Mortos compram armas

José Horta Manzano

Repórteres do Estadão tiveram a pachorra de esmiuçar um relatório do Tribunal de Contas da União focado na venda de armas e munições a particulares durante os quatro anos bolsonáricos (2019 – 2022). O que se descobriu ali é de assustar até bicho-preguiça.

* 94 pessoas já falecidas compraram cerca de 17 mil munições para arma de fogo

* Quase 12 mil indivíduos falecidos entre 2019 e 2022 possuíam mais de 21 mil armas registradas em seus nomes

* 2.690 foragidos da polícia possuem armais legais

* 5.235 cidadãos em cumprimento de pena conseguiram obter, renovar ou manter seus certificados de registro de arma de fogo (CRs)

* Indivíduos condenados por crimes graves, com mandado de prisão em aberto, conseguiram obter carteirinha de CACs e são suspeitos de estarem sendo usados pelo crime organizado como “laranjas”.

É de assustar ou não é?

Numa primeira análise, se poderiam pôr essas aberrações na conta de erros cometidos por zelosos funcionários ao cumprir as determinações de Jair Bolsonaro com relação ao afrouxamento de regras de compra e venda de armamento. Um lamentável efeito colateral do programa de rearmamento, digamos.

Uma reflexão mais profunda, porém, faz virem à tona eflúvios pestilentos do passado do capitão, homem que emergiu de um caldo de violentos milicianos e de desonestos militares de baixa patente.

De alguém habituado a tratar com indivíduos que fazem da violência seu modus operandi de todos os dias, é lícito imaginar que pretendesse contar com o precioso apoio armado dessa malta quando chegasse o momento do almejado golpe de Estado.

Nessa linha de pensamento, as aberrações reveladas pelo relatório do TCU deixam de ser “efeito colateral” para tornar-se “efeito desejado” do programa de disseminação de armas.

Quanto mais braços para erguer o salvador da pátria, melhor seria. Além dos habituais sectários verde-amarelos, seriam também bem-vindos: milicianos, foragidos da polícia, cidadãos em cumprimento de pena, indivíduos com mandado de prisão em aberto. Todos armados, bem entendido. Até mortos podiam comparecer, desde que entrassem para a seita.

Foi por um triz. Para nosso alívio, a canoa furou.

A ministra que não foi

Santa Ludmila

José Horta Manzano

A doutora que recusou o convite de Bolsonaro (não sem antes ter se deslocado a Brasília para ser sabatinada, note-se) grafa seu prenome Ludhmila. É uma das numerosas maneiras de escrever esse nome.

Ludmila é a forma mais comum. De origem eslava, o nome é bastante difundido na Rússia e na República Tcheca. Ocorre também nos demais países eslavos e, de certa maneira, no resto do mundo.

É composto de duas raízes: liud (povo, gente) + mila (graça, bondade). Não há que buscar um ‘significado’ na junção dessas duas raízes. Como os germânicos, os eslavos simplesmente associam, ao compor os nomes próprios, duas ideias agradáveis ou positivas.

Santa Ludmila foi uma princesa da Boêmia (uma das regiões da Tchéquia atual). Morreu assassinada faz exatamente 1100 anos, em 921, por volta do dia 15 de setembro. Embora seu assassinato tenha decorrido de intrigas palacianas e não se tenha dado exatamente por motivos de fé, foi canonizada pouco depois da morte e é considerada mártir da Igreja. A hagiografia católica fixou sua festa em 16 de setembro.

Seu nome tem numerosas variantes de grafia: Ludmilla (em alemão), L’udmila (em eslovaco), Ludzimiła ou Ludomiła (em polonês). Nas línguas que usam caracteres cirílicos, como o russo e o búlgaro, escreve-se Людмила (Liudmila).

Não resisto a uma observação mordaz. Os componentes do nome Ludmila (povo + bondade) definitivamente não combinam com o estilo bolsonárico. A parceria entre a doutora e o presidente não tinha como dar certo.