No aguardo do visitante

José Horta Manzano

Daqui a uma dezena de dias, ocorrerá um evento histórico. Um importante personagem político deverá estar de visita a uma cidade que não costuma frequentar. Imagina-se que fará um pronunciamento. Os olhos e os ouvidos do planeta inteiro estarão abertos e atentos para não perder uma migalha do que o homem vai dizer.

Uma baciada de jornalistas do mundo inteiro estão na fila para obter a cobiçada autorização que lhes dará o direito de portar crachá e cobrir o evento. Já faz alguns dias que mil e quinhentos agentes especiais ‒ muitos deles armados ‒ já foram despachados à cidade para cuidar da logística e da segurança do visitante e de seu entourage.

Esse batalhão de homens treinados está encarregado de cuidar minuciosamente de todos os detalhes de hospedagem, alimentação e transporte do ilustre líder. Naturalmente, sem descurar a segurança, ponto primordial.

Para evitar manifestações hostis, a polícia local isolará e garantirá ordem e segurança no trajeto que o personagem deve seguir e nos pontos que deve visitar. O espaço aéreo da cidade será fechado a todo sobrevoo. Drones e helicópteros das forças policiais, munidos de câmeras com visão noturna, esquadrinharão em permanência toda a área central da cidade para prevenir toda tentativa de incursão.

Se o distinto leitor me acompanhou até aqui, há de estar imaginando que estou a descrever eventual comparência do messias de Garanhuns a Porto Alegre para inteirar-se do destino que a Justiça lhe reserva. Sou obrigado a decepcioná-lo. Não, não estou me referindo ao Lula.

Descrevi os preparativos para a esperada visita que Mr. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, deve fazer à Suíça daqui a dez dias. O dirigente vai participar do World Economic Forum, evento organizado todo janeiro em Davos.

Este ano, espera-se a presença de 350 líderes governamentais oriundos dos quatro cantos do planeta ‒ entre os quais 60 chefes de Estado ou de governo(!) ‒, além de um milhar de personagens importantes da sociedade civil, da vida acadêmica e da mídia. É esperada ainda alentada comitiva de ministros do governo americano, de senadores e de deputados.

A atenção do mundo estará voltada para os pronunciamentos e para os tuítes que Mr. Trump emitirá. Jornalistas se esforçarão para destrinchar as palavras do líder, por vezes cabeludas.

O anúncio que o tribunal de Porto Alegre fará, referente aos crimes de nosso ex-presidente, não deverá ocupar a manchete dos grandes veículos mundiais. Será relegado a nota de rodapé. A vida é cruel. Ninguém se condói da desgraça de líderes decaídos.

COP21 e as oportunidades perdidas

José Horta Manzano

A 21a edição da Conferência Internacional sobre o Clima tem lugar em Paris. Começa hoje e termina amanhã. O nome oficial – COP – é contração da expressão COnferência das Partes. Em princípio, todas as partes interessadas na evolução do clima estão representadas. No fundo, todos os países.

Cop 21A primeira COP realizou-se em 1992 no Rio de Janeiro. Collor de Mello, nosso mandatário de então, presidia. De lá pra cá, os coabitantes do planeta já se reuniram uma vintena de vezes para discutir sobre modificações climáticas. As esperanças são sempre enormes, mas os resultados costumam desapontar. É muito difícil pôr de acordo tanta gente. Dado que os interesses de determinados países colidem com os de outros, é difícil encontrar meio-termo.

Paris está em pé de guerra. Pudera: são 195 delegações nacionais, 147 delas encabeçadas pelo chefe de Estado. Essas delegações totalizam 25.000 componentes. Outras 25.000 pessoas – repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, cientistas e gente do ramo – completam a lista de visitantes.

Cinquenta mil hóspedes assim, da noite pro dia, não é fácil de gerir. Ainda mais numa cidade que acaba de sofrer importantes atentados terroristas. Os parisienses foram incentivados a não sair de casa na segunda-feira. Quem puder, que tire um dia de férias. As autoridades pedem que só metam o nariz na rua aqueles que tiverem absoluta necessidade.

Internacional 1Por reunir dezenas de chefes de Estado, megaconferências costumam ser palco de reuniões paralelas, conversas de bastidores. Como se sabe, grandes decisões e bons acertos costumam ser alinhavados nesses encontros fora dos holofotes.

Dona Dilma, num esforço desesperado para comprir metas fiscais, tomou a constrangedora decisão de anular viagem ao Japão e ao Vietnã programada para a semana que entra. A COP21 favorece encontros bilaterais – desde que haja vontade de ambas as partes. Seria razoável supor que a presidente se preparasse a aproveitar a estada em Paris para trocar pontos de vista com os mandatários extremo-orientais que não poderá visitar.

Dilma Evo CorreaIsso era sem contar com a influência do inefável aspone Marco Aurélio «top-top» Garcia, personagem movido por lógica pessoal, diferente da nossa e frequentemente estranha aos interesses do Estado brasileiro. Entre 146 chefes de Estado, sabem os distintos leitores quais foram os escolhidos para um bate-papo neste domingo? Apenas quatro: a primeira-ministra da Noruega, um representante do Caribe, o presidente do Equador e… o presidente da Bolívia. Para nossa política externa, a conferência universal será tão proveitosa quanto uma reunião de condomínio.

Ir até Paris (com nosso dinheiro) para encontrar-se com Rafael Correa e Evo Morales, nossos vizinhos de parede? Francamente. Tendo à mão tanta gente de maior peso para os interesses brasileiros – grandes clientes, importantes fornecedores, fortes parceiros comerciais – por que deixar passar a ocasião? É de chorar.