Renascendo das cinzas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dor de dente 1Quando se espreme um abcesso, é inevitável que uma torrente de pus seja lançada para todos os lados. Por mais constrangedor e nauseante que possa parecer o processo, é a única medida recomendada pelos especialistas médicos para aliviar a dor, o inchaço e a inflamação. Uma vez eliminada toda a carga de pus – e um pouco de sangue, que costuma vir junto – basta fazer a assepsia do local para restaurar as condições ideais que deem início ao processo de cicatrização.

Assistimos domingo, estupefatos, ao estouro de mais um abcesso político que insistia em combalir e fazer padecer o organismo da sociedade civil. O volume de toxinas lançado foi tal e tamanho que muitos preferiram não ver o término do processo.

Hoje de manhã, um pouco mais aliviados com a descompressão experimentada, nos percebemos ávidos pela decretação urgente de assepsia profunda no corpo político brasileiro. Ainda enojada, a maioria da população se dá conta de que o tecido parlamentar abriga múltiplos outros abcessos. Mais grave, que as mãos dos próprios médicos responsáveis pela assepsia estão contaminadas. Agora, inquietas, as pessoas buscam-se umas às outras para debater como foi que nos permitimos chegar a esse grau de degradação.

Band-aid 1Um belo momento para reflexão e mea culpa coletivo. Fomos nós mesmos, não há como negar, os responsáveis pela entrada de tantas bactérias e germes em nossa circulação sanguínea. Não percebemos a tempo que nossa epiderme cidadã ainda estava em processo de regeneração das fissuras causadas por décadas de exceção. Sabíamos que havíamos queimado etapas, mas achávamos que era preciso esconjurar os tempos sombrios que passamos vivendo em meio ao lixo da história. Apostamos na esperança de adoção de hábitos políticos mais higiênicos e em nossa capacidade de construir uma sociedade mais afastada da promiscuidade ideológica. Quando os ventos dos tempos de bonança sopraram, soltamos um pouco mais o nó da gravata, nos acomodamos confortavelmente no sofá, abrimos uma cerveja e ligamos a televisão para afastar ao menos temporariamente a dura realidade.

O preço da liberdade é a eterna vigilância, já disse alguém. Embora soubéssemos disso, confiávamos que acordaríamos de nossa merecida soneca com mais garra para vigiar os passos de nossos novos conselheiros. A musculatura relaxada, todavia, não nos permitiu manter a vigília. Aos poucos, fomo-nos tornando mais complacentes com velhos hábitos insalubres e voltando a frequentar ambientes poluídos. Não instalamos os filtros recomendados para purificar o ar da alfabetização política. A reinfestação foi inevitável.

Sol 2Culpa de nossa ingenuidade, de nossa imprevisão? Talvez, mas ainda prefiro acreditar que tudo o que é humano é provisório, imperfeito, limitado. Já aconteceu antes e vai acontecer de novo, com certeza. Não temos a sabedoria dos deuses nem a paciência dos santos. Hora de lamber as feridas, lavá-las com água oxigenada, fortalecer nosso sistema imunológico com doses diárias de conversação e tolerância.

Aliás, o consenso que começa a nascer ‒ de que é imprescindível superar divisões, juntar razão e emoção para enfrentar o difícil trabalho de desintoxicação ‒ é a mais reconfortante e comovente notícia do dia.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Experiências informáticas avançadas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

ComputadorAlguém já disse um dia que o Deus Informático se comporta exatamente como o Deus cristão do Velho Testamento: irascível, autoritário e vingador. É bem verdade que os novos equipamentos têm se mostrado mais user friendly mas experimente desrespeitar qualquer dos mandamentos tecnológicos para perceber num segundo todo o poder devastador da ira do Deus Informático: placas queimadas, apagamento de todos os dados contidos na memória, travamentos que só se resolvem quando se desliga o equipamento e se começa tudo de novo. Experiências dessa ordem deixam claro que o Deus Tecnológico é, sem dúvida alguma, o melhor adestrador de humanos de que se tem notícia.

Computador 3Pessoas da minha geração, especialmente as mulheres, se acostumaram a utilizar equipamentos mesmo sem conhecer as regras básicas que regem seu funcionamento. Considere, por exemplo, os carros. Você não precisa entender de mecânica de automóveis para dirigi-los. Se alguma coisa quebrar, basta parar o carro, ligar o pisca-alerta e procurar ajuda especializada. Se você estiver em uma estrada deserta, pode ser que seja de ajuda localizar o manual de instruções no porta-luvas do veículo e ler todo o capítulo referente ao problema apresentado na seção trouble shooting. Em última instância, o mais aconselhável é trancar o carro e tentar uma carona. Se nada disso resolver, ainda resta o recurso de apelar para o Deus de sua fé.

Computador 6Voltemos aos computadores. Utilizo essas máquinas infernais já há algumas décadas, sem jamais ter lido os manuais de instrução e sem ter sido treinada a identificar todos os recursos de cada equipamento. Todo meu saber vem da prática, dos truques que tive de aprender diante dos inúmeros problemas que já enfrentei. Nunca dei importância às informações técnicas sobre sistema operacional, processadores, navegadores e quejandos. A mim basta que a máquina obedeça aos meus comandos. Eu penso e ela, não.

Computador 2Num dia da semana passada, de manhã, num gesto mecânico, me conectei à internet e cliquei sobre o ícone do Internet Explorer. Esperei alguns segundos, a página surgiu mas, para meu espanto, permaneceu em branco, exibindo apenas o endereço do site no alto. Esperei mais alguns segundos e nada. Já um tanto irritada, tentei atualizar a página. Nada! A ventoinha começou a funcionar e o ruído foi crescendo de intensidade, como se a máquina estivesse fazendo um esforço hercúleo para parir a página, sem sucesso. Assustada, tentei fechar o navegador e me desconectar mas, por algum motivo que desconheço, a danada da maquininha se recusou a obedecer. Era como se ela me dissesse: “Agora, não. Ainda não terminei. Respeite meu sofrimento”.

Computador 5Alguns minutos mais tarde, consegui finalmente interromper aquele parto encruado. A ventoinha desligou e a máquina sossegou. Meu cérebro, não. O que estaria acontecendo? Onde foi que eu errei? Tentei de novo. O fenômeno se repetiu. Resolvi apelar para um dos anjos informáticos: o antivírus. Talvez, pensei, um bug tenha se infiltrado no pobre equipamento durante a madrugada. O recurso funcionou perfeitamente e a resposta foi negativa. Não havia nenhuma bactéria infestando os miolos da máquina. Bom, concluí, pelo menos descobri que o problema não está no modem da conexão. Pode ser que haja alguma instabilidade no navegador ou no próprio site.

Computador 4Entrei em contato com um sobrinho entendido nas artes da computação. O diagnóstico foi sombrio: não deve ser o navegador, talvez seja algo mais profundo e mais grave com o hardware. Em todo caso, ele não podia me ajudar porque estava saindo de viagem e só voltaria dois dias mais tarde. Apelei para outro sobrinho que, como o primeiro, estava ocupado no trabalho e arrumando as malas para uma viagem internacional.

Computador 7Passei os três dias seguintes me sentindo desamparada técnica, intelectual e moralmente. Com que, então, não havia nada a fazer a não ser esperar e me resignar. Paciência e resignação não são, no entanto, meus pontos fortes. Sentei-me diante da tela do computador por volta das 10 horas da noite. Lambi com os olhos cada ponto do monitor, na tentativa de identificar qualquer coisa fora do habitual. Olhando os diversos ícones da área de trabalho me dei conta de repente que todos tinham uma setinha embaixo, menos o do Internet Explorer. Eureka! Cliquei nesse ícone com o botão direito do mouse, entrei no link Propriedades e lá estava mais um: Criar atalho. Em seguida, apareceu “Conectar-me à Internet”. Cliquei mais uma vez e, em segundos, lá estava o site desejado em seu pleno vigor.

Interrompi a operação por alguns segundos, ainda extasiada, para agradecer ao Deus Informático por ter me permitido penetrar nos mistérios dos recursos tecnológicos que meu computador já devia possuir desde o dia em que foi comprado. Exausta (já eram 3 horas da manhã), pude finalmente condensar toda a sabedoria que me invadiu. O segredo, caros internautas, é derivado da filosofia zen: use as armas do inimigo contra ele mesmo. Autoconfiança sempre!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.