Como todos os meus cultos leitores sabem, a expressão latina lapsus linguæ, que, ao pé da letra quer dizer “escorregão da língua”, é usada para indicar o ato de tropeçar na língua, dizer uma coisa por outra. O próprio Houaiss informa que, por influência das ciências psicanalíticas, um lapsus linguæ costuma ser interpretado como a expressão de “pensamentos reprimidos”.
Ontem, no abafamento úmido da selva amazônica, Lula recebia um Macron meio pálido, mangas arregaçadas, rosto transpirado e ar cansado. Via-se que o visitante não está habituado aos trinta e tantos graus de calor.
Os dois personagens principais tocavam conversa amena, sentados formando uma roda com numerosos participantes, entre ministros e índios paramentados.
Era a vez de Lula, personagem que nunca rejeita um microfonezinho. De repente, ele olha para Macron e lança, em seu dialeto costumeiro: “Eu e o Sarkozy vamo viajá po Rio de Janeiro inda agora à noite”.
Passado um instante de estupor, a pequena assembleia se tumultua. Vozes se elevam para apontar o erro. Lula logo conserta: “Eu e o Macron…” E a fala continua. (Trechinho de 20 segundos disponível no youtube.)
O erro não passa de um errinho sem consequências. Volta e meia, um dirigente troca o nome de um par. Talvez Macron nem tenha se dado conta, dependendo da pirueta dada pelo intérprete.
O que me ficou foi mais uma demonstração de que o Lula versão 3.0 não passa de um Lula 1.0 recauchutado por fora, mas com o miolo (=cerne) intocado. É verdade que Lula se encontrou com Sarkozy em numerosas ocasiões, mas esse fato, sozinho, não seria suficiente pra fazê-lo trocar o nome do atual presidente da França.
Muita gente reclama dos erros de governança cometidos por Luiz Inácio, que tenta aplicar hoje soluções que já não deram certo ontem. A verdade é que nosso presidente não se desgrudou de seus primeiros tempos na Presidência. Pelo jeito, não se desprenderá nunca.
Será que ele chegaria a chamar seu amigo Maduro de Chávez?

O lapsus linguae também é chamado na psicanálise de ato falho. E atos falhos são sempre muito reveladores.
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Era isso mesmo o que eu pretendia dizer. Parece que Lula pegou o vício do Biden. Sinal da idade ou desejo de volta aos bons tempos em que eram incensados nacional e internacionalmente?
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Agora, como revelador de um universo mental perturbado e covarde, não tem pra ninguém: Bolsonaro é o rei dos atos falhos.
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É um raro ramo em que ele é rei.
“Que rei sou eu,
Sem reinado e sem coroa,
Sem castelo e sem rainha,
Afinal que rei sou eu.”
Herivelto Martins, 1945
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