Codinome

José Horta Manzano

Quando alguém ou algo é chamado por um nome que não é o seu, há várias maneiras para dar nome ao nome – se é que ouso me exprimir assim.

Entre nós, a forma mais usada é apelido.
Ex: O nome dele é Antônio mas o apelido é Tonico.

Em Portugal, preferem utilizar alcunha.
Ex: Este é o tão falado Rayovaque, cuja alcunha é “Rei”.

Cognome é palavra mais rara. Substitui apelido e alcunha.
Ex: No soldado mais valente, puseram o cognome de “Ludovico”.

Na linguagem da geração Z, está em voga o termo americano nick.
Ex: Ei, galera! A influenciadora é a Kriseldina. O nick dela é Kris.

Foi na ditadura militar que o termo codinome apareceu. É de uso restrito. Costumava ser atribuído aos que pegavam em armas para combater o regime. A ditadura acabou, mas tem gente que usa o termo até hoje.
Ex: O guerrilheiro mais ousado do grupo leva o codinome de “Ludovico”.

No exemplo acima, convém substituir codinome por “nome de código”. O melhor é deixar a expressão codinome morrer de morte morrida. Que se use uma palavra que não evoque período tão obscuro.

Candidatos: origem do sobrenome

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Antiguidade, não havia necessidade de sobrenome. Como vilarejos eram pequenos, o prenome bastava pra identificar cada membro da comunidade. Com o crescimento da população, na Idade Média, foi preciso acrescentar um especificador ao nome de batismo. A mudança foi gradativa e se fez sem método predeterminado. Os sobrenomes se classificam em cinco categorias principais.

1a) Patronímico
O prenome do patriarca serviu de sobrenome para a descendência. Alguns casos são bastante evidentes, como os ibéricos Péres/Perez (filhos de Pero), Álvares/Álvarez (filhos de Álvaro), Esteves/Estevez (filhos de Estêvão), Nunes (filhos de Nuno). Em território germânico, estão os Johnson/Jansen (filhos de John/Jan). Outros patronímicos saltam menos aos olhos.

2a) Toponímico
O nome de família tem relação com o lugar de origem do patriarca. Exemplos: Aguiar (lugar alto onde havia ninhos de águia), da Costa, do Monte, Napolitano, de Toledo, Ribeiro (da beira do rio), Castelo Branco (nome da cidade).

3a) Profissão ou ocupação
O ofício do patriarca acabou dando sobrenome à descendência. A profissão de ferreiro por exemplo, deu: Ferreira, Herrera, Fabbri, Lefèvre, Smith, Schmid, Kovac. Temos ainda: Pastor, Farina, Molino, Trigueiro. Poucos sobrenomes portugueses entram nesta categoria.

4a) Alcunha
Esta tendência é interessante e muito difundida. Famílias ficaram conhecidas por alguma característica física do patriarca ou pela alcunha dele. Calvo, Preto, Manso, Gago, Valente, Bravo.

5a) Nome religioso
Muitas famílias têm sobrenome relacionado com a religião. Exemplos: de Jesus, Assunção, São Marcos, dos Santos, Batista.

Analisei o sobrenome dos principais candidatos à Presidência. A origem de cada um deles está aqui abaixo.

Henrique Meirelles
Meirelles é toponímico. Deriva do município de Meira, na província de Lugo, Galiza, Espanha.

Álvaro Dias
Dias tem origem patronímica. Equivale ao Diez espanhol. Deriva do nome próprio Diago, variante de Diego, Tiago e Iago. Na Idade Média, quando foram adotados sobrenomes, o patriarca devia chamar-se Diago.

João Amoedo
Amoedo é toponímico de origem galega. É o nome de um distrito do município de Pazos de Borbén, na província de Pontevedra, Galiza, Espanha.

Jair Bolsonaro
Bolsonaro é topônimo. É transcrição errônea do original Bolzonaro. O patriarca deve ter sido originário do município de Bolzano Vicentino, situado na província de Vicenza, Vêneto, Itália.

Guilherme Boulos
Boulos é patronímico. É a versão árabe de nosso nome próprio Paulo. A transcrição Boulos vale para a fonética francesa. Para ser pronunciado corretamente por nós, deveria ser grafado Bulos. Esse nome sugere que a família tem origem cristã.

Fernando Haddad
Haddad é nome de profissão. Em árabe, designa o ferreiro, uma das raras profissões da Idade Média, época em que o homem era faz-tudo, sem especialização. Este candidato é descendente longínquo de um artesão da forja.

Ciro Gomes
Gomes é sobrenome patronímico comum ao espanhol e ao português (Gómez/Gomes). A origem é o nome próprio Gome, difundido na Idade Média, hoje desaparecido. Gome pertence à mesma raiz do latim homo (=homem).

Marina Silva
Silva é o sobrenome mais difundido nos países de fala portuguesa. É considerado toponímico, derivado do latim silva (=selva, mato, bosque, floresta). No Brasil, sua difusão foi amplificada pelo fato de muitos ex-escravos o terem adotado como nome de família.

Geraldo Alckmin
Alckmin não tem origem clara. É forte a probabilidade que derive do árabe al-kimyia, que significa química e também alquimia. Se assim for, trata-se de nome ligado ao ofício do patriarca.

Convite (acrescentado em outubro 2020)
Por ocasião das eleições 2020, escrevi novo artigo onde analiso o sobrenome dos candidatos à prefeitura paulistana. Está aqui.

Convite (acrescentado em novembro 2020)
Tendo em vista o sucesso deste post, recomendo ao distinto leitor dar uma espiada no artigo que escrevi para o Correio Braziliense em abril 2020 com outra hipótese para a origem do sobrenome Bolsonaro. Está aqui.

Codinome

José Horta Manzano

Estante e prateleira são sinônimos? Sim e não. A linguagem popular não faz muita diferença, usa um pelo outro. Mas o fundo das coisas é o seguinte: estante é um móvel composto de certo número de prateleiras. Portanto, stricto sensu, não são sinônimos exatos.

Estada e estadia são sinônimos? À primeira vista, sim. Acontece que cada um desses dois termos se especializou. Quando recebemos uma visita, dizemos que ela veio para uma estada de três dias. Se deixamos o automóvel num estacionamento, pagaremos um montante correspondente à duração da estadia do veículo. Navios também fazem estadia no porto. Convém, portanto, usar estada para gente e estadia para veículos.

Às vezes se ouve que um personagem qualquer do mundo das artes se apresenta sob o codinome tal. Nome, codinome, apelido, alcunha, cognome, denominação, epíteto são termos semelhantes, mas estão longe de ser sinônimos perfeitos. Cada um deles tem valor e peso próprios. Para não trocar os pés pelas mãos, convém respeitar essas particularidades.

Nome, apelido, denominação e epíteto são neutras, não trazem embutida nenhuma ofensa. O apelido de Roberto é Beto. Chamar Antônio Carlos Jobim de Tom não incomoda ninguém. Já o mesmo não se dá com os outros aparentes sinônimos.

Alcunha(*) e cognome são termos com forte carga depreciativa, que caem bem na linguagem policial. Tirofijo era a alcunha de um dirigente terrorista colombiano, desaparecido alguns anos atrás. Beira-mar é o cognome de conhecido traficante.

Por último, sobrou o estranho codinome. Não se pode cobrar de jovens jornalistas o conhecimento profundo de uma realidade que não viveram. Mas vale a pena aprender. Nos anos 1970, pequenos grupos, às vezes armados, se insurgiam contra o poder central. Na tentativa de burlar a repressão, seus membros ocultavam o nome de batismo e adotavam nome(s) de fachada, nome(s) de código. Foi nessa época que o vocábulo codinome se popularizou.

Aos remanescentes daqueles indivíduos — alguns dos quais chegaram, mais tarde, a ocupar postos de mando na República — não agrada que se tragam à tona símbolos que marcaram fortemente aqueles tempos duros. Um desses símbolos é justamente a palavra codinome.

É bom tomar cuidado com esse termo. Falando de bandido (ou de ex-bandido), use o termo que mais lhe agradar. Quando se referir a gente honesta, evite palavras depreciativas. Pega mal pra caramba.

(*) Nota
O presente artigo baseia-se nos costumes brasileiros. Em terras lusas, o peso e até o significado de determinadas palavras podem ser diferentes. Os portugueses chamam apelido o que chamamos sobrenome. Já quando dizem alcunha, referem-se simplesmente ao apelido de alguém. Sem carga pejorativa naturalmente.