Caso de consciência

José Horta Manzano

O bombardeio do Irã, executado por um consórcio integrado por EUA e Israel, está se tornando um caso de consciência. É daqueles acontecimentos históricos que não deixam ninguém indiferente, complexo demais para ser julgado apenas com um like ou um dislike.

Ao final dos anos 1970, na sequência de uma revolta popular, o xá, monarca cujo regime prendia o país a moldes medievais, foi a grande vítima de uma revolta popular que o escorraçou e o despachou em humilhante e estéril peregrinação. Nenhum país estava disposto a acolhê-lo.

Mas não vamos aqui contar a história da derrocada da curta dinastia Pahlevi. A Wikipédia conta melhor que eu, com datas e detalhes.

Livre do regime duro do xá, o Irã mergulhou numa teocracia, uma mistura perigosa de religião e política que tem sempre altíssimo potencial de não dar certo. De fato, não deu. Desde os primeiros anos, bateram de frente com os EUA, o que não deixa de ser imprudente. Tiranizaram a população, foram alvo de embargos e sanções, situação nas quais é o povo que acaba sofrendo, não os dignitários.

Nos fortes protestos do começo deste ano, contagem extraoficial chega a 6.000 mortos – assassinados pelo regime. O mundo inteiro sentiu dó dos pobres iranianos, apanhando em casa, sem possibilidade de deixar o país, sem futuro, as mulheres aprisionadas em casa como nos tempos de antigamente.

Foi nesse quadro desolador que as bombas e os mísseis israelo-americanos despencaram. O alvo eram as autoridades maiores do regime, civis e militares, incluindo o guia supremo. Sabe-se que o guia supremo pereceu no bombardeio de seu palácio. O governo americano explica também que praticamente todos os alvos foram “neutralizados”.


“Chanceler da China afirma que matar o líder de um Estado soberano é inaceitável”,
leio numa manchete.


Não há como discordar. O manual do planeta civilizado ensina que não se devem praticar assassinatos políticos, especialmente contra chefes de Estado. Por esse manual, Estados Unidos e seus acólitos israelenses cometeram crime inaceitável. Nenhum país civilizado poderia aceitar um fato como esse. De fato, o Brasil, assim como numerosos países europeus, emitiram notas de protesto.

Por outro lado, o objetivo apregoado por Donald Trump tem forte apelo humanitário. Um povo como o iraniano, que vive há décadas oprimido por um regime tirânico, precisa desesperadamente que a salvação venha de fora. Sozinhos, não conseguirão. A revolta de janeiro já demonstrou que o regime e seus sicários não permitirâo que o poder da cúpula atual seja confrontado.

Nessa visão, dá um grande alívio que os bombardeios tenham dado início à corrida em direção a um futuro melhor para os iranianos. O povo já deve ter entendido que outra oportunidade como esta não vai aparecer tão já. É bom aproveitar. Mas cuidado com aventureiros, que sempre surgem nessas horas, prontos a tomar as rédeas do poder.

Conclusão

1) Como democrata e simpático à causa da soberania dos povos, fico chocado com qualquer intervenção armada vinda do estrangeiro, que tente impor, de fora para dentro, suas convicções.

2) Como adepto de uma visão humanista e universalista, fico aliviado e feliz que um futuro melhor se esteja abrindo para o povo iraniano, ainda que à custa de intervenção armada estrangeira.

E agora?