Brincando com fogo

José Horta Manzano

A ignorância beata de Jair Bolsonaro se somou ao oportunismo criminoso do ministro Salles para gerar uma clamor planetário em torno do desmatamento. A falta de modos de ambos levantou a lebre. Talvez não fosse o que pretendiam, mas conseguiram girar os holofotes internacionais para a violência com que estão incentivando a rápida destruição, em benefício de poucos, de um patrimônio que é de todos nós.

As queimadas deste ano – acidentais ou provocadas – chocaram o mundo. Ao redor do planeta, todos os cidadãos esclarecidos, ainda que residam longe do Brasil, sentem como se a própria casa estivesse pegando fogo. É sensação assaz desconfortável.

Bolsonaro perdeu o espírito crítico, se é que ele o teve algum dia. O homem se isola de toda crítica externa. Passa os dias mergulhado nas redes sociais trocando figurinhas com seus devotos. Dizem que o único canal ainda aberto entre sua bolha e o mundo exterior é o Jornal Nacional – emissão que ele odeia, embora ela não lhe faça oposição frontal. O isolamento do presidente alimenta seu alheamento. Enquanto isso, o mundo avança.

Lá fora, o mar não está pra peixe. Risco de reeleição de Trump, atentados terroristas na França, segunda onda de covid ainda pior que a primeira – o nível de humor do planeta anda próximo de zero. Constatar que Bolsonaro, um pequeno tiranete, taca fogo na mais importante floresta equatorial do mundo é insuportável. O contragolpe vem aí.

Ainda estes dias, Les Echos, jornal francês equivalente a nosso Valor, publicou artigo emblemático. Um grupo de importantes ONGs dedicadas à preservação da natureza juntaram forças pra pressionar o mundo das finanças. Em nota, informam que a soja brasileira está entre os principais fatores de desmatamento no mundo e que, com 50% do cerrado brasileiro arrasado, seu plantio já começa a invadir a (ex-)selva amazônica.

As ONGs estão pressionando os bancos para que cortem o financiamento dos grandes negociantes internacionais de grãos que contribuírem para o desflorestamento. Esses intermediários são conhecidos pela sigla ABCD – ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus, empresas que respondem juntas por quase 60% do comércio internacional de soja. Juntamente com o membro mais recente do clube – o chinês Cofco International – estão sentindo a pressão e já estão se preparando para deixar de comprar soja proveniente de municípios brasileiros onde o desmatamento é mais forte.

O financiamento bancário, nesse campo, é pra lá de importante. Para o comércio de grãos, somente os bancos franceses bancaram empréstimos de 9,5 bilhões de euros entre 2016 e 2019.

O que está acontecendo é muito grave para o futuro da economia brasileira de exportação. O Brasil não é o único produtor de soja. Estados Unidos, Argentina, China e Índia, que também plantam essa leguminosa, estão esfregando as mãos. Assim que a pressão da sociedade nos países importadores estiver insuportável, os negociantes serão obrigados a agir de verdade. Em vez de ficar discriminando municípios brasileiros um a um, a solução mais comercial será boicotar o Brasil e passar a comprar dos outros produtores. Com os bancos fechando a torneirinha do financiamento, essa troca de fornecedores não vai demorar.

Esse periga ser o legado que o atual governo vai deixar. Atingirá em cheio os produtores de soja; e, de tabela, a economia brasileira como um todo.

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