Peixoto Gomide

José Horta Manzano

O processo de revisão histórica, que ganhou força duas décadas atrás, ressurge no presente e exige o “cancelamento” de certos personagens do passado que tenham virado nome de rua ou logradouro público.

A fase atual do movimento é menos ideológica do que estávamos acostumados. Prescreve a mudança de nome dos logradouros que levem o nome de assassinos e outros criminosos. A causa me parece justa. Onde já se viu eternizar de maneira honrosa o nome de criminosos?  É um disparate.

Um dos primeiros a serem postos na berlinda foi doutor Peixoto Gomide, nome de rua da cidade de São Paulo, via importante, de 2 quilômetros, que cruza a avenida Paulista. O homenageado foi presidente do Senado estadual de São Paulo, bem como presidente do mesmo estado. Resumindo seu fim de vida, matou a própria filha, crime conhecido em direito penal como filicídio. E suicidou-se em seguida. Sua história está bem resumida na Wikipedia, para quem quiser mais detalhes.

Os que pediram a mudança do nome da rua que o dintingue sugeriram que a homenagem seja feita a sua filha, a assassinada. Concordo, repito, que o nome do assassino seja apagado da placa. Quanto a homenagear a vítima, tenho cá minhas dúvidas. Com tantas pessoas assassinadas todos os dias no Brasil, por que critério umas teriam mais direito que outras a virar nome de rua?

Ampliando o raciocínio, acho que, quando se faz alguma coisa, é melhor fazer bem-acabado. Se permanecermos no caso Peixoto Gomide, uma rápida consulta a Google Maps me informou que há mais três ruas com o nome desse senhor em cidades paulistas: uma em Franco da Rocha, outra em Piracicaba e mais uma em Ribeirão Pires. Então, como é que fica? Muda-se aqui, mas não ali?

Sei que a fixação de nome de logradouro cabe à vereança do município. Assim sendo, o assunto está a merecer estudo em nível federal. Para evitar contradições, uma lei, decreto ou imposição legal de alcance nacional deveria regulamentar a questão e estipular o que pode e o que não pode.

O tema abre excelente perspectiva para formandos e/ou recém-formados em História, Geografia e áreas afins. O trabalho consistirá primeiro em obter a lista dos logradouros de cada município do país. Numa segunda fase, será pesquisada a origem de cada nome de logradouro: quem foi e o que se sabe sobre o homenageado. Casos escabrosos de criminosos ou delinquentes serão anotados e entrarão numa terceira fase, a do “cancelamento” propriamente dito.

Evidentemente, esse trabalho tem de ser normatizado, pontas aparadas, rebarbas limadas. Quanto a mim, já fiz minha parte: lancei a ideia.

5 pensamentos sobre “Peixoto Gomide

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  2. Melhor não mexer no passado. A verdade é que com o passar dos tempos e suceder de gerações pouquíssimas pessoas vinculam o nome dado a uma rua, praça, ponte, à pessoa do homenageado ou distinguido. Em Brasília onde resido, nos anos 70 foi inaugurada uma ponte e atribuída a ela o nome de Presidente Costa e Silva. Apesar do pomposo nome ficou conhecida simplesmente por “ponte costa e silva”. Com a ascensão da esquerda com Lula presidente em 2003 a câmara legislativa do DF entendeu por mudar o nome para Ponte Honestino Guimarães, um desconhecido na cidade e originário de Goiânia, GO, que iniciou um curso superior nos anos 60 na Universidade de Brasília não concluindo o curso na instituição. Como enveredou na seara política e desapareceu nos anos 70 no Estado de São Paulo no governo militar resolveram do nada homenageá-lo. Resultado: mudou-se o nome da ponte e para todos da cidade a referência que se faz é “ponte costa e silva”, muito embora haja uma placa praticamente invisível com o nome do desconhecido da população da cidade de “ponte honestino guimarães”. É melhor deixar como está. Que se proíba, doravante, nome de ruas, praças, pontes, etc, com nome de pessoas que tenham cometido crimes contra a vida.

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  3. A Comissão da Verdade recomendou em seu relatório a mudança do nome dos logradouros públicos que prestam homenagem a agentes da repressão que aturam na Ditatura de 64. Há um movimento nacional difuso e fragmentado para seguir a recomendação. Cada município eventualmente vai lidar à sua maneira, de acordo com os sentimentos e posturas do momento. Há locais que já promoveram mudanças para proibir a homenagem, outros que já redesignaram alguns logradouros.

    Em tempo: há uma ala no Senado chamada Filinto Müller, um sujeito que estruturou o DOPS para ser a máquina de repressão e tortura do Governo Vargas antes ainda do Estado Novo. Ele foi também o responsável direto pela deportação de Olga Benário grávida para morrer na Alemanha.

    A ressignificação de homenagens deveria começar por um autoexame no próprio Congresso Nacional, o que considero muito difícil de acontecer neste século.

    O Brasil é pródigo em enterrar o passado e deixar tudo como está.

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