José Horta Manzano
Se contar, ninguém acredita. Com toda a turbulência que o país atravessa, entre um conchavo e outro, suas excelências encontram o tempo de votar leis que frisam o ridículo. Anteontem, o Diário Oficial da União (da União!) informou que o chacoalhado presidente Temer, logo antes de viajar à Rússia, tinha sancionado uma lei votada pela Câmara.
A lei decorre de projeto apresentado em 2012 por um deputado ‒ que, desde então, não foi reeleito. Naqueles tempos em que o mensalão já assustava o país, o nobre deputado não encontrou nada melhor pra fazer do que propor o banimento do nome do Aeroporto de Congonhas, o segundo do país em número de passageiros. Segundo sua excelência, o aeródromo paulistano deveria ser rebatizado em homenagem a antigo deputado cearense.
Cada um tem sua opinião, que vivemos em democracia. No entanto, justamente para barrar ideias estrambóticas, as decisões parlamentares não são monocráticas, mas colegiais. Assim mesmo, o bizarro projeto foi adiante. Tramitou durante cinco anos e acabou sendo aprovado pela maioria de nossos representantes, o que deixa evidente a falta de espírito crítico da manada que fabrica nossas leis. Para coroar, o presidente sancionou. É o mundo de ponta-cabeça.
Meus leitores sabem que me oponho veementemente a dar nome de gente a logradouros públicos, prédios administrativos, estradas, estações, aeroportos & similares. Posso até admitir uma estreita exceção para aquela meia dúzia de heróis reconhecidos da nação. Agora, dar nome de deputado a aeroporto? Em que mundo vivemos? Se o autor do projeto venera a esse ponto o homenageado, que aponha uma placa com o nome de seu heroi na fachada de sua residência. Mexer com Congonhas, um patrimônio nacional? É falta de respeito e de consideração para com paulistanos, paulistas e brasileiros.
E pensar que suas excelências são sustentadas com nosso dinheiro, que gozam de prerrogativas pra lá de especiais, que recebem jetons e auxílio moradia, que têm direito a assessores, a passagens gratuitas, a imunidade judicial… Com tanto problema num país violento, pobre, injusto, à beira da convulsão, tudo o que conseguem votar é mudança de nome de aeroporto? Francamente…
Proibição
A partir de agora, ninguém mais pousa em Congonhas nem de lá decola. O nome oficial da estação aérea passou a ser Deputado Freitas Nobre (Fortaleza, 1921 ‒ São Paulo, 1990). Não se esqueça, distinto leitor. Quando entrar no táxi, ordene: «Toca pro Deputado Freitas Nobre!»
Vingança
O maior aeroporto brasileiro também foi vítima de atentado semelhante. Aberto em 1985, foi rebatizado em 2002 como Governador André Franco Montoro (São Paulo, 1916 ‒ São Paulo, 1999). O povo sabido deu de ombros e a mudança ficou no papel. Nunca, jamais, em tempo algum alguém disse que tinha embarcado em Governador André Franco Montoro. Continuamos todos a dizer Guarulhos. O mesmo acontecerá com Congonhas. E ponto final.






