Inversão preocupante

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A polêmica instaurada ao redor do tema da adultização de crianças e adolescentes – que, na verdade, parece ter apenas retomado a discussão mais antiga sobre a sexualização precoce – foi tão intensa que vem ofuscando um outro fenômeno que considero tão ou mais perigoso para as áreas da educação e da psicologia social: o da correspondente infantilização dos adultos.

Penso na frase de John Steinbeck: ‘A boy becomes a man when a man is needed’ (1). Afinal, é preciso perguntar: quem em nossa atual sociedade detém o poder e a autoridade para planejar a própria existência, tomar decisões responsáveis, assumir o comando dos próprios desejos e controlar desvios? Diz a lógica que, se não há um adulto na sala, resta a quem está dentro dela organizar-se para aprender, através de ensaio e erro, a tomar as rédeas da situação. Assistimos todos os dias figuras públicas de renome, em especial as pertencentes ao quadro político nacional, se comportando como a turma dos fundos da sala da 5ª série. E as consequências não poderiam ser mais previsíveis: pretensos adultos legislando por birra, chantagem e retaliação, governando por conveniências e espúria troca de favores e julgando por omissão dos outros poderes. Nada mais emblemático do que a velha máxima que alerta: ‘Quand le chat s’en va, les souris s’amusent’. (2)

E vejam que não estou falando de idade cronológica. Estou me referindo à maturidade intelectual e emocional necessária para ser membro proativo de uma sociedade harmoniosa, colaborativa e equilibrada, que vise ao bem comum.

Vale a pena rememorar como esse fenômeno foi se desenrolando: primeiro foi a onda dos livros de colorir. Milhares de pessoas, homens e mulheres, aderiram à moda alegando que eles representavam um alívio importante do estresse cotidiano, além de ajudá-las a desenvolver sensibilidade humana e artística. Era um encontro com um bem-vindo aliado para lidar com um mundo centrado na compulsiva produção de resultados financeiros e pouca ou nenhuma sensibilização para com as necessidades individuais.

Na sequência, vieram os bonecos Labubu, uma mistura intrigante de pelúcias fofinhas e monstrinhos excêntricos. Vendidos como itens de luxo, acessíveis apenas a uma elite enfadada com os símbolos convencionais de status, eles rapidamente extrapolaram o universo infantil e passaram a ser objetos de desejo de adultos arregimentados por influenciadores digitais e subcelebridades.

Daí veio a onda mais forte, mais preocupante e mais duradoura: a dos bebês reborn. A moda se espalhou como um rastilho de pólvora entre mulheres de todas as idades e classes sociais, apesar do alto custo de exemplares personalizados. Evoluiu de tal forma, num crescendo de perda de contato com a realidade, que chegou ao ponto de uma mulher levar seu boneco para consulta com uma pediatra, a qual acabou sendo processada pela “mãe” por ter recusado o atendimento.

Esses bebês acabaram se tornando testemunhos sombrios da profunda solidão feminina em meio a um mundo misógino e violento, e da angústia diante de laços afetivos que se esgarçam com o tempo, como na relação com filhos humanos reais, ainda que possam ser entendidos também como uma forma de escape do dilema de não poder conciliar a maternidade e o investimento na carreira profissional, ou de não ter como lidar com a síndrome do ninho vazio.

Apesar de muitos profissionais da área de humanas defenderem que se trata de uma forma “saudável” ou aceitável de lidar com o sofrimento psíquico da vida real, fico me perguntando o que diria o papa Francisco se vivo ainda estivesse. Depois de tanta peroração contra a tendência de substituir filhos humanos por pets, como trabalhar terapeuticamente a urgente necessidade que muitas mulheres sentem hoje em dia de pertencimento, inclusão, acolhimento, respeito e imagem de respeitabilidade, de toque sensorial afetuoso, do desejo de cuidar e ser cuidado?

Mas, se cães e gatos já preenchiam as expectativas parentais de não serem abandonados um dia por seus filhos e de terem companhia amorosa na velhice, será que bebês reborn foram projetados para assumir o mesmo papel? Honestamente, eu duvido. Interagir com seres vivos é uma coisa bem distinta da falta de troca energética quando o apego se dá com objetos inanimados. Ainda sinto arrepios só de pensar na rotina de “cuidar” de uma boneca, sem dispor da fértil imaginação infantil: corpo imóvel, ausência de sons (choro e sorrisos) e impossibilidade de mudança/evolução no status da relação. Para mim, o inanimado está associado à morte, corresponde à relação com o próprio vazio existencial e com o que já está morto dentro de cada um – o que, sem dúvida, pode levar a um perigoso aprofundamento das doenças mentais e alucinações.

É na intersecção desses dois fenômenos – adultização de crianças e infantilização de adultos – que, a meu ver, precisa ser buscada a solução. O uso abusivo de telas, que interfere no cotidiano de todas as idades, restringe dramaticamente as vivências emocionais e corporais, prejudica o contato consciente com as pulsões do mundo interior e anula a possibilidade de transcendência.

O que ainda está por vir nesse contínuo de desorientação coletiva? A julgar pela recente tendência de buscar respostas através da “terapia” com chatbots e recursos de inteligência artificial, ainda teremos de enfrentar muito suor, sangue e lágrimas para redefinir o que significa “maturidade”.

(1) Um menino torna-se homem quando é necessário [contar com] um homem.
(2) Quando o gato vai embora, os ratos se divertem.

Bem-vindo ao verão brasileiro em tempos de aquecimento global

Brazilian summer

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Já ao acordar, você sente um fio de suor escorrendo lentamente do seu couro cabeludo, percorrendo toda a extensão dos fios de cabelo da sua nuca, pingando e se espraiando pelo pescoço. De lá, ele se junta a outros fios de suor que escorrem da fronte e das têmporas e vai aos poucos formando um rio caudaloso que invade o peito, o espaço entre os seios, escorre pela barriga, desce pelas axilas, costas, braços e pernas. Em poucos minutos, seu corpo vira um pântano pegajoso que faz suas roupas grudarem na pele e começarem a exalar mau cheiro.

Você entra no chuveiro, na vã esperança de encontrar um mínimo de alívio. Mas descobre logo de cara que de nada adianta optar por uma chuveirada gelada porque parece que seu corpo a entende como provocação: tão logo você fecha a torneira, ele revida e a transpiração amazônica retorna a todo vapor. Outra descoberta que você faz segundos após sair do banho é que parece que seu corpo não vai ficar enxuto nunca mais: o simples esforço de esfregar a toalha na pele ou de se inclinar para enxugar os pés já detona a volta de uma atividade desenfreada das glândulas sudoríparas. Só lhe resta deitar-se nua em um quarto escuro, com o ventilador ligado, e permanecer imóvel por pelo menos quinze minutos. Esqueça o perfume e o creme hidratante: parece que qualquer produto adicionado à pele cria uma barreira térmica que tapa os poros e multiplica a sensação de calor.

Assim que você se levanta novamente para colocar a roupa, a sensação é a de que faz mais de um ano que você não toma banho: seu corpo já está melecado de novo. Inútil voltar para o chuveiro, uma vez que o ciclo vai se repetir inexoravelmente. Mesmo inconformada, você se veste com as roupas mais leves possíveis e tenta se concentrar nas tarefas do dia. Se o trabalho é fazer a faxina e depois preparar o almoço, você transpira como se estivesse fazendo crossfit numa academia lotada e sem ar condicionado. Se o trabalho é de ordem intelectual, seu cérebro simplesmente se recusa a obedecer a comandos: as células nervosas já entraram em curto e a conexão entre Tico e Teco cai a cada 10 minutos mais ou menos.

A irritação só faz crescer ao longo do dia. Sua fome evapora. Todos os seus órgãos internos parecem ganhar uma dose extra de sensibilidade: seu pulmão joga a toalha de puro cansaço por ficar puxando o ar quente; seu estômago dói caso você ingira algo um pouco mais substancioso e a náusea sobe ao seu esôfago tão logo você sente o cheiro de comida quente; seu fígado entra em colapso com qualquer alimento gorduroso e seu intestino se solta minutos após você ter ousado comer algo mais condimentado.

As emoções se descontrolam. O barulho e a luz incomodam, fazendo você querer se isolar. Qualquer estímulo imprevisto, seja um telefonema de telemarketing ou uma discordância casual de pontos de vista, tende a servir de gatilho para uma crise nervosa. As sensações de cansaço, tontura, dor de cabeça, dor nas costas e peso nas pernas fazem você se sentir com 90 anos de idade e sua aparência desgrenhada a leva a acreditar que é indigna de afeto.

Por volta das 4 horas da tarde, você olha pela janela e percebe que se anuncia uma tempestade daquelas e que, provavelmente, se isso acontecer, você vai ficar sem luz devido à queda de árvores sobre a rede elétrica. Falta de luz leva à falta de água pelo colapso das bombas, o que significa que não haverá outro banho à vista até o final do dia ou até o dia seguinte. As nuvens cor de chumbo e o vento violento avisam que é preciso fechar as janelas, mas como? Não dá nem para imaginar como será possível respirar num ambiente totalmente fechado quando a sensação é de já estar com a cabeça enfiada dentro de um forno aquecido. Você reza para que a temperatura despenque tão logo o temporal acabe, mas suas preces são solenemente ignoradas: do solo aquecido sobe um vapor de água quente e a sensação de mormaço fica ainda pior.

Mais à entrada da noite, a temperatura se estabiliza por volta dos 28/30 graus e segue caindo lentamente, chegando aos 21/23 graus por volta da meia-noite. A pergunta, então, passa a ser: quem consegue dormir confortavelmente com todo esse calor? Mesmo descartando as cobertas, o mais provável é que você acorde ainda de madrugada mergulhada em uma poça gigante de suor, que toma conta até dos travesseiros.

Exagero? Pode ser que sim, mas aprendi que muitas vezes é preciso exagerar para ser entendida. Só quem passou pela experiência do verão em terras brasileiras na última década pode dizer se esse relato cru retrata ou não a realidade. Certamente, não se trata de um relato totalmente isento: além de se referir a sensações eminentemente femininas, admito que ele é reflexo de um provável trauma meu de infância. Nasci num mês de fevereiro e fico esbaforida só de pensar no calor que qualquer recém-nascido era obrigado a enfrentar naquela época. Para quem não sabe, o costume era colocar no bebê primeiro uma camisetinha pagão para absorver a umidade da pele, por cima vinha um macacãozinho de um tecido mais encorpado que cobria os pés (ou, pior ainda, eram colocados sapatinhos de lã) e, na sequência, o bebê era enrolado num cueiro, com os braços presos para baixo. Inacreditavelmente, aquele infeliz temaki gigante era acomodado no berço, coberto por uma mantinha de lã. Como se não bastasse, não raras vezes as janelas do quarto do bebê eram mantidas fechadas, just in case…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Revendo

A arrogância dos 18 anos

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu tinha cerca de 18 anos. Com a arrogância típica dos que ainda não haviam sofrido perdas importantes, construí uma frase de efeito para impressionar meus amigos: “Se as pessoas pudessem se odiar com a mesma liberdade interna com que amam, o mundo seria um lugar melhor”.

Acreditava piamente que a diminuição da hipocrisia social seria libertadora, na própria medida em que se abria automaticamente a possibilidade de o outro retrucar e apresentar sem pudor suas próprias ‘verdades’, mostrar outras perspectivas comportamentais, expor diferentes visões de mundo que resultassem em maior acolhimento das diferenças. Sabia que havia o risco de o insultado causar uma dor ainda maior naquele que houvesse dado início à divergência, mas me parecia que valeria a pena autorizar-se a fazer uma profunda faxina interior e livrar-se dos próprios preconceitos, medos, ilações indevidas e ressentimentos. Só não contava então com o surgimento de uma inovação tecnológica que permitisse que os haters se escondessem atrás de uma tela, anônimos e aspirando à impunidade. Para que minha tese de então funcionasse, compreendo agora, era preciso que o embate se desse presencialmente, olhos nos olhos.

Mostrei a frase a um amigo, que era um famoso ator de cinema, teatro e televisão. Durante uma entrevista, ele a utilizou todo orgulhoso para marcar seu posicionamento contra a censura. Foi um Deus nos acuda. A polarização que se sucedeu abriu meus olhos para a inconsequência última da mensagem. Descobri o óbvio: odeia-se, quase sempre, aquilo que nos perturba e nos assusta por existir também dentro de nós. E pouquíssimas pessoas têm estrutura emocional flexível o suficiente para digerir certas verdades que tentamos esconder a qualquer preço.

Coragem aliada à transparência, essa era a mensagem pretendida. Não a mera expressão exibicionista de desgosto, repúdio. Hoje assisto aterrorizada à expansão irreprimível dos ódios gratuitos, da oposição ferrenha a qualquer pessoa que possa nos colocar limites, do gabar-se de ter a coragem de dizer o que todo mundo pensa, mas não ousa comunicar, sem medo das consequências da própria verborragia iconoclasta. Da petulância de julgar indistintamente e acusar sem provas qualquer um que se transforme em obstáculo para a implementação de nossos projetos mais secretos.

O cenário de final de feira é tão nauseabundo que me resigno a inverter a lógica da primeira frase. A partir de hoje, passo a afirmar uma crença ainda mais revolucionária e libertadora: a de que “se as pessoas ousassem se amar com a mesma liberdade interior com que se odeiam, o mundo seria um lugar melhor”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A velhinha do Alto da Lapa

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ingênua que sou, talvez até mais do que a própria velhinha de Taubaté, sempre acreditei que os nobres parlamentares eleitos para as duas casas do congresso nacional eram representantes da vontade popular. Ao menos eu votava tendo essa crença em mente.

Tolerei diversas vezes a inação dos presidentes da Câmara e do Senado, acreditando que não era mesmo o momento certo de pautar o impeachment do ex-presidente, dadas as terríveis contingências internas e externas causadas pela pandemia de covid. Fiz de conta que não percebi a tragédia da atuação em longo prazo das bancadas da bala, do boi e da bíblia, acreditando que o novo governo eleito teria forças e credibilidade para decretar o fim de tantas excrescências legislativas. Me irritei com a conduta misógina, racista e fundamentalista de figuras emblemáticas da atual composição do Congresso, mas deixei para lá acreditando que elas seriam punidas pela própria Casa, uma vez colhidas as abundantes provas de falta de decoro parlamentar.

Ultimamente, no entanto, eles não cansam de superar minhas expectativas mais pessimistas e de me causar perplexidade dia sim, outro também, com muitas de suas recentes decisões, sempre tomadas “na calada da noite” (desculpem o jargão, coisa de velha mesmo) e sem que elas tivessem passado por comissões especializadas ou discussão ampla com setores organizados da população.

Embora 72% dos brasileiros tenham repudiado o tarifaço de Trump e sua tentativa de intervir nas deliberações da mais alta corte brasileira, 53% tenham se manifestado a favor da prisão de Jair Bolsonaro e 55% se dizerem contrários à anistia dos golpistas de 8/1, nossos ínclitos parlamentares acharam legítima a iniciativa de obstruir a pauta de votações do Congresso, como se sua principal função legislativa fosse a de proteger aliados de sua causa ideológica ou defender interesses próprios em detrimento de causas importantes para a população, como a isenção de imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais. Além de pretenderem desconhecer as estatísticas e não se deixarem abalar diante da crescente imagem negativa do Congresso (que rivaliza com a do Judiciário e a do Executivo, diga-se de passagem), as recentes manifestações de rua serviram para evidenciar que eles não se envergonham de tomar a vontade da parte tenebrosa do rebanho bolsonarista-raiz como a do todo da população brasileira.

Juro que tenho me esforçado para entender os gestos kafkaescos dessa turma, de prestar continência à bandeira americana, apoiar as atuais e futuras sanções aos ministros do STF, não compreender o significado exato do conceito de soberania nacional e não perceber nenhuma consequência negativa do tarifaço imposto pelo mito-mor da extrema-direita mundial para a manutenção de seus próprios empregos e recuperação da economia, mas confesso que está sendo muito difícil, quase impossível, não ceder ao desejo de dar umas boas palmadas em seus traseiros flácidos, como faria sem pestanejar qualquer boa mãe latina.

Vou pedir ajuda espiritual a São Benedito, Santo Expedito e Santa Rita de Cássia das causas milagrosas, para voltar a acreditar que todo esse nonsense pode ser superado em breve, preferivelmente antes das próximas eleições. Se não der certo, prometo sair à rua com cartazes de apoio à internação obrigatória de toda essa gente alienada. No fim, como mostrou Machado de Assis, é bem possível que eu me junte a eles voluntariamente no hospício e até acabe por liberá-los, já que estatisticamente não passo de minoria da minoria da população brasileira.

Como dizia um amigo meu, não sei se sou eu que estou certa e eles errados ou se eles é que estão certos e eu me engano redondamente, mas, em última instância, por ser uma em meio a milhares, sei que sou eu que preciso mudar e me adaptar. Que os anjos e santos me ajudem a voltar a apostar cegamente na força da democracia brasileira. Amém.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Djin, djan, tchn

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ainda não sei ao certo como grafar essa onomatopeia. Algumas vezes o som sai mais parecido com djin e outras como djan ou tchn. Só sei que é automático: toda vez que eu me condeno por alguma coisa – como ter esquecido um compromisso, ter derramado o café ou deixado a comida queimar, perder a cabeça e gritar com minha já assustada cachorra – produzo sem querer esse som.

Estou falando de um estalo de língua involuntário, que lembra mais ou menos aquele tapa na testa que sinaliza esquecimento, vergonha ou arrependimento. Uma voz interna repete: “como você foi fazer isso?”, “como você é idiota, atrapalhada e teimosa”, “você já está velha demais para ainda não ter aprendido autocontrole”.

Acontece também quando quero demonstrar lamento por ter recebido uma notícia triste, quando alguém me nega alguma coisa ou me acusa de algo injustamente, ou ainda quando assisto a alguma reportagem sobre guerras/genocídios, fome, violência contra minorias ou a estupidez de algum governante ameaçando cortar verbas para a educação, cultura, saúde ou assistência social – ou, pior, tentando impor um retrocesso em direitos humanos conquistados a duras penas. Ultimamente, como todos bem podem imaginar, a frequência desses estalos tem sido tão alta que no final do dia minha língua parece estar em carne viva.

Fico sempre extremamente curiosa para saber se mais alguém tem essa mania, ainda que não ouse perguntar pelo medo de estar constrangendo a pessoa ou de ela achar que eu penso que ela é louca. O mais perto que já cheguei de descobrir se há um equivalente desse tique nervoso entre nós ou em outras partes do mundo foi ao ver o famoso tsc, tsc, tsc, facilmente encontrado em gibis, principalmente americanos. Não sei por que esse jeito deles de grafar o som precisa ser repetido três vezes – deve ser por necessidade de enfatizar a discordância, a incompreensão ou por causa da típica mania de grandeza que eles têm, sabe-se lá.

No meu caso, o “djin” ou “djan” ou “tchn” acontece uma única vez a cada lembrança ou sensação de desalento. De qualquer maneira, me parece que a semelhança termina aí. Acredito que o “tsc” elevado ao cubo sinaliza mais propriamente a condenação de terceiros, enquanto meu estalo único indica no mais das vezes autorrecriminação e só eventualmente tristeza ou falta de esperança.

Mas, você pode estar se perguntando, que importância tem isso? Nenhuma, admito. É só a vontade de saber se já posso começar a frequentar as reuniões dos Neuróticos Anônimos ou se alguma outra alma perturbada pode querer me fazer companhia.

Essa coisa de sons onomatopaicos como grafados nas diferentes culturas me intriga desde sempre. Não entendo por qual razão nós juramos de pés juntos que o pato faz “quá, quá, quá” enquanto os americanos e ingleses acham que na verdade ele faz “quack, quack”. Para mim, esse seria logicamente o som de um pato com soluço, não é verdade? O mesmo se aplica ao “au, au” ouvido pelos brasileiros versus o “woof” (que, para mim, é o latido exclusivo de cães de grande porte) ou o “bark” ouvido pelos falantes da língua inglesa.

Outro dia, ouvindo um pássaro cantando claramente “bem-te-vi”, fiquei me perguntando como estrangeiros decodificariam esse som. Corri para o Google e descobri que eles o chamam de “kiskadee”, embora o som traduzido ao pé da letra desse algo como “I saw you well”. Que maluquice! Só falta agora descobrir que o “tsc, tsc, tsc” seja, na verdade, o meu “djin” ou “tchn”, como diriam os cariocas.

Da mesma forma, nunca consegui entender como alguém pede socorro urgente gritando “au secours”. Até terminar de pronunciar a expressão, a vítima já morreu, não é mesmo? É bem verdade que o “help” é mais direto e rápido quando comparado ao nosso “socorro”, mas que se há de fazer? Somos prolixos por natureza.

Isso tudo me ocorre em paralelo quando constato que hoje em dia se deve escrever “ensino a distância”, sem o acento. Para mim, duas frases com significado diferente poderiam ser escritas dessa forma: 1) Eu ensino [o conteúdo] a distância [entre dois polos], e 2) Eu ensino à distância [de longe].

Aliás, dentre todas as regras impostas quando da reforma ortográfica elaborada para aproximar o falar do português brasileiro e o português de Portugal, as duas que mais me incomodam desde sempre são a de “à distância” sem crase e o “para”, do verbo parar, igualmente sem acento – isso sem mencionar que é preciso colocar o chapeuzinho no verbo pôr para diferenciá-lo da preposição. Lembro que no primeiro dia de vigência da nova norma a Folha de São Paulo escolheu como chamada principal a frase: “Passeata para a Avenida Paulista”. Ela poderia ser interpretada tanto como passeata em direção à Avenida Paulista quanto como passeata que interrompeu o trânsito na mesma avenida. Como distinguir entre elas?

Bom, por falta de um assunto mais estimulante, paro por aqui. Se uma pessoa misericordiosa achar por bem se manifestar em meu apoio, e criar coragem para me dizer que ela também passa os dias estalando a língua sem querer, vou ser eternamente grata. Já basta a desesperança de não ter dinheiro suficiente para retomar minha terapia.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Indignação

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Para espanto da plateia, o filósofo francês Luc Ferry afirmou certa vez durante uma palestra no Brasil que a indignação não pode ser considerada em absoluto um sentimento moral. E isso por uma razão muito simples: só nos indignamos com as ações e atitudes dos outros, nunca com nossas próprias. Temos sempre uma desculpa pronta para justificar qualquer ato moralmente reprovável que porventura tenhamos cometido: “Eu estava transtornado, perdi a cabeça”, “Estava sem dormir e tinha bebido muito”; “Só revidei depois de anos de injustas agressões contra mim”; “Não quis ofender ninguém com meu comentário, apenas usei as palavras erradas no calor do momento”.

Curiosamente, todas essas circunstâncias ‘atenuantes’ tendem a ser desconsideradas quando o que se está avaliando é a transgressão cometida por terceiros. Então, se sob o manto da moralidade esconde-se apenas a vontade de prejulgar e condenar, não faz sentido pedir isenção antecipada para os próprios desvios éticos, não é mesmo? Se eu acho que as contingências devem sempre ser levadas em consideração na análise da culpabilidade ou não da pessoa que cometeu a infração ética, então não passa de hipocrisia o arroubo passional condenatório demonstrado instantaneamente pela imensa maioria ao saber de uma notícia escabrosa de jornal, tevê ou de portais de notícias da Internet.

A indignação tem o mau hábito de reeditar, sob uma ótica dissimulada, a luta do ‘nós x eles’, colocando em lados opostos as ‘pessoas de bem’, amantes da verdade, da justiça e da ordem, ou seja, todos nós que nos pautamos pelas regras civilizatórias mais elementares e somos tementes a Deus, contra eles, os bandidos, os psicopatas, os genocidas, os corruptos e os que “não têm Deus no coração”. Montados em nossa alegada superioridade moral, rejeitamos até mesmo a ideia de incluí-los na categoria de humanos: são todos monstros, animais, aberrações da natureza. Assumir que a condição humana abrange tanto um lado luminoso de altruísmo quanto um lado sombrio de busca desenfreada pela autogratificação a qualquer preço é algo inapreensível pelas mentes honradas dos indignados crônicos. E, quando se revela que, em muitos casos, os causadores de nossa indignação eram anteriormente cidadãos pacatos, tímidos e gentis, essa divisão desaba por absoluta falta de sentido.

A ciência ainda não conseguiu identificar com clareza quais fatores biológicos, neurológicos e psicológicos/psiquiátricos estão na base de tanta torpeza humana. A discussão não termina nunca: a pessoa nasce assim ou é o ambiente no qual ela está inserida que favorece a eclosão de surtos de violência? A perversidade é fruto de genes deficientes ou de lares disfuncionais? Ela atinge todas as classes sociais ou é exclusividade das populações marginais? O que resta exaustivamente comprovado é que nunca nos consideramos pessoalmente sujeitos a cair na criminalidade, acreditamos ser imunes à doença mental e apostamos que nunca perderemos a capacidade de empatia e autocontenção, mesmo se submetidos a condições degradantes de vida e intenso estresse cotidiano.

Mas, se Luc Ferry está certo, que nome dar, então, ao sentimento que nos assola ao sabermos das atrocidades cometidas diariamente por indivíduos pertencentes a todos os setores da experiência humana? Talvez se pudesse denominar aquela sensação de travamento do diafragma, falta de ar, aperto no peito e nó na garganta de revolta, aversão, repulsa, estarrecimento ou qualquer outro sinônimo, mas nenhum deles parece dar conta de todo o peso emocional contido nos contínuos atentados à dignidade humana. De todo modo, cabe perguntar, parafraseando Shakespeare: se o sentimento de indignação tivesse outro nome, seria por acaso mais fácil de absorver, metabolizar e transformar?

E ainda, por que a tônica dos dias atuais parece ser a indignação compulsiva, em série? Somos expostos todos os dias a uma série infindável de notícias indignantes, veiculadas sempre em tom alarmista – seja no plano da nova ordem geopolítica, das guerras expansionistas e genocídios, as referentes à emergência climática, ao negacionismo científico ou aos danos psicológicos causados pelo avanço da IA, isso sem falar dos horrores próprios da criminalidade urbana.

O maior legado que minha professora de psicologia social, Ana Verônica Mautner, me deixou foi a ideia de que “Às vezes, é preciso não compreender”. Se, ao invés de tentarmos explicar os comos e os porquês da morte da empatia e dos valores iluministas, nos deixássemos afundar na perplexidade e na incompreensão, talvez fosse mais fácil encontrar respostas para reeducar nossas crianças e jovens. Só assim nos daríamos conta de que os mesmos demônios nos habitam.

Uma das consequências mais devastadoras da indignação em série é que ela permite a criação de uma espécie de calo emocional que acaba nos insensibilizando para a dor e o sofrimento causados nesta situação e nos preparando emocionalmente para reagir somente a crimes ainda mais perversos na próxima. É consequência da assim chamada banalização do mal.

Depois de muito pensar, acabei me dando conta de que não há nada de aleatório na divulgação espetaculosa de tantos fatos indignantes. Ao contrário, há uma intencionalidade difusa razoavelmente fácil de identificar por trás das manchetes: a necessidade de gerar a sensação de desamparo e desesperança crescentes na sociedade para, em consequência, vender a ideia de que só um líder absolutista com punhos de ferro poderá dar fim a toda espécie de injustiças e nos guiar rumo à eterna bem-aventurança. Trump, Bolsonaro e Milei estão aí para provar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Falta de profissionalismo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minha filha já foi sequestrada umas sete vezes e covardemente ameaçada de morte caso eu não providenciasse a recarga de um cartão pré-pago para seus algozes.

Minhas contas bancárias já foram invadidas por hackers umas cinco vezes e meus cartões de crédito já foram clonados várias outras. Se não fosse graças à presteza do gerente para me ligar alertando sobre movimentações suspeitas e disponibilizando um motoboy para retirar meu cartão, o prejuízo seria enorme.

Minha operadora de telefonia já me ligou duas vezes, comunicando que eles haviam sido multados pela Anatel por cobrarem uma taxa de ligações internacionais jamais feitas e que, por isso, se prontificavam a fazer o reembolso imediato dos valores recebidos indevidamente, bastando apenas que eu informasse o número da minha conta e a senha para o depósito.

Já fui advertida inúmeras vezes pela Netflix por não ter sido identificado o pagamento de parcelas atrasadas e que, portanto, minha conta seria encerrada. Os Correios já me notificaram diversas vezes de que um pacote referente a uma compra internacional teria sido apreendido pela fiscalização e que eu teria um prazo máximo para a regularização junto à Receita Federal. Também o Detran já emitiu vários avisos de que minha carteira nacional de habilitação seria suspensa caso eu não pagasse multas referentes a infrações de trânsito cometidas por mim. Em todos esses casos, vejam só quanta facilidade e cortesia, tudo o que eu precisaria fazer era escanear um QR Code ou copiar o código de barras para providenciar o pagamento.

Juro que eu entendo e me comovo com a dificuldade de sobrevivência de pessoas sem muita qualificação profissional que vêm lutando sem sucesso para abrir espaços no competitivo mercado de trabalho atual. Compreendo também a profunda desigualdade de oportunidades de acesso a uma educação de qualidade que mancha indelevelmente nossa combalida república.

Sei por experiência própria como é humilhante ir ao supermercado e ter de sair de mãos abanando por não dispor de fundos suficientes para encarar os preços hiperinflacionados de produtos básicos de alimentação e higiene pessoal. Porém, em meio a esse excruciante cipoal de tentativas de me separar do meu suado dinheirinho de aposentada, sinto a necessidade de aconselhar tantos e tão variados golpistas quanto às formas mais eficientes de administrarem seu “negócio”. Observem, por favor:

1. Não subestimem a inteligência de suas vítimas em potencial. O fato de uma pessoa ter chegado a uma idade avançada não significa que ela tenha obrigatoriamente de apresentar um déficit cognitivo. Podemos ser mais lentos para reagir, mas não incapazes de ligar lé com cré e desconfiar das reais intenções de pessoas que não conhecemos pessoalmente;

2. Antes da segunda tentativa de passar um golpe por telefone ou e-mail que já tenha ‘dado ruim’ na primeira, risquem imediatamente o número e/ou o endereço da vítima. Isso vai lhes poupar muito constrangimento e desviar sua atenção de contatos que poderiam lhes render muito mais frutos. É uma questão básica de organização e de planejamento, uma tarefa que pode facilmente ser delegada a um auxiliar qualquer;

3. Façam um curso rápido de imersão gramatical na língua portuguesa, dada a alta complexidade de suas regras e das infinitas exceções que ela comporta. Principalmente se a mensagem for escrita, é preciso atentar para o jargão da área, a concordância verbal e nominal, e evitar a todo custo o emprego de gírias e expressões populares. Isso reforça em muito a sua credibilidade e agrega um toque de simpatia ao seu esforço de convencimento da vítima;

4. Diversifiquem ao máximo seus golpes. O que vem acontecendo desde sempre é que alguém descobre um veio que mostra ser altamente promissor e ele passa a ser explorado ad nauseam por incontáveis outros garimpeiros. Sejam criativos também para agregar novos contornos a golpes já conhecidos, inovando nos detalhes da mensagem e contando com a ajuda da IA para reforçar o entendimento de que “é verdade este bilete”.

Cansada de ser assediada por tantos meliantes, desenvolvi algumas técnicas de negociação rápida que agora tenho o prazer de compartilhar com quem me lê:

Interrompa várias vezes o discurso alarmista do golpista, pedindo explicações e mais detalhes sobre a ocorrência. Isso costuma implicar muitos gaguejos e desculpas esfarrapadas que podem ligar o alerta de que o golpista não dispõe de tantos dados assim a seu respeito;

Na primeira vez que for abordado, deixe que o discurso golpista avance até chegar a um ponto crucial de persuasão e, ao final, informe placidamente que ele se equivocou e está falando com a pessoa errada. Aprenda a se divertir dizendo algo como: “Tudo bem, vou fazer o que você me pede, mas só tem um probleminha: eu não tenho filhos, não tenho conta nesse banco, não tenho cartão de crédito, não fiz nenhuma compra internacional, não tenho carro/não dirijo há meses, deixei de trabalhar com essa operadora de telefonia há dois anos, etc.

Ajude a profissionalizar nossos golpistas pé de chinelo, já temos concorrentes demais no universo político e empresarial.

A pátria agradece.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A síndrome e a pandemia do “entitled”

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O adjetivo “entitled”, popularmente usado há muito tempo na língua inglesa, é de difícil tradução para o português. Com exceção do óbvio sentido de “intitulado(a)” que se aplica mais especificamente a livros e textos, peças de teatro, filmes, quadros, etc., é bastante complicado encontrar uma única palavra que defina com precisão seu significado central, seja em português ou mesmo na língua inglesa.

Na essência, dizer que alguém se considera “entitled” diz respeito ao fato de que a pessoa acredita (ou imagina) que “tem o direito de”, dá-se permissão para dizer ou fazer algo ou, ainda, obter algum benefício, privilégio ou tratamento especial. Nem sempre a reivindicação é legítima, ou seja, relativa a um direito legalmente previsto – como o de receber aposentadoria uma vez cumpridos os requisitos legais. Muitas vezes a palavra é usada para se referir a um direito reivindicado “sem ter de se esforçar para conquistá-lo ou sem o merecer, apenas por ser quem você é”, como aponta o próprio dicionário Cambridge.

Nesse sentido, uma tradução mais comum entre nós é a de “permitir-se”, sentir-se “autorizado(a)” a emitir uma opinião, manifestar um pensamento/ comportamento, mesmo que ele não seja condizente com as normas do politicamente correto ou com os princípios democráticos, e mesmo que isso implique sofrimento ou constrangimento para terceiros, ou ainda a se sentir no direito de desrespeitar ou contornar restrições sociais em nome de nossa vontade soberana.

Filha dileta das carteiradas tipo “Sabe com quem você está falando?”, a síndrome do entitled transformou-se rapidamente em pandemia, com um poder de contágio só comparável ao do coronavírus. Das elites que se imaginam acima do bem e do mal para as classes populares, dos adultos para as crianças, dos homens para as mulheres, dos ateus para os religiosos fundamentalistas, dos militares para os civis. Se o entregador não aceitou subir até meu apartamento, dou-me o direito de agredi-lo verbal ou fisicamente. Se meus pais não aceitam meu namoro, sinto-me no direito de tirá-los do meu caminho à força para mostrar que quem manda no meu destino sou eu. Se minha ex-mulher acha que pode se envolver com outros homens, vou mostrar que ela está assinando sua sentença de morte. Se meu marido não me trata com respeito, não me custa nada colocar veneno na sua comida.

E por que isso acontece? Acredito que pode ter contribuído para a exacerbação da síndrome a profunda fragmentação das identidades e papéis sociais a que vimos assistindo ao longo das últimas décadas. Se antes as reivindicações aconteciam entre as diferentes “tribos” e grupos organizados de pressão, mais tarde elas se radicalizaram ainda mais com a pulverização das individualidades. Hoje em dia a única autoridade que respeitamos é a que vem de dentro, das convicções pessoais a respeito dos limites do poder aplicado às relações humanas. O mal-estar na civilização, a crise da democracia representativa e a adoção de regras típicas do mundo virtual transplantadas sem critério para o mundo real parecem ter sido outros fatores decisivos a determinar a extinção dos freios morais. E, quando a noção de bem comum se perde, é inevitável o surgimento de demandas paroquiais.

Por coincidência, durante meu período de recuperação de uma queda, tive acesso a dois livros que lançaram luz sobre outros fatores que podem servir de combustível para a síndrome do entitled. O primeiro, intitulado “Desaparecer de Si”, de David Le Breton, mostra como contemporaneamente as pessoas se esforçam para fugir das coerções de uma identidade que já esgotou seus propósitos, isolando-se do mundo ou aceitando o convite à experimentação de outras identidades. O segundo, intitulado “The tryumph of the slippers” [O triunfo das pantufas], escrito pelo filósofo francês Pascal Bruckner, mostra como a luta por um direito muda de sentido ao longo do tempo, podendo se transformar até no seu exato oposto. Durante a pandemia de covid-19, muitos líderes governamentais e boa parte das populações protestavam contra a determinação sanitária de ficar em casa, alegando que ela violava o direito constitucional de ir e vir. Pós-pandemia o cenário mudou radicalmente: depois de terem experimentado o conforto de poder ficar de pijama (e pantufas) o dia todo, não ter de enfrentar o trânsito caótico das grandes cidades, se alimentar mal e não poder acompanhar o cotidiano da família e a educação dos filhos, muitos trabalhadores passaram a defender o home office como uma questão de vida ou morte para as empresas e até como solução inesperada para enfrentar também os desafios de mobilidade urbana e proteção do meio ambiente. Hoje parece ser mais comum lutar pelo direito de não sair de casa do que alinhar-se com qualquer argumento racional de defesa do bem coletivo.

Outro fenômeno que tem chamado minha atenção para alimentar o entitlement é a emergência daquilo a que dei o nome de “arco reflexo emocional”. Sabe quando o médico bate com um martelinho no seu joelho e sua perna levanta sem que você tenha dado o comando para seu cérebro? Pois então, acredito que o mesmo está acontecendo no campo da neuropsicologia. Sem tempo para digerir as emoções provocadas por estímulos externos desagradáveis, tendemos a reagir de bate-pronto, sem considerar as consequências danosas de nossa reação sobre terceiros e sobre nossa própria imagem social. Distraídos com a miríade de estímulos multissensoriais em que as novas tecnologias nos afogam, acabamos abrindo mão de usar o cérebro humano como órgão emissor e permitimos que ele passe a ser mero receptor de informações vindas de fora. Sem a necessária mediação da reflexão e da introspecção, tenho medo de descobrir que a próxima luta na qual a humanidade vai se engajar será obrigatoriamente pelo direito de não pensar.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Amor próprio em queda livre

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ah, as peças que o inconsciente prega na gente!

Sofri duas quedas em sequência: a primeira, em maio do ano passado, quando fui derrubada e arrastada por minhas cachorras durante um passeio, e a segunda, em setembro passado, quando escorreguei “sem querer” em um rastro de óleo deixado pela minha atual companheira de quatro patas no chão da sala ao atacar uma lata de sardinhas que eu havia esquecido sobre a pia da cozinha.

Nas duas ocasiões, as consequências físicas foram terríveis: fratura no ombro esquerdo e fissura no quadril da primeira vez e agora fratura do fêmur e deslocamento grave da clavícula direita. Dores acachapantes, longos meses de fisioterapia para recuperar os movimentos, sequelas limitantes. Por quê? Eu estava passando por um período relativamente tranquilo de vida e de trabalho, embora me queixasse ocasionalmente de tédio e falta de perspectivas. Então, como explicar meu desejo inconsciente de me machucar?

À primeira vista, pode parecer que fui vítima involuntária de circunstâncias imprevisíveis. Aliás, esse costuma ser o argumento usado por 10 entre 10 vítimas de acidentes ou incidentes repetitivos. Curiosamente, nenhuma das minhas quedas ao longo da vida foi causada por distração, baixa visão ou problemas de articulação típicos dos idosos. Houve sempre um estímulo externo com impacto forte o bastante para me desequilibrar – o que pretensamente serviria para comprovar minha “inocência” na causação da queda.

Mas por que, então, a repetição de tantos acidentes? Lembro que no ano passado estava claro na minha consciência que eu sentia não ter forças suficientes para sair sozinha do buraco existencial e profissional em que eu própria havia me metido. Cheguei a perguntar a uma amiga, que funcionava como uma espécie de guru para mim, se ela achava que eu ainda estava sujeita a novas quedas ou se a simples conscientização quanto à minha responsabilidade já serviria para interromper a série de acidentes fortuitos. Ela me deu uma resposta à la lusitana, que guardo até hoje como alerta: “Se o motivo que leva você a cair desapareceu, então você não vai mais cair”.

Não é minha intenção psicologizar ou generalizar indevidamente as causas de uma ocorrência tão natural, inevitável na vida de seres bípedes. Parafraseando o velho e querido mestre Freud, às vezes um tombo é só um tombo mesmo. Mas, quando ele se repete indefinidamente e é causado por circunstâncias bastante diferentes entre si, há que se suspeitar da presença de um fator desestabilizador complementar à força da gravidade, não é mesmo?

Já tinha visto essa intrigante repetição de traumas físicos acontecer na vida de outras pessoas. Minha mãe, por exemplo, sofreu três quedas consecutivas após um longo e doloroso processo de divórcio: a primeira dentro de um ônibus, quando o motorista acelerou antes que ela pudesse se sentar; a segunda dentro de um taxi, que ela havia imaginado ser mais seguro, mas que bateu no meio do percurso, projetando-a para a frente e fazendo com que batesse a cabeça no painel; e a terceira, devido a um choque ultra potente no chuveiro que a fez voar e cair sobre o bidê, provocando fraturas em várias costelas e escoriações por todo o corpo e cabeça. Gato escaldado, ela me confidenciou que passou a sentir muito medo de ser atropelada. Não pude deixar de pensar com os meus botões que, sem o perceber, ela já havia permitido que a vida a atropelasse diversas vezes.

O que quero dizer com tudo isso é que o cenário para os tombos recorrentes é montado de tal forma que não reste a menor dúvida nos circunstantes de que a pessoa não teria como prever nem controlar o desenrolar dos acontecimentos. Contudo, a frequência, o sentido e a gravidade das lesões permitem começar a suspeitar que há vetores presentes no psiquismo da pessoa que apontam para a “vontade” – inconsciente – de se paralisar, de postergar indefinidamente a iniciativa de buscar ajuda e até a disposição de abrir mão da própria autonomia em troca de um amparo exterior.

Se examinadas com cuidado as circunstâncias anteriores à queda, é possível perceber que por trás de cada queda física repetitiva existe uma queda emocional, um abalo na autoimagem de competência, um rebaixamento da autoestima. Cair está simbolicamente associado com render-se à própria vulnerabilidade – o que um ego narcísico, controlador e perfeccionista (como o meu) não aceita. Tem a ver com a incapacidade de entrega amorosa às tentações (boas e más) do destino, fundada obviamente no medo da rejeição. Mas, forçoso é admitir, pode ser também uma maneira desesperada de materializar um sofrimento psíquico que muitas pessoas próximas não conseguem perceber.

O que a “vítima” de acidentes recorrentes não lembra antes de cair é que, ao abrir mão da própria autonomia, todas as decisões que determinam como ela prefere levar a vida passarão a estar dali em diante nas mãos dos cuidadores que se apresentarem para ajudar – até nas coisas mais simples, como a hora de acordar/ir dormir, o que comer ou como ocupar as horas vagas. Será que essa troca vale a pena? Uma coisa é certa: não basta levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima a cada vez que se cai.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A mão do destino

 

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Nos dois meses em que fiquei de cama sem poder andar e movimentar o braço esquerdo, passei intermináveis horas de angústia pensando em como seria possível voltar a administrar o cotidiano de minhas cachorras de uma maneira minimamente tranquila e segura.

Sabia que não poderia levá-las para passear sem contratar a ajuda de alguém e muito provavelmente só uma vez por dia. No restante do tempo, elas teriam de ficar enfurnadas no apartamento, sem nenhuma atividade estimulante com que se envolver. Estava também tranquila por saber que elas estavam morando numa casa com um grande gramado, no interior de São Paulo, na companhia de mais quatro outros cachorros, podendo sair à hora que quisessem, correr e brincar. Pelo que me contavam, a adaptação delas ao novo lar havia sido bastante rápida e tranquila graças a isso. Não sei o quanto a nossa abrupta separação significou sofrimento para elas no início, mas já intuía que jamais poderia competir na oferta de um cotidiano tão feliz e livre quanto esse.

Dividida entre a culpa pelo abandono e a tristeza de perder a companhia delas para sempre, eu ainda tentava negociar com minha consciência. Pensava em dezenas de arranjos intermediários, mas chegava sempre à conclusão de que nenhum deles seria efetivo a longo prazo. Tomei então a decisão mais difícil da minha vida: entre o sofrimento delas e o meu, entendi que a única solução viável era transferir a guarda das duas em definitivo. Apesar de já ter enfrentado a dolorosa perda de três cachorras por adoecimento e morte, eu nunca havia considerado a terrível possibilidade de me desvencilhar de nenhuma em vida.

Não é nem preciso dizer que, a partir desse dia, minha vida perdeu todo o seu propósito. Nas delirantes madrugadas insones, eu repetia para mim mesma que a única forma de encontrar algum conforto emocional seria cuidando de um outro ser vivo. Sem ter com o que me ocupar, a solidão e a depressão se instalaram de mala e cuia no meu cotidiano. Passava os dias sem sair de casa, sem interesse por absolutamente nada, nem leituras, nem música, em profundo silêncio.

Testemunhando minha tristeza, muitas pessoas amigas me aconselharam a adotar um cachorro de pequeno porte, que eu pudesse carregar no colo. Essa possibilidade, no entanto, me parecia eticamente indefensável. Era como se eu não estivesse me importando com o destino de minhas cachorras e as trocando por outra mais conveniente só para satisfazer meu ego. Quando a tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul começou, minha angústia extrapolou de vez. As imagens medonhas de animais resgatados de telhados ou ganindo de desespero nos abrigos por saudade de seus tutores me estimulavam ainda mais a me voluntariar para adoção.

Resolvi então fazer um trato com meu velho amigo, São Francisco. Prometi não procurar novos companheiros em sites de adoção ou pet shops, nem ir atrás de indicações de possíveis candidatos. Em troca, pedi que, se ele colocasse espontaneamente no meu caminho algum ser de quatro patas carente e abandonado, eu aceitaria assumir a responsabilidade de cuidar dele, mesmo que fosse apenas temporariamente.

Pouco tempo se passou desde então. No início da semana passada, recebi a ligação de uma sobrinha, perguntando se eu aceitaria acolher por alguns dias uma cachorra que havia sido resgatada das ruas, quase atropelada, até que seu tutor fosse localizado. Concordei um tanto hesitante ao ver a foto dela e constatar que ela era de porte médio, quase grande, o que equivaleria a trocar 6 por meia dúzia.

Ela me foi trazida no mesmo dia. Absolutamente traumatizada, a cachorra andava lentamente, de cabeça baixa e com o rabo enfiado no meio das patas traseiras. Não ousava me olhar, não produzia nenhum som e se recusou a comer ou tomar água, como se implorasse para não ser percebida. Dormiu nas 24 horas seguintes. Quando acordou, decidi levá-la ao veterinário para saber se ela estava doente. Nenhum problema de saúde foi identificado.

Como ninguém apareceu para assumir sua guarda, decidimos encaminhá-la para uma feirinha de adoção. E, para que isso fosse possível, era obrigatório que ela passasse por exames de sangue e ultrassom. Quando os resultados saíram, a inesperada surpresa: ela estava prenhe e 5 filhotinhos estavam sendo gestados. Minha cabeça entrou em órbita. Embora me preocupasse muito com o inferno que minha vida se tornaria com 6 cachorros circulando pelo apartamento e exigindo minha atenção constante, eu sempre tinha sonhado que minhas cachorras me dessem filhotes e me esforçado muito para que isso acontecesse, sem sucesso.

Eu estava em uma sinuca de bico: não poderia simplesmente jogar a cachorra na rua novamente e também não me sentia em condições emocionais de assumir uma tarefa tão gigantesca como essa. Resolvi então “entregar para Deus” a decisão final. No mesmo dia, a cachorra milagrosamente começou a abanar o rabinho de contentamento ao me ver e passou a me seguir como sombra, chiclete e carrapato.

Não pude deixar de pensar na esperteza da “friendly persuasion” de São Francisco. Afinal, ele não só havia me seduzido com a promessa de alegrias futuras, mas também estava me entregando a cachorra perfeita, talhada especialmente para meu estilo de vida e minhas limitações: calma, extremamente dócil, capaz de conviver bem com outros cachorros, sem latir, sem puxar nos passeios, amiga das crianças e dos idosos. O que mais eu poderia pedir do destino?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Musk, o TOD poderoso


Myrthes Suplicy Vieira (*)

Sabe aquela criança que passa o dia inteiro jogando videogame e, quando a mãe o chama para comer, ele responde “Agora não, mãe. Não estou com fome”? E, quando a mãe insiste, ela responde com agressividade: “Não enche, mãe, deixa de ser chata, estou quase passando de fase”. E, pela terceira vez, quando a mãe ameaça recorrer ao pai para ser obedecida, ela replica: “Tudo bem, não tô nem aí, pode chamar”. E, se finalmente ela perde a cabeça e bate no filho, ele reage com deboche: “Pode bater, não tá nem doendo!”.

Não conheço o histórico de vida de Elon Musk, mas por tudo que já li a respeito de suas ações no comando do X, da Tesla e da Space X, além de suas relações com Trump e outras figuras de extrema-direita no mundo e dos incontáveis conflitos que tem provocado com o sistema judiciário de diversos países, posso afirmar, sem sombra de dúvida, que ele se enquadra no diagnóstico de personalidade TOD, o transtorno opositor desafiador.

O TOD é comumente originado na infância e, embora não tenha uma causa específica, o risco de seu desenvolvimento costuma ser maior se os pais também têm a disfunção ou se a criança é abusada por eles e exposta a um ambiente hostil. Li recentemente que Musk teve um pai extremamente abusivo, que lhe infligia severos castigos corporais e desdenhava de suas emoções e comportamentos. Além disso, foi vítima de muito bullying na escola, tendo sido hospitalizado certa vez em decorrência de um espancamento de colegas. Em recente declaração, ele próprio admitiu “não dominar os códigos sociais”, isto é, ter dificuldade de reconhecer e entender as emoções de outras pessoas. E, por ser também portador da síndrome de Asperger (uma forma leve de autismo), como ele próprio alega, só é capaz de apreender o significado literal das palavras.

Ele diz lutar, por exemplo, pela liberdade de expressão – e, para ele, o conceito de liberdade é sem limites, não estar sujeito a nenhum tipo de amarra ou impedimento externo. Daí o corolário de que quem se opõe a esse “direito” é um “ditador brutal”.

É fácil para qualquer um perceber que ele gabarita nos sintomas do TOD, dentre os quais estão: desobedecer a regras, importunar intencionalmente outras pessoas, mentir e/ou agir por vingança ou com crueldade. O ponto fulcral do transtorno é, portanto, opor-se e desafiar toda e qualquer figura de autoridade, reafirmar que não há nenhuma superior à própria.

É como se ele tivesse de repetir todos os dias para seus desafetos: “Eu posso mais do que você”. O fato de ser um bilionário agrega ainda mais arrogância ao seu perfil: não importa quantos clientes ele perca por dia, quantos funcionários o processem, o quanto a lucratividade de suas empresas esteja em declínio, a espiral de negação da importância dos outros em sua vida não para de se alargar. Nem é preciso dizer que, a despeito da minha necessária solidariedade ao sofrimento emocional que certamente aflige o ego de Musk, fica evidente que ele jamais conhecerá limites para se impor. E a melhor – quiçá a única – maneira de lidar com ele é deixá-lo falando sozinho, simplesmente forçando-o a arcar com as consequências legais de suas falas e feitos.

No caso do recente embate com o ministro do Supremo Alexandre de Moraes, Musk parece ter encontrado sem querer um competidor à altura. Radicalmente inflexível no julgamento de qualquer um que questione seu poder e sua autoridade, Moraes parece ter caído na armadilha preparada por Musk e seus aliados bolsonaristas. O que o clã Bolsonaro não conseguiu fazer em 4 anos no poder, Musk se divertiu fazendo em 2 ou 3 madrugadas insones. A promessa de reabilitar os perfis bloqueados por Moraes, “mesmo que o X tenha de sair do Brasil’, equivale a repetir, como a criança rebelde sem causa, “Você não manda em mim”.

E, como diz um velho provérbio, quando dois elefantes brigam quem paga é a floresta. É difícil avaliar quem mais sai perdendo com essa insana troca de chumbo. Embora à primeira vista o conflito tenda a favorecer as hostes bolsonaristas, em especial nas próximas eleições municipais, uma consequência imprevista das bravatas de Musk ainda pode mudar a direção dos ventos: desenvolveu-se no Facebook uma campanha para estimular o abandono imediato do X como uma espécie de questão de honra da brasilidade, à qual já aderiram inúmeros jornalistas, artistas, intelectuais e subcelebridades, além de boa parte do eleitorado não-bolsonarista. Muitos políticos, mesmo constrangidos, querendo evitar a contaminação de sua imagem para os próximos pleitos, uniram-se em torno de Moraes e passaram a defender a regulamentação urgente das redes sociais.

Além disso, a retomada da polarização ideológica acabou sendo aproveitada por muitos para desqualificar mais uma vez o senso de “patriotismo” das hostes bolsonaristas. Esse é um fenômeno que já vi acontecer em outras circunstâncias: quando nordestinos discutem entre si, as diferenças de costumes e de linguajar tendem a ser apontadas acidamente, mas quando um sulino ou sudestino se junta à discussão, os nordestinos imediatamente se unem em bloco para refutar a superioridade dos brasileiros de outras regiões.

E, para os autoproclamados defensores da democracia e do estado de direito, mesmo os irritados com o protagonismo e a politização do STF, Moraes passou a simbolizar uma espécie de salvador da pátria, um pai de punho firme capaz de peitar e aniquilar quem ameaça o bem-estar de seus filhos – um papel pra lá de paradigmático para os brasileiros, convenhamos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Se bandido bom é bandido morto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

….um corolário necessário é o de que policial bom é policial matador, pois não? Simples questão de lógica. E também, indiretamente, um convite mal disfarçado para que a população faça justiça com as próprias mãos, sempre que possível.

É inescapável para quem lê jornais regularmente a conclusão de que nossa sociedade não só tolera a eliminação física dos acusados de violar as leis, desde que, obviamente, os abatidos se enquadrem na categoria PPP (pretos, pobres e periféricos), mas também aplaude a truculência policial ocasional contra outros alvos civis, como mulheres, idosos, crianças e moradores de rua, mesmo que não envolvidos diretamente com atos criminosos.

Uma das vantagens de ser velha é ter sido testemunha ocular da história, poder contar às gerações seguintes como os fatos realmente se deram. Pode-se argumentar que será sempre uma interpretação pessoal dos eventos passados, mas os detalhes relatados poderão ser confrontados com as versões de outras testemunhas, investigados em jornais e documentos oficiais da época e comprovados, ou não, por quem se interessa em desvendar a verdade.

Que ninguém se engane: as forças policiais brasileiras são legitimas herdeiras dos capitães do mato, sempre à caça de ‘negros fujões’ e absolutamente alienados do fato de que são eles mesmos oriundos dos mesmos estratos sociais, a soldo da perpetuação da desigualdade social e do racismo estrutural. Truculência policial não é, portanto, nenhuma novidade entre nós, sempre foi assim e provavelmente continuará sendo. No entanto, a brutalidade policial desmedida escalonou bem mais durante a ditadura militar. Naquela época, é bom lembrar, militares eram oficialmente liberados para atirar contra supostos “subversivos” antes de perguntar qualquer coisa. O uso de força letal, agindo de surpresa e impedindo a reação da vítima, era desculpada como inquestionável “segurança nacional”.

Mas à medida que a repressão urbana passou a ser mais capilarizada, tornou-se necessário contar com o reforço das forças policiais locais. Para isso, oficiais do exército foram designados para treinar policiais militares, especialmente os integrantes dos batalhões da Rota. E, claro, foram transferidas a ela as mesmas prerrogativas de “excludente de ilicitude”. Tortura para obter confissões e delações e execuções sumárias acabaram se tornando práticas corriqueiras.

Mais ou menos na mesma época, por volta do final dos anos 70, um fato de grande repercussão nacional aconteceu em São Paulo: um garoto de 12 anos, em situação de rua, que havia roubado uma corrente de ouro de um comerciante da Praça da Sé foi perseguido e morto por um bando de lojistas. Na sequência, o corpo do garoto foi abandonado sobre um banco da praça. O então arcebispo metropolitano, Dom Paulo Evaristo Arns, inconformado com a desproporcionalidade da reação, resolveu organizar uma procissão, clamando por uma atitude mais cristã de respeito à dignidade de toda pessoa humana. A iniciativa acabou dando início ao que se convencionou chamar de Movimento dos Direitos Humanos.

Imediatamente, capitaneadas por apresentadores de bizarros programas policiais televisivos, milhares de vozes se fizeram ouvir no Brasil todo, associando maldosamente o movimento de Direitos Humanos à “defesa de bandidos”. Ficou famoso desde então o refrão de que a sociedade e a segurança pública deveriam se concentrar apenas na defesa dos “humanos direitos”.

Nunca ocorreu aos detratores de Dom Paulo que, por mais bárbaro que seja o criminoso, ele continua sendo um ser humano. Está aí uma verdade difícil de ser digerida até hoje. Se compreensível por um lado (psicologicamente é mesmo difícil admitir que sejamos capazes de atos irracionais de extrema perversidade), não há como esconder o lado execrável da ideia de que bandido bom é bandido morto: desqualificar a condição humana de adversários é pré-requisito para nos tornarmos tão ou mais insensíveis quanto o mais insensível dos criminosos.

Pouquíssimos brasileiros entendem que não é função das polícias julgar da culpa ou inocência de ninguém e, menos ainda, a de matar. Mesmo quando recebidos a tiros, ainda resta aos agentes policiais a opção de atirar na mão que segura o revólver ou nos pés do agressor para evitar uma fuga. Mas atirar preferencialmente em áreas vitais infelizmente continua sendo uma prática explicitamente valorizada por muitos comandantes militares, governadores e políticos em geral.

Um pouco de conhecimento de psicologia humana não faz mal a ninguém: quais sentimentos você acha que brotam no peito de parentes e amigos dos que foram mortos em operações no interior de comunidades pobres de periferia, sejam eles inocentes ou não: respeito, medo ou ódio da PM? A despeito dos inúmeros relatos de tiros pelas costas, inocentes desarmados atingidos, invasão de residências sem mandado judicial e descaracterização da cena de crimes, o ativista dos direitos dos humanos direitos e governador de SP não vê razão para se indignar com as macabras estatísticas das Operações Escudo e Verão. Afirmar que “não tem bandido na polícia” é muito mais do que simples profissão de fé, é projeto de poder.

Que ninguém se engane: Guilherme Derrite, seu atual secretário de segurança pública, foi alfabetizado na mesma cartilha de Netanyahu: para cada um dos nossos abatidos, ao menos dez dos deles deverão pagar com a própria vida. E eis-nos de volta aos tempos de Átila, o Huno e do primeiro código civil da história da humanidade: olho por olho, dente por dente.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O avesso do avesso

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Na medicina antroposófica há algumas práticas curiosas que muitas vezes beiram o nonsense, mas que, em última instância, se revelam bastante eficazes para promover transformações importantes no bem-estar físico, psíquico e anímico dos que se atrevem a segui-las. Uma delas, que sempre me encantou, é a proposição de um “Dia do Contrário”, que deve acontecer ao menos uma vez por mês – ainda que não haja uma frequência imposta nem datas específicas a serem observadas. É muito mais a autoavaliação de necessidade que dita como e quando ele vai acontecer.

Ao longo desse dia, a pessoa é instada a fazer absolutamente tudo de uma forma diferente da habitual. Cada um decide quais novas medidas serão testadas e eventualmente incorporadas. Ao tomar banho, por exemplo, pode-se ensaboar o corpo com a mão “errada” e/ou inverter a ordem da higienização: ao invés de começar pela lavagem do rosto, por exemplo, começa-se pela lavagem dos pés. Abrir portas com a mão trocada; alterar toda a rotina de horários (de acordar, tomar banho, arrumar a casa, comer e dormir); alterar o cardápio (com carne/sem carne) e/ou inverter a ordem dos pratos nas refeições; trocar o papel tradicional atribuído a cada membro da família, permitindo, por exemplo, que as crianças determinem quem vai fazer o quê, quem manda e quem obedece, etc. são outras formas comuns de autoexperimentação.

Não só isso, porém. Nos dias de hoje esse período de desconstrução de manias poderia abranger coisas como abolição do uso de telas de qualquer espécie por 24 horas e substituí-lo por rituais de meditação e introspecção; envolver-se com experiências táteis, auditivas e gustativas, de olhos fechados; abandonar uma reunião de trabalho para levar o filho para um passeio no parque; envolver-se num debate respeitoso com familiares, vizinhos ou desafetos ideológicos sobre os principais lances da política nacional e internacional – e tantos outros desafios que só a imaginação de cada um pode indicar.

O propósito? Simplesmente conscientizar-se a respeito da tirania dos hábitos do cotidiano, quebrar estruturas de autoridade encarquilhadas, ressignificar visões de mundo e crenças pessoais, abrir mão da zona de conforto de forma a destravar o potencial criativo e promover mudanças que nunca se ousou fazer antes por medo de perder a própria identidade. Os mesmos objetivos são perseguidos pela arquitetura antroposófica: na construção de residências e prédios comerciais busca-se eliminar ao máximo paredes com ângulo de 90 graus, de modo a evitar que as pessoas se tornem “quadradas” ao interagirem no ambiente.

Tive a oportunidade de colocar em prática várias vezes essa proposição e me impressionei com os resultados. A sensação de leveza e de liberdade, o alívio das tensões normais do dia a dia, a oportunidade de assumir-se imperfeito/desajeitado e principalmente a injeção de coragem para experimentar novas formas de estar no mundo são resultados inegáveis.

Semana passada, assistindo a flashes dos desfiles das escolas de samba, me dei conta de que o dia do contrário e o carnaval têm algo em comum. Percebi com mais nitidez o que esteve por trás da necessidade de instituição de um modelo de ‘carnaval à brasileira’. Inventado com base nas mesmas premissas do dia do contrário, a proposta original da nossa folia era a de inverter totalmente a hierarquia social – incluindo os papéis tradicionais de gênero.

Mistura sincrética de diferentes manifestações culturais, como as danças de salão europeias, bailes de máscara, ritmos indígenas e danças africanas, nossa forma única de conceber os festejos carnavalescos permitia que trabalhadores domésticos, garis, manicures, babás, cozinheiras e outros membros das camadas populares assumissem o centro do palco, transmutados em reis e rainhas. Era a consagração da insubmissão às normas hipócritas de compostura de uma sociedade escravagista, da autodeterminação, da alegria despudorada e da resistência pacífica.

Infelizmente, boa parte da espontaneidade da festa foi se perdendo ao longo das décadas. Da “bagunça organizada” dos pequenos blocos carnavalescos comunitários, o carnaval brasileiro passou a obedecer aos interesses comerciais de radiodifusão, com regras rígidas de coreografia, divisão em blocos temáticos com fantasias específicas, tempo de evolução na passarela e inclusão de figuras de destaque não-pertencentes às comunidades de origem.

Seja como for, a alegria transgressora e o caráter catártico da nossa festa maior continuam encontrando abrigo nas frestas e franjas dos festejos oficiais através da multiplicação de blocos amadores e nas diferentes versões regionais da folia. A brasilidade continua se reconhecendo como negra e indígena, nortista e nordestina, feminina e periférica, inventiva e improvisadora, inclusiva e avessa ao moralismo de ocasião. Em resumo, o inverso do perfil que a extrema direita tentou nos impingir nos últimos quatro anos (uma brasilidade branca, masculina, sulista e sudestina, heteronormativa, segregadora, conservadora, militarizada e teocrática).

Sendo uma das raríssimas manifestações culturais brasileiras que empresta igual importância ao processo e ao resultado e tem um caráter cooperativo, sem direção central, nosso carnaval tem tudo para continuar simbolizando a alma dionisíaca do povo brasileiro. Embora ainda rechaçado por muitos como sinal de alienação, devassidão moral e preguiça/aversão ao trabalho, ele se coloca em agudo contraste com as manifestações raivosas do bolsonarismo e do neopentecostalismo. Para quem aprecia o valor da igualdade democrática, pode ser mil vezes mais fácil tolerar o barulho ensurdecedor, o lixo nas ruas e os transtornos no tráfego dos eventos carnavalescos do que as intimidadoras motociatas, os desfiles fumacentos de tanques e muito provavelmente as manifestações de rua previstas para o dia 25 de fevereiro próximo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Pra quem é, tá de bom tamanho

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quando eu era criança e havia alguma festinha de aniversário em casa, minha mãe se encarregava de preparar todos os salgadinhos e doces – isso para uma concentração de, pelo menos, 50 convivas. Para agilizar a execução de uma tarefa tão gigantesca quanto essa, ela colocava todas as filhas a postos para ajudar na preparação e fritura/assamento das massas, elaboração dos enfeites, arrumação da mesa e decoração da casa.

A mim era destinada quase sempre a enfadonha e repetitiva tarefa de esticar a massa das empadinhas dentro das fôrmas, talvez por não envolver o uso do fogo ou por permitir supervisão constante. Canhota e desajeitada por natureza, eu tentava de todas as maneiras corresponder às expectativas de confecção de uma camada fina de massa tanto na base quanto nas paredes laterais de modo a não comprometer a degustação do recheio.

A atenção aos detalhes sempre teve importância muito maior para mim do que a rapidez na execução de qualquer tarefa. Minha mãe dizia que eu “bordava” qualquer trabalho que me fosse solicitado. Para garantir um resultado satisfatório com a mão “errada”, eu, de fato, demorava uma eternidade: ia e voltava infinitas vezes pressionando a massa contra o fundo das forminhas até que ela se tornasse transparente, só para constatar mais tarde que ela havia rasgado na base ou que as paredes haviam ficado grossas demais. Daí era engolir em seco e recomeçar do zero. Ansiosa para se dedicar ao preparo dos demais quitutes, minha mãe tentava me apressar, relevando algumas pequenas imperfeições. Quando eu choramingava, exausta por não estar conseguindo alcançar o padrão desejado, ela piscava para mim e acrescentava com uma risada: “Não se preocupe, pra quem é, tá de bom tamanho”.

Essa frase me aturdiu desde a primeira vez que a escutei e a incompreensão pelo tom zombeteiro me assombra até os dias de hoje. Não entendia como minha mãe podia me aconselhar a usar de dois pesos e duas medidas na entrega de um trabalho, conforme o perfil de seu destinatário final. Quer dizer, então, que havia pessoas com paladar requintado o suficiente para perceber que o produto tinha um acabamento gourmet e outras que engoliam despreocupadamente qualquer coisa que lhes fosse oferecida desde que satisfizesse seu apetite? Para mim, essa categorização era inaceitável: significava (e ainda significa) que o capricho na execução da tarefa não é um valor intrínseco ao caráter do executor, mas simples conveniência social.

Cresci tentando exorcizar o caráter antiético dessa ideia, mas não teve jeito: ela nunca me abandonou e acabou sendo incorporada ao meu código pessoal de princípios morais reversos – isto é, das coisas que eu nunca deveria conscientemente tentar fazer. A opinião do usuário final sobre a excelência ou insuficiência técnica do meu trabalho também jamais foi capaz de superar minha ácida crítica interna. Se não estou satisfeita com a qualidade do que me propus a fazer, nenhum elogio tem o poder de compensar a frustração e a sensação de impotência, enquanto as críticas negativas são catalogadas apenas como mais/menos cruéis do que a minha própria.

Graças ao período recente em que fui forçada a ficar de molho por causa de uma queda, pude compreender, como nunca antes, as consequências desastrosas que a adoção de um padrão imaginário de perfeição, inatingível para o comum dos mortais, havia provocado em mim. Entendi que jamais ousei me profissionalizar de fato. Preferi sempre me apresentar como uma amadora de boa vontade, curiosa e disposta a aprender com seus erros. Todos os trabalhos que apresentei eram entregues já com as devidas ressalvas: ‘Olha, esse foi o melhor que pude fazer, mas não creio que tenha encontrado todas as respostas que você buscava’; ‘Como foi a primeira vez que lidei com isso, devo ter deixado escapar algum fator relevante’; ‘Se você me der mais tempo, posso revisar toda a análise, sem custo, e corrigir eventuais distorções’.

Claro que essa pretensa “humildade” estava a serviço de minimizar minha sensação de culpa, desviar a atenção da minha real incompetência e compensar a dor da minha ferida narcísica. Obviamente, a síndrome da impostora que me afligia acabou tendo também um enorme impacto financeiro negativo sobre meus proventos profissionais. Hoje, revendo os acordos orçamentários que me dispus a fazer ao longo da vida, penso nas infinitas oportunidades que perdi de bancar cursos de pós-graduação ou extensão universitária, viagens, ou me dedicar a outras áreas de interesse, especialmente as que não envolvessem apenas o uso do cérebro.

Por outro lado, a disponibilidade para me envolver com tarefas que eu desconhecia ou pouco exploradas no mercado acabou agregando um inesperado traço experimentalista à minha imagem profissional. Vários clientes desejosos de conhecer melhor os limites de divulgação de seu produto/marca me abriram as portas para a introdução de novas técnicas projetivas de pesquisa e novos arranjos para o público-alvo. Hoje, olhando para trás, até eu me surpreendo com tantas e tão diversificadas experiências que acumulei – desde atuar como consultora de um centro espírita para descobrir as causas das brigas entre seus médiuns até trabalhar ao lado de redatores publicitários e criativos na identificação de novos apelos mercadológicos.

Nascida e criada em solo brasileiro, no entanto, me é inescapável admitir que acreditar que “pra quem é, tá de bom tamanho” sempre foi um lema consagrado pelos integrantes dos três poderes de nossa combalida República ao elaborar projetos de combate às nossas maiores mazelas. Valores pífios para o aumento do salário mínimo, não-correção da tabela do imposto de renda, fila quilométrica para acesso aos parcos benefícios da Previdência, limitação de recursos para o SUS e para pesquisas nas áreas de educação e saúde, justiça viesada a favor dos poderosos de plantão e empedernida para lidar com as transgressões de ‘pés de chinelo’ convivem placidamente com um fundo eleitoral de 5 bilhões, fundo partidário igualmente bilionário, desrespeito às cotas para mulheres e negros na composição das chapas… a lista é interminável.

Assim, me ocorre deixar um lembrete final para quem pretende votar nas próximas eleições (municipais, estaduais e, principalmente, na presidencial):


“Nada é suficiente para quem considera pouco o suficiente.”
Epicuro


(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

O desejo da dependência

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há mais de cinco anos venho estudando e pensando em escrever sobre o tema da dependência, um tópico complexo por si só, já que se manifesta através de múltiplas formas: dependência química (drogas, álcool, comida, medicamentos), financeira, afetiva/emocional, de jogos de azar e de videogames e, mais recentemente, de gadgets eletrônicos, dentre outras.

Mesmo antes de começar, sabia da existência de centenas de estudos, que foram capazes de trazer à luz os mecanismos neuropsicológicos dessas compulsões. O princípio da dependência parece simples de entender: nosso cérebro está condicionado a repetir situações que causam prazer. Cada sensação prazerosa aciona um circuito cerebral de recompensa e libera uma carga de dopamina, o hormônio do prazer, que nos leva a querer experimentar de novo a sensação. A cada nova tentativa, todavia, o indivíduo vai se frustrando por não ser capaz de atingir a mesma intensidade de prazer da primeira experiência, não só porque os contextos são diferentes, mas também porque o organismo vai se adaptando à quantidade e à qualidade dos estímulos. Mesmo assim, ele se força a insistir na repetição, na esperança de que da próxima vez o resultado seja mais satisfatório.

Embora a explicação das neurociências me pareça necessária para produzir tratamentos mais eficazes, o que eu deduzia desse roteiro prazer-recompensa-repetição era que a dependência acaba se instalando na maior parte das vezes “por acidente”, sem que o indivíduo se dê conta desde o início de que está entrando numa cruzada cada vez mais asfixiante. E o que me motivava a persistir no estudo dos mecanismos psicológicos que levam à dependência era outra coisa: descobrir por quais motivos uma pessoa deseja conscientemente se tornar dependente de algo ou alguém.

Não sei se é porque, ao contrário de outros mamíferos, passamos por um longuíssimo período de maturação ou se a sensação de incompletude é característica inexoravelmente atrelada à condição humana. O fato é que muita gente sente a necessidade de ser tutelada por um guia, mestre ou provedor. Falo, por exemplo, de adultos que se recusam a abandonar a casa dos pais e também de cidadãos que buscam incansavelmente eleger líderes populistas autoritários que prometam abrir-lhes as portas da prosperidade e da felicidade eterna. Seja por medo de se expor a situações desconhecidas que possam causar descontrole ou pela comodidade que representa a terceirização de responsabilidades, a pessoa permanece presa a uma situação nem sempre agradável. Por quê? Baixa autoestima? Falta de autoconfiança? Limitação intelectual? Preguiça? Carência emocional? Distúrbios psiquiátricos?

Zygmunt Bauman tinha razão: se você deseja mais liberdade, tem de renunciar a um pouco de sua segurança e, se anseia por mais segurança, precisa ceder uma fatia de sua liberdade.

A autonomia sempre foi um valor sagrado para mim. Sou filha de uma mulher profundamente desapontada por não ter podido seguir uma carreira profissional fora do casamento e que resolveu jogar todas as suas fichas na criação de filhas autônomas, insubmissas às regras do patriarcado e da misoginia. Tomei como regras de ouro para minha vida a independência financeira, a busca de autoconhecimento para administrar melhor a solidão e a vontade de me autoafirmar no plano social apenas por meus méritos pessoais.

Apesar de tudo isso, recentemente enfrentei um surto inexplicável do desejo de dependência. Comecei a me ressentir da falta de interlocução com outras pessoas que me ajudassem a relativizar crenças e visões de mundo. Depois da aposentadoria e do trabalho em home office que passei a fazer, fui me isolando cada vez mais e abrindo mão de antigos prazeres, em função dos baixos rendimentos recebidos. Minhas únicas fontes de prazer diário passaram a ser minhas duas cachorras. Ultimamente, entretanto, eu já vinha notando um certo desgaste na relação com elas. Percebia que passava mais tempo recriminando suas peraltices do que interagindo com elas em brincadeiras e que os passeios diários estavam se tornando uma obrigação, mais do que um prazer. Secretamente desejava contar com a ajuda de um adestrador e de um passeador para não ter que lidar com esses sentimentos negativos.

Outra coisa de que me ressentia era da falta de variedade, sabor e valor nutricional das minhas refeições. Como nunca me interessei em desenvolver talento culinário e enfrentava restrições alimentares por ser diabética e vegetariana, via-me forçada a engolir sem nenhum prazer a gororoba básica de sempre. Sonhava em me sentar à mesa e ter à disposição, já prontos, pratos mais elaborados e “pecaminosos”, sem ter de sofrer para compor o cardápio do dia.

O surto se agravava mais ainda com questões relacionadas à vontade de mudança de profissão e à necessidade de encontrar um trabalho que me rendesse mais dinheiro para fazer frente a todas essas demandas. Em resumo, eu estava cansada de cuidar de mim mesma. Mesmo que não o admitisse racionalmente, sentia que precisava de colo e tempo livre para recuperar velhos prazeres abandonados. Foi quando uma desastrada queda me propiciou as condições necessárias para questionar o estranho desejo de renunciar a uma parte da minha autonomia.

Fui derrubada e arrastada por minhas cachorras, que se assustaram durante um passeio. Fraturei o úmero e tive uma fissura no quadril. Resultado: um mês inteiro sem poder andar e dois meses com o braço esquerdo na tipoia (sou canhota), o que significava não poder voltar a morar sozinha nem dar andamento a meu trabalho de tradutora. Ainda pior, tinha de aceitar me desfazer da tutela das cachorras por um longo período ou talvez para sempre. Fui acolhida na casa de uma irmã, que é ótima cozinheira e me mimava todos os dias com pratos especiais; ao mesmo tempo, as cachorras foram abrigadas na casa de um sobrinho, onde parecem estar mais felizes por poderem brincar com outros cachorros e circular sem guia ao ar livre na hora que quiserem.

Passei dois meses totalmente alienada dos eventos do mundo exterior, sem sair à rua, ler jornais, assistir televisão e sem redes sociais. O ensimesmamento não me trouxe nenhum benefício. Ao contrário, vi desfilarem diante dos olhos da minha mente todos os meus defeitos de caráter, minhas hipocrisias, culpas e conflitos interiores. Tive de encarar uma mudança radical de hábitos, como horário de acordar, dormir e comer, e acima de tudo passei a precisar de autorização para fumar. Enfrentei crises infantis de birra do tipo ‘você não manda em mim’ e ataques de rebeldia juvenil do tipo ‘se eu não posso ter o que quero, então não quero mais nada’. Fosse como fosse, eu tinha de admitir: meus desejos secretos estavam milagrosamente se realizando.

Hoje, já de volta à minha casa, mas ainda lambendo as feridas de corpo e alma, sinto ter me transformado numa mistura perfeita de ceticismo e cinismo. Já não acredito na possibilidade de recomeço nem na identificação de outros propósitos de vida. Sei que perdi um dos pilares fundamentais da minha identidade – que era a curiosidade de comparar instintos animais com comportamentos estereotipados humanos.

As únicas lições que tirei desse período de trevas foram:

• que a necessidade é mãe da invenção,

• que não há escolhas sem consequências,

• que é preciso equilibrar o olhar para fora e o olhar para dentro.

E, finalmente, que a resposta para um psiquismo saudável está, como sempre, em seguir o caminho do meio: nem se pretender independente de tudo e de todos, nem se resignar a engolir em seco as regras ditadas por terceiros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Olhos para não ver

by M. C. Escher (1898-1972), artista holandês

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Certa vez tive um sonho muito estranho e simbólico, que minha terapeuta chegou a definir como “esquizofrênico”. Ele foi assunto de muitas sessões e passou por várias interpretações que nunca me satisfizeram. O desconforto que senti então me acompanha até os dias de hoje.

Eu estava diante de um muro muito alto, com um grande pórtico central, onde se podia ler a inscrição “Escola de Não Ver”. Curiosa, resolvi escalar o muro para tentar descobrir que tipo de aprendizagem se desenrolava lá dentro. Encarapitada no alto do pórtico, pude ver que se tratava de um enorme pátio de palácio chinês, parecido com o do filme O Último Imperador. Ocupando boa parte do espaço estavam perfilados vários batalhões animais, separados por espécie, em treinamento. Havia um batalhão de galinhas, outro de cavalos, e assim por diante.

Ao comando de início do treinamento, cada batalhão se envolvia na tarefa de destruir partes do corpo de seus colegas de espécie. Estranhamente, não havia fúria no ar, apenas o procedimento burocrático, metódico e persistente de garantir a destruição macabra dos restos de iguais. As galinhas bicavam as partes do corpo de outras galinhas. Os cavalos pisoteavam as de outros cavalos. Eu acompanhava estupefata os movimentos de cada batalhão sem conseguir atinar com o propósito daquilo tudo. Se já estavam mortos e esquartejados, para que se dar ao trabalho de estraçalhar o que restou deles? Não fazia sentido.

De repente, me dei conta de que não havia ali um batalhão humano. Por que eles estavam ausentes se a destruição insana de indivíduos da mesma espécie é característica dos animais ditos racionais? Nunca soube de instinto de aniquilação dos corpos de semelhantes entre os animais de espécies filogeneticamente inferiores, mas estava farta de testemunhar esses atos de barbárie entre seres humanos. A coisa fazia menos sentido ainda. Fosse como fosse, a proposta da Escola de Não Ver parecia estar sendo efetivamente cumprida.

Ao fundo do pátio, era possível ainda ver escadas que produziam a ilusão de ótica de movimento ao mesmo tempo ascendente e descendente, como as ilustradas pelo artista gráfico Escher. Ou seja, elas não davam em lugar nenhum, voltava-se sempre ao ponto de partida. Era impossível sair do pátio e escapar da sorte daqueles batalhões.

A coisa toda só começou a fazer sentido quando, muitos anos mais tarde, me deparei com uma frase do próprio Escher pouco antes de morrer: “Deus não pode existir sem o mal e, desde que se aceite a ideia da existência de Deus, tem-se de aceitar também a do mal. É uma questão de equilíbrio. Essa dualidade é minha vida”.

O tema da presença simultânea do bem e do mal na estrutura psíquica humana também sempre me instigou. Da psicanálise à antroposofia, uma constatação: não queremos ver nosso lado sombrio, nos recusamos a entrar em contato com nossas pulsões de morte, com o desejo de extermínio do outro. Achamos mais fácil dividir a humanidade entre pessoas de bem e do mal. E o que isso tem a ver com a visão? Vou tentar explicar.

Dos pelos menos 5 sentidos que herdamos ao nascer – digo ‘pelo menos’ porque já há várias teorias científicas propondo a existência de cerca de 9 sentidos na espécie humana – a visão desde logo adquire um caráter crucial, tão importante para nossa interação bem-sucedida com a sociedade como o faro para os animais. É através dela que nos conectamos com a realidade exterior desde os primeiros minutos de nossa existência. Por razões ainda não muito bem explicadas, ao longo da vida a visão vai ganhando um caráter autoritário, quase ditatorial, podendo minimizar ou até mesmo eliminar por completo as percepções oriundas de outros órgãos dos sentidos. Se uma visão lhe agrada, você pode deixar em segundo plano o cheiro, o gosto, o tato e o som que a acompanham e que podem eventualmente lhe desagradar.

Na faculdade, fazíamos uma experiência para demonstrar como isso funciona: apresentava-se a uma pessoa dois objetos de madeira, um cubo grande (mas oco) e uma bola muito pequena (mas sólida), e, depois de colocados um em cada uma de suas mãos, pedia-se que ela estimasse qual dos dois era o mais pesado. A resposta unânime era a de que o cubo era o mais pesado. Pedíamos então que a pessoa fechasse os olhos e repetíamos a avaliação sensorial. A resposta que se seguia era sempre a de que a bola era mais pesada. Ao abrir os olhos novamente, as pessoas costumavam se surpreender com a incompreensível disparidade de suas avaliações.

Outro dado que indica o absolutismo da visão é o de que ela desfruta de credibilidade instantânea, ao contrário do que tende a acontecer com outros sentidos. A linguagem cotidiana expressa isso de maneira exemplar: “Ninguém me contou, eu vi com meus próprios olhos”. Nessa equação, raras vezes entram em discussão os fenômenos de ilusão de ótica ou de distorções provocadas pelo ângulo de visão. Quando, no entanto, a informação vem pelo ouvido, pelo nariz, pelo paladar ou pelo tato, ainda há espaço para dúvida: posso não ter escutado direito, posso ter sido traída pelas circunstâncias ou por experiências anteriores.

Um enorme fator complicador dessa tendência no século 21 é que a tecnologia se concentrou quase exclusivamente no desenvolvimento de novas telas, reforçando dessa forma o caráter impositivo da visão. O aparecimento de aparelhos de realidade aumentada serviu para colocar ainda mais fogo num ambiente já inflamado. Técnicas avançadas de manipulação de imagens ampliaram absurdamente o poder da persuasão visual.

Com o advento da pandemia de covid, a imersão desenfreada no mundo virtual das imagens parece ter levado as pessoas a um estado paroxístico de insensibilidade – e de desumanização -, talvez em função do desuso de outras fontes sensoriais de experiência. Se você não pode sentir o calor do toque das mãos ou do corpo de outras pessoas num abraço, não consegue sentir o cheiro do sangue quando o outro é esfaqueado ou baleado, nem ouvir seus gritos de horror, tudo se transforma numa experiência inconsequente, característica dos jogos eletrônicos.

A coisa é tão grave que cheguei a formular para mim mesma o conceito de ‘nova forma de cisão esquizofrênica’ para explicar o fenômeno. Já não conseguimos distinguir a realidade ‘real’ da realidade virtual. Somos induzidos a experimentar novas situações pelo simples prazer da experiência, por mais extremas que elas sejam. O problema é que as imagens não têm substância nem ética incorporada. Cabe a cada um atrelar significados a elas e entender como as consequências se encaixam na sua escala pessoal de valores.

Piorando ainda mais esse estado de coisas, sempre foi muito difícil para a maioria apoiar-se naquilo que os espiritualistas chamam de “olhos da alma” para ampliar as oportunidades de autoconhecimento. A visão, assim como os demais órgãos dos sentidos humanos, é voltada para a exterocepção, isto é, para fora, mas é de pouca valia para visualizarmos o que temos por dentro. Olhar para dentro e encarar a frio quem somos de fato quando não há outros olhos por perto é algo que costuma causar pânico, dado o risco de destruição de nossas ilusões mais caras e de muitas de nossas crenças mais arraigadas.

Como diria Fernando Pessoa, “para que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?”

Avatares não olham para dentro, não é mesmo?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sem chão embaixo dos pés

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Assistindo às cenas terríveis do resgate de pessoas mortas e de bebês e crianças ainda vivas soterradas no brutal terremoto que atingiu a Turquia e a Síria, fui forçada a reviver uma situação que só posso descrever como paranormal que aconteceu comigo há algumas décadas.

Eu era coordenadora do curso de inglês em uma grande empresa multinacional. Recentemente havia recebido várias reclamações a respeito de um dos professores, um australiano recém-contratado. Os comentários negativos sobre o desempenho dele em sala de aula eram vagos, genéricos. Ninguém o acusava de não ter habilidades linguísticas nem se queixava de sua capacidade didática. O problema aparentemente estava limitado a seu comportamento, descrito apenas como “estranho”, “esquisito”, que fazia lembrar o de um “louco” ou drogado. Fala e gestos lentos, súbitos e longos silêncios, olhar perdido na distância.

Preocupada em entender o que exatamente significava isso e qual impacto negativo teria sobre o aprendizado da turma, resolvi assistir a uma de suas aulas. Sem avisar ninguém e sem me justificar, bati na porta e pedi licença para acompanhar os ensinamentos do dia. A aula já havia começado e o clima entre os alunos e o tal professor parecia sereno. Ele estava de costas para a porta, escrevendo algo no quadro negro. Ao se virar e me ver, no entanto, ele teve uma reação inexplicável: sua fala travou totalmente e seu corpo congelou como o de uma estátua, ainda com o braço suspenso no ar e o giz na mão.

Foram minutos de constrangedor silêncio que me pareceram horas. A classe inteira paralisou à espera dos nossos próximos passos. Sem saber o que fazer, eu também limitei-me a ficar parada e em silêncio, de pé, segurando a maçaneta. Ele olhava para mim com um ligeiro sorriso nos lábios. Seus olhos tinham um estranho brilho, como se ele estivesse tentando contextualizar minha imagem ou se lembrar de alguma coisa. Embora não me conhecesse, parecia estranhamente contente em me ver – ou rever, como descobri mais tarde.

Sem pronunciar uma só palavra, ele lentamente foi descongelando, virou-se novamente para a lousa e escreveu algo nela… só que em indecifráveis (para mim) caracteres da língua hindi. Ao terminar, voltou-se para mim, abriu um largo sorriso e disse candidamente: ‘Este é seu nome”. Cada vez mais assustada e perturbada, perguntei o que aquele nome significava. Ele respondeu apenas: ‘Myrthes!’. Não me lembrava de ter dito meu nome e, mesmo que o tivesse feito, me surpreendia que ele o houvesse absorvido tão rapidamente, com tamanha familiaridade. Àquela altura, eu já estava começando a achar que o caso merecia uma intervenção de ordem psiquiátrica mesmo, mas não quis dar continuidade ao estranho diálogo para não atrapalhar a aula. Sentei-me numa cadeira no fundo da sala e permaneci calada.

Quando a aula terminou, sem outras intercorrências, ele veio conversar comigo. Depois de trocarmos amistosamente algumas informações sobre seu currículo e sobre suas relações com os alunos, novo susto, desta vez de muito maiores proporções. Sem perder sua espontaneidade, ele simplesmente deu início a um relato sobre uma pretensa vida passada minha, algo que me arrepia até hoje: “Você morreu em um terremoto, de fome e de sede, por não ter sido resgatada a tempo”. Absolutamente perplexa, não tive forças para perguntar mais nada, nem quando nem onde aquilo acontecera. Ainda que os temas esotéricos não me fossem desconhecidos e eu já tivesse vivido outras situações estranhas com desconhecidos, eu me recusava a acreditar naquele relato e continuava duvidando da sanidade mental do professor.

No dia seguinte, marquei um encontro com a diretora da escola de inglês. Contei a ela brevemente das reclamações sobre o comportamento do professor, omitindo o relato acima. Ela prontamente me tranquilizou: disse que ele era uma pessoa realmente estranha para os padrões corporativos ocidentais mas uma pessoa nobre, altamente espiritualizada, que havia vivido muitos anos na Índia e se tornado uma espécie de liderança iogue. Tinha vindo ao Brasil com a missão de aqui instalar um centro de ioga voltado à construção da paz universal vinculado à ONU, e que só estava dando aulas de inglês para sobreviver financeiramente enquanto isso não acontecia. Garantiu que conversaria com ele para que ele evitasse discussões não-técnicas com os alunos e adotasse um comportamento mais “dinâmico” (menos zen) em sala de aula, de modo a afastar a possibilidade de novas reclamações.

De fato, algumas semanas depois as queixas cessaram e ele continuou dando aulas normalmente. A partir dali, aproximei-me mais dele e, após ser convidada, fui fazer um curso de Raja Yoga (um tipo de ioga mais propriamente mental) no centro que ele estava construindo. Não posso dizer que nos tornamos amigos, mas os conceitos do hinduísmo que aprendi ali me ajudaram a interpretar com mais tolerância seus estranhos hábitos e relatos.

De alguma forma, a ideia de ter morrido num terremoto começava a fazer sentido para mim. Sempre tive pavor de voar e algumas vezes entrei em pânico até mesmo dentro de elevadores. A sensação apavorante de não ter chão embaixo dos meus pés me acompanha desde que me conheço por gente. Assunto de muitas sessões de terapia, aprendi aos poucos a lidar melhor com o descontrole emocional e esse medo acabou ficando literalmente soterrado em meio às minhas lembranças do passado.

Ontem, entretanto, ouvindo uma sobrevivente dizer que a sensação é a de que você está pisando em um colchão de água e seu corpo oscila violentamente acompanhando as ondas que vêm da terra, não tive como evitar reviver intensamente o terror do chão se abrindo, a sensação de sufocamento, abandono e desamparo. Sim, muito provavelmente eu já vivi essa situação, não importa se em uma vida passada ou dentro do útero de minha mãe na hora do parto.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Na antevéspera do gozo – 2

Brasília: Praça dos 3 Poderes em construção

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há mais de cinco anos detectei pela primeira vez uma sinistra coincidência entre momentos de pré-júbilo nacional e a ocorrência de alguma tragédia ou reviravolta frustrante na vida institucional brasileira. Dei a esse fenômeno inusitado o nome de “antevéspera do gozo” e desde então comecei a me perguntar das razões para seu surgimento.

Analisando alguns acontecimentos históricos ligados a momentos de grande mobilização cívica interrompidos abruptamente – como a rejeição da emenda das Diretas Já depois de 21 anos de ditadura e após expressivas manifestações de rua da sociedade civil, a morte de Tancredo Neves antes de assumir o cargo presidencial e consolidar a transição para a volta do regime democrático, o acidente aéreo fatal que atingiu Eduardo Campos, a principal novidade da campanha ao lado de Marina Silva, a poucos meses da eleição presidencial de 2014, e até a morte do ministro do STF Teori Zavascki, o único que poderia enquadrar os desvios éticos de Sérgio Moro e conduzir a Operação Lava Jato com segurança jurídica e imparcialidade até o final -, cheguei à conclusão que temos, como cultura, um caráter evidentemente histérico.

Com isso quero dizer que estamos perpetuamente surfando na crista de uma onda de excitação coletiva que jamais encontra descarga completa e impede que seja zerada a tensão política acumulada. Quando sentimos que se aproxima o momento do gozo final, algo em nós inexplicavelmente se assusta, se tranca e recua. E, quando se bloqueia a energia libidinal, ela por assim dizer “apodrece” qual água estagnada e contamina outras áreas do psiquismo. A incapacidade de entrega amorosa plena termina gerando desprazer e frustração, o que, por sua vez, deriva para a formação de irracionalidades, perversões, neuroses, fanatismo, misticismo, etc. A potência orgástica se perde e se divide em uma série de gratificações secundárias.

Se confirmado, esse traço cultural histérico explicaria ainda outras duas tendências com as quais venho trabalhando para entender a brasilidade: o baixíssimo comprometimento da população com processos (de qualquer tipo, mas especialmente os de construção democrática) e a ânsia de obter resultados praticamente imediatos, ou expectativa de mudança mágica da realidade. Em segundo lugar, a bipolaridade estrutural que nos faz oscilar entre momentos de eufórica autoestima {como acontece quase sempre no futebol e no carnaval) e outros de depressão (síndrome do vira-lata) e autocondenação (principalmente em períodos pós-eleitorais, com a sistemática repetição da crença de que brasileiro não sabe votar).

Ainda não sei quais e quantos outros fatores estão em jogo, mas posso apostar que a recusa em juntar forças para o atingimento de um orgasmo-cidadão está ligada ao eterno confronto entre nossas raízes africanas e indígenas de valorização da coletividade e a herança conservadora e individualista de nossos colonizadores portugueses. Aparentemente, isso se deve às pesadas noções de culpa e pecado da tradição judaico-cristã herdada deles que interferem em nosso caráter original de afetividade despudorada, espontaneidade e liberalidade sexual.

Pois bem, parece que está prestes a acontecer de novo. Desde 30 de outubro, nem um dia se passa sem que ouçamos a profecia: “O ladrão não vai subir a rampa”. Como, desta vez, Deus parece ter optado por não chamar para seu reino nenhum dos candidatos finalistas nem a figura mais odiada do bolsonarismo, Alexandre de Morais, as deserdadas viúvas do Mito resolveram tomar nas próprias mãos a tarefa de desconstrução final do estado democrático de direito. Depois dos emocionantes manifestos em favor da democracia que reuniram mais de um milhão de assinaturas, o que deveria ser uma festa popular de regozijo com a vitória da esperança de reconquistarmos credibilidade internacional e de recuperar nosso já devastado meio ambiente foi brutalmente interrompida com bloqueio de estradas federais, manifestações abertamente golpistas na frente de quartéis, ações de caráter explicitamente terrorista e nazifascista e até aberrações de cunho religioso messiânico, como a de clamar por intervenção extraterrestre através de celulares.

Embora nada de mais terrível tenha acontecido até este momento, seja por obra e graça da incompetência e planejamento amadorístico das ações dos golpistas ensandecidos ou por pura conivência mal dissimulada das autoridades de plantão, temos de convir: nada impede que acordemos horrorizados no dia 1º de janeiro de 2023 ao assistirmos ao vivo e em cores a um atentado contra o novo presidente em plena Praça dos Três Poderes. Garanto que muita gente já perdeu o sono revivendo mentalmente as cenas dantescas de partes do cérebro de John Kennedy voando longe ou, mais recentemente, da morte em público do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe.

A parte moralista do nosso Eu coletivo, que chafurda cada dia mais no fundamentalismo religioso mais rastaquera, entra novamente em campo para alertar: esse parceiro que nos está sendo reapresentado como salvação de nossas fraquejadas libidinais não é confiável, já abusou de nossa confiança anteriormente, não dá para nos entregarmos de mão beijada a ele sem contarmos com alguma forma de salvaguarda contra seus ideais liberalizantes nos costumes. E se ele achar que não somos moças de família por cedermos ao desejo? E se gostarmos da experiência e quisermos repeti-la, como ficará nossa imagem pública? Emancipação para quê? Não, melhor nos mantermos dentro das 4 linhas do patriarcado cristão heteronormativo!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

“Eu não aceito”

Myrthes Suplicy Vieira (*)


“EU NÃO ACEITO”
Alguém conhece fala mais prepotente que essa?


Pense um pouco: ela pressupõe que a pessoa – agrupamento social ou instituição – que a profere acredita ser a autoridade suprema, com poder de decidir monocraticamente o que os outros devem e não devem fazer, o que pode ou não acontecer.

“Eu não aceito o fim do nosso relacionamento”, alega o agressor e feminicida em potencial ao tentar justificar sua violência, ignorando o fato de que um relacionamento pressupõe a existência de duas consciências, duas vontades e duas autonomias para a tomada de decisão.

”Eu não aceito o resultado da eleição”, gritam em uníssono os golpistas bolsonaristas enlutados, revelando a mesma patologia mental que confunde amor com possessividade. Depois de 4 anos vivendo firmemente ancorados na crença de que “tudo posso naquele que me fortalece”, é normal que eles tenham caído na armadilha de tomar a parte pelo todo: sentem que o país lhes pertence, que os símbolos nacionais são exclusivamente seus para serem usados como e onde quiserem, que seu voto deveria valer mais do que o de qualquer outro cidadão, que são donos da consciência ética de seus adversários ideológicos, que sabem o que é melhor para o futuro da nação. Estão convictos de que patriotismo é demonstrar devoção incondicional e perpétua a um governante de ocasião, alçado por eles mesmos à condição de impoluto Homem-Deus.

Compreensível. O desempoderamento é, de fato, uma das dores psíquicas mais excruciantes e insuportáveis que um ser humano pode conhecer. Equivale ao que Freud chamou de ferida narcísica: apaixonado pela própria imagem refletida nas águas de um lago, Narciso acha necessário parar de respirar para que as águas não se turvem e deixem de funcionar como espelho. Sem a imprescindível troca gasosa com o ambiente e sem oxigenação do cérebro, ele perde os sentidos, cai no lago e acaba morrendo afogado.

Substitua “não aceito” por “não entendo” e se tornará evidente o que se esconde por trás de tanta fúria revanchista. Ao se darem conta da existência de outras aspirações de igual poder, tanto o misógino quanto os bolsonaristas narcisistas descobrem apalermados que, embevecidos com sua pretensa superioridade moral, se miravam apenas nas águas paradas de seu pântano particular de ódio ao diferente. Asfixiados pelos vapores tóxicos da decomposição ambiental, eles perdem o chão ao descobrir que nunca houve troca afetiva, diálogo ou negociação em seus relacionamentos, que jamais se deram ao trabalho de consultar a opinião do outro e, mais grave, que nunca avaliaram a pertinência de seu próprio modo arrogante e violento de tratá–lo.

Agora, confrontados com a perda concreta de seu poder desabrido, eles se imolam em praça pública, na esperança de reencontrar sua imagem fabulada de representantes do bem e da verdade no espelho imperturbável das forças armadas. Qualquer forma de apoio lhes serve, tudo menos deixar transparecer sua triste impotência humana. Não entender os motivos inconscientes de seu autocentrismo, limitação cognitiva e dependência emocional é o que os enfurece e afronta sua gigante autoestima, daí ser inaceitável.

Ser alijado inesperadamente do universo da onipotência infantil, ter de enfrentar pela primeira vez a colocação de limites claros para as próprias ações e intenções, não poder usufruir mais das benesses a que acreditava ter direito, ser desautorizado pela realidade, tudo isso se acumula na mente do desempoderado e conspira para a eclosão de reações de altíssima agressividade e perversidade. Mais ainda quando o desempoderamento acontece “against all odds”.

A psicologia ensina: ao longo do desenvolvimento psicomotor humano, a criança primeiro reage à frustração com um virulento acesso de raiva que envolve seu corpo como um todo. É a conhecida crise de birra, que implica jogar–se ao chão, retorcer–se, sapatear e espernear, agitar violentamente os braços, bater, morder, cuspir, berrar e chorar inconsolavelmente. Aos poucos, a criança vai aprendendo a limitar a extensão de sua resposta corporal. Ela pode dar um pontapé ou soco na cara do coleguinha que o desagradou ou agredir a tapas um adulto que tenta impedi–la de fazer alguma coisa, mas já é capaz de permanecer em pé e respirar fundo até que a raiva passe. Mais tarde, o revanche magoado costuma se restringir às ofensas verbais. Finalmente, o adulto já emocionalmente formado tende a deixar de lado voluntariamente as agressões físicas e verbais, passando a apenas pensar em formas mais socialmente aceitas de retrucar a ofensa.

A total inversão nesse roteiro de autodomínio psíquico a que temos assistido perplexos em anos recentes e em especial no pós–eleição parece estar vinculado ao abandono da noção de bem comum, que deve pairar acima e além dos interesses individuais. Sem dúvida, a globalização tem uma importante parcela de responsabilidade na eclosão desses fenômenos, dada a inevitável relativização dos códigos morais de cada sociedade que ela implica. O caráter nazifascista e supremacista dos protestos é explícito não só por estas bandas, mas também no mundo todo. No entanto, mesmo considerando que o ‘jus sperneandi” é um direito constitucional garantido quase universalmente, é difícil explicar a volta à barbárie em sua forma mais arrebatadora sem o apoio mais uma vez da teoria freudiana.

Ao abordar o mito da horda primitiva, Freud aponta que a cola que mantém os irmãos unidos e obedientes aos ditames da autoridade paterna é a crença de que o amor do pai é distribuído de forma equitativa entre os filhos. Se se suspeita que ele favorece este ou aquele rebento, será detonada uma sanguinolenta guerra fratricida. A ambivalência na submissão acrítica, somada à inveja do poder tirânico do pai, termina levando inexoravelmente a seu assassinato e seu corpo será devorado num macabro festim pelos irmãos. Somente então o luto poderá ser elaborado, a culpa redimida e erguido um totem com regras rígidas de proibição do incesto.

Nesse sentido, parece ser natural também que todos que se sentem direta ou indiretamente culpados pela morte simbólica do autoproclamado Mito imbrochável e imorrível clamem desesperadamente por tutela. Ainda que entendam que ninguém está à altura de substituir o pai morto, precisam saber que contam com o apoio de uma autoridade externa forte o bastante para reequilibrar e dar novo ânimo ao combate. Que fique claro: eles não estão buscando uma tutela iluminada que possa conter terapeuticamente o desvario de seus demônios internos, mas simples força bruta para desfazer de uma vez por todas a incompreensível e inaceitável decisão de terceiros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Diz-me com quem andas

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Depois de ler algumas análises feitas por especialistas da área de Humanas a respeito da politização da religião, destrinchando as motivações ocultas por trás das falas sórdidas de Damares e de Bolsonaro, repercutindo os recentes conflitos entre religiosos católicos e fanáticos bolsonaristas, tive certeza: quanto mais se fala no assunto, quanto mais se ataca o comportamento do “gado”, quanto mais se tenta rebater os preconceitos e as perigosas ilações que os líderes da extrema-direita costumam fazer contra os adeptos das ideologias de esquerda, quanto mais nos embrenhamos nessa pseudoluta do Bem contra o Mal, mais se aprofundam os laços entre o público fundamentalista e seu “Mito”.

Fera acuada reage com muita maior agressividade. Pode parecer paradoxal que nosso esforço de aclarar os fatores-chave que estão em jogo obtenha o efeito exatamente contrário ao pretendido. Ainda assim, é algo bastante fácil de entender. É como acontece com as campanhas de prevenção contra as drogas, o álcool ou o fumo. Estabelece-se uma argumentação lógica, de ordem estritamente técnica, apontando os efeitos maléficos do vício e enquadrando o usuário como “vítima” inconsciente ou involuntária dessas armadilhas. O problema é que nenhum dos argumentos utilizados consegue se antepor de forma minimamente crível aos “benefícios” percebidos de prazer e escape temporário de uma realidade dolorosa causados por essas substâncias.

Adianta menos ainda apelar para os brios morais ou para a responsabilidade social – argumentos do tipo: comprando drogas você está abastecendo o crime organizado; bebendo, você perde tudo, emprego, apoio da família e respeito por si próprio; fumando, você causa prejuízo ao SUS que vai ter de tratar das comorbidades e deixar de atender quem mais precisa. Sem perceber, essa forma de mensagem aciona imediata e automaticamente um poderoso mecanismo de defesa, que se engalfinha na luta para racionalizar a necessidade de adesão ao vício.

Ou seja, toda forma de admoestação usada até aqui só comunica uma mensagem desagradável, de oposição aos seus bons propósitos: a de que os especialistas no combate a esses males são pessoas “quadradas”, alienadas, com a vida ganha, que “não entendem” as necessidades de segmentos sociais específicos – jovens desesperançados, desempregados, vítimas de violência doméstica e/ou policial, pessoas de periferia e de baixa renda que não veem futuro de ascensão social e os discriminados em função de sua origem racial, orientação sexual ou simples diferenças no jeito de se vestir, se comportar em público ou questionar o “sistema”.

Da mesma forma, no plano político, as críticas vindas das forças progressistas de esquerda às propostas e ao projeto de poder do bolsonarismo naufragam miseravelmente, antes mesmo de atingir seu alvo. Basta desqualificar de antemão essas vozes, associando-as a perigosas intenções dissimuladas: querem instaurar uma ditadura comunista (e para nós a liberdade é mais importante do que a vida, ainda que isso implique o fechamento do Congresso e do STF); defendem o aborto (e nós somos radicalmente a favor da vida, ainda que acreditemos que algumas vidas não merecem ser preservadas); são cristofóbicos (e nós odiamos quem não se pauta pelos mandamentos inscritos no Velho Testamento, ainda que sejamos obrigados a perseguir os que veneram o diabo); tentam impor a ideologia de gênero (o que representa para nós a destruição dos valores da família e a perversão de mentes infantis pela introdução precoce do tema da educação sexual nas escolas).

O irracionalismo definitivamente não pode ser combatido racionalmente. Isso porque ele está ancorado na própria identidade do convertido, nos conflitos inconscientes que permeiam sua estrutura psíquica. Está enraizado no imenso benefício emocional de se sentir parte indissolúvel de um grupo coeso e aguerrido, que conta com a proteção de uma figura poderosa e temida pelos adversários, que acolhe a todos sem julgamento e dá segurança para lidar com as incertezas da vida cotidiana.

Negar os desvios de caráter do líder passa, assim, a ser uma questão de sobrevivência psicológica. Aceitar que se abram brechas na estrutura monolítica do código pessoal de valores equivaleria a suicidar-se social e espiritualmente. Trata-se, no fundo, de uma cosmovisão dogmática. E dogma é, por princípio, uma verdade que não pode ser discutida nem contestada pela razão secular.

Mas não é só às hordas bolsonarista que isso se aplica. Infelizmente. Vale também, com força máxima, para o outro lado do espectro político-ideológico. Alegar que sua causa é nobre, que se está do lado certo da história, que somos seres iluminados a serviço da conscientização geral antes que seja tarde demais, também revela o quão pouco entendemos da natureza humana.

Se não concordássemos intimamente com a ideia de que o inferno são os outros, muito provavelmente já teríamos encontrado humildade de espírito suficiente para dialogar com o ressentimento histórico dessa gente, eternamente abandonada pelos governantes de plantão – e que, portanto, não vê diferença alguma entre ser governado pela esquerda, pelo centro, ou pela direita. Opor barbárie à civilização pode fazer sentido para uma elite intelectual, mas não agrega um só osso com restinho de carne à sopa a ser preparada para a família hoje à noite.

Um antigo chefe meu, sociólogo holandês, brincava que havia só duas teorias de aprendizagem: a que afirma que as pessoas aprendem pelo prazer e a que dita que a verdadeira aprendizagem só acontece pela dor. E, acrescentava ele, rindo: “Idealmente, todos deveriam aprender exclusivamente pelo prazer, mas não dá para esquecer que tem uns FDP por aí que merecem aprender pela dor”.

Qual seria, então, a saída? O que estou propondo de fato: censura, guerra civil, tratamento psicológico compulsório para quem adere a teses que considero absurdas? Nada disso. Como diria Stanislaw Ponte Preta, “ou nos locupletamos todos ou reinstaure-se a moralidade”. Que se reinstale o diálogo democrático sereno, que todos sejam chamados à mesa de negociação, que aceitemos abrir mão de alguns anéis para não perder os dedos, que se testem novas propostas de convivência democrática ainda não experimentadas entre nós.

Só não sei ainda como implementar essas mudanças na prática. Sei que não dá para negociar com terroristas armados até os dentes. Sei que não é possível eliminar a insanidade a golpes de realidade. Entendo que nenhum progresso humano é linear e incorpora avanços e recuos estratégicos permanentes. Mas será que não é suficiente perceber que se pode levar um cavalo até à água, mas é impossível fazê-lo dela beber?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.