter a paz no mundo, mas com diferenças fundamentais. Pelo que se vê, quem vai mandar no tal Conselho é um Donald Trump secundado por sua equipe, os companheiros de sempre. A dominação dessa “equipe fundadora” já ficou visível no convite aos futuros participantes: eles decidiram sozinhos quais países seriam convidados e quais seriam excluídos.

China e Rússia fazem parte dos eleitos. Também a Ucrânia, que já declarou ser impensável sentar-se em torno de uma mesa junto com a Rússia. Todos os países europeus foram chamados, mas quase nenhum confirmou até agora. Convidado, o Canadá respondeu que nem em sonho pagaria o bilhão de dólares exigido de cada participante. Um bilhão de joia, como num clube de luxo!

Os que já correram pra confirmar presença são os bons amigos de Trump, como Argentina, Israel e Hungria. Já a França e a Noruega recusaram logo de saída. Segundo Trump, “todo o mundo quer fazer parte”. Não parece. Dos cerca de 60 convidados, nem metade confirmou até agora. Entre os que disseram sim, estão: Azerbaidjão, Kosovo, Cazaquistão, Bahrein, Marrocos, Armênia. Uma seleção pra ninguém botar defeito.

Se posso dar um conselho à equipe de Lula, será o de pensar duas vezes antes de responder. Antes de mais nada, acho pretensioso, da parte de quem dá a festa, mandar “convite” e ainda cobrar um bilhão de dólares de entrada. Um montante assim deixa de ser simbólico e passa a significar enriquecimento ilícito à custa de quem pode menos. E, no fundo, esse dinheiro vai para quem? Para o tesouro americano? Para o bolso de Trump? Não ficou claro.

Donald está utilizando o truque da adulação. Está atiçando a vaidade de cada um. Muita gente se sentiria orgulhoso de sentar-se ao lado de Trump em volta de uma mesa – o saudoso Bolsonaro já caiu nessa, anos atrás, quando aceitou convite para jantar (e pernoitar) em Mar-a-Lago. Para ter esse privilégio, muito líder pagará o preço que for (sobretudo porque o dinheiro sairá do tesouro nacional, não do bolso do convidado).

Lula é vaidoso e sensível a marcas de apreço dadas por dirigentes mundiais. É por isso que advirto: Lula, prezado presidente, segure-se, conte até dez, tome um chuveiro d’água fria, respire fundo, dê um passeio na grama, converse com as emas, tire férias em Garanhuns. Mas recuse esse convite. O Brasil vai deixar de gastar um bilhão de dólares e vosmicê vai evitar passar vergonha.

O que Trump quer é estar rodeado de anjos que lhe digam amém. Ou alguém imagina que esse “conselho” tem vocação para o diálogo e a negociação?

Segure-se, Lula. Fuja dessa, meu irmão.

Board of Peace – logo

Davos, 21 janeiro 2026
Trump aproveitou estar em Davos para reunir solenemente os “membros fundadores” de seu clube. Assinaram a ata de fundação os seguintes países:

• Argentina — Presidente Javier Milei
• Armênia — Primeiro-Ministro Nikol Pachinyan
• Azerbaidjão — Presidente Ilham Aliyev
• Bahrain — Xeique Isa bin Salman Al Khalifa
• Bulgária — Primeiro-Ministro Rosen Jelyazkov
• Catar — Primeiro-Ministro Xeique Mohammed bin Abdul Rahman Al Thani
• Cazaquistão — Presidente Kassym Jomart Tokayev
• Emirados Árabes Unidos — Ministro Khaldoon Al Mubarak
• Hungria — Primeiro-Ministro Viktor Orbán
• Indonésia — Presidente Prabowo Subianto
• Jordânia — Primeiro-Ministro Ayman Safadi
• Kosovo — Presidente Vjosa Osmani
• Mongólia — Primeiro-Ministro Gombojavyn Zandanchatar
• Marrocos — Ministro de Relações Exteriores Nasser Bourita
• Paquistão — Primeiro-Ministro Xehbaz Xarif
• Paraguai — Presidente Santiago Peña
• Saudi Arabia — Ministro de Relações Exteriores Faisal bin Farhan Al Saúd
• Turquia — Ministro de Relações Exteriores Hakan Fidan
• Uzbequistão — Presidente Chavkat Miromonovitch Mirziyoyev

Como se pode ver, só gente fina. Nenhum europeu, com exceção da Hungria e da Bulgária. Nenhum latino-americano, com exceção de Argentina e Paraguai (nem mesmo El Salvador topou). Nem China, nem Rússia, nem Canadá. Um detalhe curioso: Israel anunciou sua adesão mas, na hora agá, não assinou. Talvez não tivessem levado um bilhão de dólares no bolso, o que era condição incontornável. Nesse caso, assinar mais tarde.

Segura-te, Lula!

Um último detalhe, pequeno, mas que diz muito. Observe o mapa-múndi do logo. Reparou em algo inusitado? Pois é claro! Pra ser mapa-múndi está xinfrim. Só aparecem a América do Norte e um pedacinho da América do Sul e da Groenlândia. Será esse o mundo de Trump? Com um logo desses, como é que ele pretende resolver problemas do planeta inteiro? Ainda precisa comer muito feijão.

O reclamão

José Horta Manzano

Sabe aquele parente mais pobrezinho, que você convida para um jantar de família na esperança de que ele aprecie e se sinta feliz? Pois é, suponhamos que ele aceite o convite e compareça, sorridente, bem vestido, distribuindo sorrisos tranquilizadores. De repente, quando menos se espera – e sem motivo aparente – o visitante muda bruscamente de atitude. Passa a botar reparo nos móveis, reclamar da comida, se lamentar de só ser chamado raramente em vez de ser convidado fixo. Quando você já está de olhos arregalados de ver tanta petulância e tanta malcriação, a visita vem com mais. Faz beicinho, estufa o peito e se vangloria de que as reuniões do ramo pobre da família se tornaram mais importantes do que os almoços do ramo rico como aquele, por exemplo. Deboche total.

Parece piada de mau gosto, não parece? Pois é assim que nosso presidente Lula costuma se comportar quando é convidado a provar dos comes e bebes no clube dos ricos, o G7. Suas reclamações são um misto de despeito e de amargura. Despeito pelo fato de o Brasil ainda não ser membro titular do clube; amargura por ver chegando o fim de sua jornada política sem vislumbrar a menor possibilidade de nosso país sair do banco e entrar para o time principal.

O site de notícias Poder 360 fez um levantamento das viagens de Lula ao G7 (que já se chamou G8, no tempo em que incluía a Rússia). As primeiras idas foram à França em 2003 e à Grã-Bretanha em 2005. Ainda recatado, Lula comportou-se como visita educada, limitando-se a propor a criação de um fundo de combate à fome. Foi a partir do terceiro convite, em 2006, que Lula começou a botar as manguinhas de fora, como se dizia antigamente. E a partir daí, não parou mais.

Já reclamou da não inclusão do Brasil nas discussões sérias; já afirmou, na cara de pau, que o grupo perdeu importância para o G20; já pediu reforma do Conselho de Segurança da ONU; já se imiscuiu na guerra decorrente da invasão da Ucrânia pelo exército russo. Desta vez, nosso presidente lançou seus gracejos adolescentes antes do início da conversa séria: disse que estava indo ao G7 deste ano “antes que os EUA anexem o Canadá”. No momento em que escrevo, está em pleno voo Brasília – Calgary. O G7 desenrola-se no Canadá.

Não sei o que faria vosmicê se pertencesse ao ramo rico da família e estivesse organizando a reunião. Convidaria o Lula? Eu hesitaria muito em mandar-lhe o convite. Visita que chega com quatro pedras no bolso para atirá-las na hora do almoço é problemática.

O próprio Lula, por que razão continua aceitando o convite se suas falas se perdem no ar e ninguém lhe dá ouvidos? Vê-se que está sendo convidado por algum outro motivo, não pelo conteúdo de suas falas, que não parecem interessar a plateia.

Outra pergunta é: Por que é que continuam chamando nosso presidente para esses convescotes de ricaços? Talvez seja apenas para animar a festa. Ou quem sabe é para mostrar ao mundo uma abertura de espírito de fachada.

Está aberta a temporada de conjecturas sobre a razão dos repetidos convites feitos ao Lula. Quem tiver mais alguma ideia, mande uma cartinha para a Redação. Obrigado.

Termômetro da sociedade

José Horta Manzano

Que as redes se tornaram o termômetro maior da sociedade mundial, ninguém há de discordar. Pois essas redes às vezes me parecem um tanto hipócritas. Ou estarão desnorteadas.

A foto acima circulou pela internet. É um instantâneo do círculo mais chegado a Bolsonaro, colhido no show que a cantora Madonna estrelou sábado passado no Rio de Janeiro. Em princípio, seria mais uma imagem banal, semelhante a milhares de outros selfies tirados durante o concerto da diva. Mas este aqui tem uma carga diferenciada, como se diz hoje em dia.

As redes dos bolsonaristas se interessam por tudo o que diz respeito ao Jair, ídolo deles. Pois eles torceram o nariz para a foto, que elevou o nível de tensões internas preexistentes na extrema direita.

Entre os admiradores do capitão, forte contingente idealiza um mundo de sonho, sem pecados, sem erotismo, todo regradinho, sem desvios comportamentais de natureza sexual. A estrela do show de sábado não é conhecida por seu puritanismo. Bem ao contrário, nunca escondeu suas ideias de mulher liberada, empoderada, livre de preconceitos de ordem sexual.

Ora, ver que os colaboradores mais próximos do capitão – incluindo seu advogado pessoal – assistiram a um espetáculo a tal ponto ímpio deu frio na barriga de muito bolsonarista radical. A luta pela decência moral e contra toda desenvoltura sexual, razão de ser de todo cidadão de extrema direita, não combina com o escândalo dado pelos integrantes do primeiro escalão da seita bolsonárica que assistiram ao show de Madonna e ainda ousaram tirar essa foto com tanto sorriso.

Compreende-se que os demais seguidores do capitão, que se inteiraram do acontecido pelas redes, tenham ficado chocados e desorientados.

Quanto a nós, que não rezamos por essa cartilha, o que salta aos olhos são outros detalhes reveladores.

  • Como de costume, a galera vem do clube da testosterona, onde menina não entra. Para eles, lugar de mulher é certamente em casa, cuidando da numerosa prole. Como Deus manda.
  • Como de costume, a confraria é composta unicamente de homens brancos (ou quase brancos). É um conciliábulo em que diversidade não entra. As esposas? Decerto em casa, cerzindo as meias.

Agora dá pra entender como é que Madonna consegue reunir um milhão e meio em Copacabana. Ela, que não é boba, não faz diferença entre espectadores de esquerda ou de extrema direita. Quer que venham todos, desde que aplaudam.

O Brics

Da Folha de São Paulo

José Horta Manzano

O clube chamado Brics não passa de fantasia sem qualquer consistência. Esse acrônimo foi bolado vinte anos atrás por um economista do banco Goldman Sachs. O rapaz teve a ideia de enfileirar a letra inicial de cada um dos países que, segundo a bola de cristal daqueles tempos, dominariam a economia global por volta de 2050. Brasil, Russia, India, China. Deu: Bric. Anos mais tarde, talvez na intenção de incluir um país africano no elenco, foi acrescentada a África do Sul (South Africa) e o acrônimo virou Brics.

Como se vê, entraram na mesma sacola países que quase nada têm em comum além do fato de serem promessas para o futuro. A Rússia tem tanto a ver com a África do Sul quanto a China tem a ver com o Brasil. No fundo, a qualidade comum aos membros do clubinho é ter uma população importante, se bem que a África do Sul nem tanto.

Dirigentes do Brics se reúnem com certa frequência e tomam decisões de pouca relevância. A heterogeneidade dos membros é tão grande que até o nome do clube flutua no entendimento de cada um. Veja a imagem reproduzida no alto deste artigo: a própria Folha de SP, que costuma ser cuidadosa nos detalhes, hesita entre “os Brics” e “o Brics”.

É verdade que aquele “s” no final parece indicar plural. Mas é só impressão. Como Mercosul, Brics é um nome coletivo, não admite plural. Quem diz “os Brics se reúnem” deveria também dizer “os Mercossuis se reúnem”. Não se deixe impressionar pelo “s” final.  O Brics é suficiente, assim como o pires e o lápis.

A associação é atualmente composta por 5 países: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Desses cinco, dois são ditaduras autoritárias (China e Rússia) e um está a caminho (Índia). Pior que isso: o ditador russo está na lista vermelha da Interpol com ordem de captura emitida pelo Tribunal Penal Internacional. Para ele, é temerário botar um pé fora de suas fronteiras.

A população da Índia é 25 vezes maior que a da África do Sul. O PIB da China, pelo conceito ppp, é 3 vezes maior que o da Índia, 7 vezes maior que o do Brasil ou da Rússia, 30 vezes maior que o da África do Sul. A assimetria econômica entre os membros é paralisante.

O distinto leitor e a encantadora leitora hão de convir que, com sócios díspares e sem um objetivo comum, a associação tem chances magras de prosperar. A continuar assim, vai acabar se tornando um agrupamento de países-súditos da China.

Caso o Brics aceite novos membros nos próximos anos, a ascendência chinesa sobre todos vai se tornar ainda mais evidente. O Brasil deveria combater vigorosamente toda expansão do clube.

Não sei se o lulopetismo já se deu conta de que o preço a pagar para levar seu antiamericanismo às últimas consequências é jogar-se nos braços da China. É bom que comecem a pensar nisso com urgência porque, sabendo ou não, é o que estão fazendo.

A sabedoria popular ensina que não se deve trocar o certo pelo duvidoso.

De eufemismos e distorções

José Horta Manzano

Petrobras 3Crise
Por que se fala em «crise na Petrobras» quando o que houve foi pilhagem da Petrobrás? Covenhamos, a crise não é na petroleira, atinge todo o andar de cima da ultraestratificada sociedade brasileira. Aliás, além de dona Dilma, quem garante que a pilhagem terminou?

Interligne 28aDiferenciado
Por que será que «diferenciado» substituiu diferente? Há de ser para marcar uma diferença ainda maior.
Os delinquentes que assaltaram ontem o cardeal-arcebispo do Rio pediram desculpas ao prelado. Mas cometeram o crime assim mesmo. Terão dado a Sua Eminência um tratamento… «diferenciado»? Será isso mesmo?

Interligne 28aViolência
Por que razão todos nós nos limitamos a apontar a atual «onda de violência» quando, na verdade, se trata de onda de crime?

Interligne 28aManif 9Ativismo
Por que chamamos «ativistas» os energúmenos que provocam baderna em praça pública? Arruaceiros é o que são.

Interligne 28aPerformance
Por que, diabos, usamos a expressão «performance» ― bizarro híbrido anglofrancês ― quando nosso velho desempenho dá o mesmo recado?

Interligne 28aRanking
Por que usar «ranking» em substituição à tradicional classificação? Ranking é filhote da mesma raiz ‘reg’ que desembocou em rei, regulamento, régua e regra. Ranking traz embutida a ideia de fila indiana, de ordenamento militar. Classificação tem mais classe.

Interligne 28aFacção
Os agrupamentos de facínoras que povoam prisões e ruas não merecem o sofisticado título de «facção». É nobre demais. Que se os chame por nome mais adequado: bando, quadrilha, gangue.

Interligne 28aCom certeza
Em português, assim como em numerosas outras línguas, usa-se a locução «com certeza» justamente em situações em que não se tem muita certeza. O uso tradicional costumava ser:
«Onde estará Joãozinho? Já é tarde, e ainda não chegou.»
«Ah, com certeza ficou trabalhando até mais tarde.»

O sentido da expressão tem-se invertido estes últimos tempos. Passou a designar exatamente aquilo que é certo, seguro, garantido. Por exemplo:
«Então, você vai ao comício do palhaço Itaparica?»
«Com certeza! Não perco uma fala daquele candidato.»

Interligne 28aComunidadeComunidade
Comunidade sempre foi um conceito vago, abrangente, pau para toda obra. O que se costuma definir como palavra-ônibus. Costumava ser usada como termo complementar. Uma vez que já se sabia do que se estava falando, comunidade podia substituir o substantivo principal para quebrar a monotonia. De uns tempos pra cá, comunidade assumiu valor absoluto. É usada sem maiores detalhes, tornando a comunicação imprecisa.

Se alguém lhe disser: «Lá, na minha comunidade, somos todos gente fina.», você vai entender que todos são gente boa, mas ficará sem saber que espécie de comunidade é. Melhor será refrear-se de ceder ao modismo. Vamos guardar o nome específico de cada comunidade. Favela, associação, cortiço, bairro, povoado, cadeia, seita, clube, vila, quilombo, grêmio são comunidades. Mas cada um desses nomes encerra realidade diferente. Vamos dar nome aos bois?